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Linguagem Fotográfica

LINGUAGEM FOTOGRÁFICA

Grosso modo, a linguagem se traduz em mecanismos estilísticos ou estéticos que norteiam a técnica fotográfica não só como meio de reprodução (representação) de um dado momento, de uma dada realidade, mas também, e como prefiro, na construção de uma proposta artística, autoral e subjetiva.

A fotografia é técnica e arte ao mesmo tempo? Ou a fotografia trata-se apenas de uma técnica ou de uma arte isoladamente?

Difícil conceituar e classificar a ponto de escolher uma ou outra. O próprio texto de Walter Benjamin “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” já falava a respeito dessa dualidade, evocando os conceitos de aura e autenticidade. Penso que sejam aspectos que se complementam e não excludentes. Técnica porque em seu conjunto são necessárias certas atribuições de ordem técnica. Basta compreendermos a evolução das câmeras fotográficas e seu processo de registro, exposição, revelação ou suporte imagético. Quando falamos nos dispositivos primários para o funcionamento da câmera, como o obturador – que controla a velocidade com que a “cortina” se abre e fecha para a passagem da luz e que influencia diretamente na sensação de movimento do objeto ou assunto fotografado – a questão técnica é reforçada.

Ou ainda, no funcionamento do diafragma – que são lâminas superpostas que se abrem e fecham, permitindo assim, maior ou menor abertura para a passagem da luz além de determinar a profundidade de campo (áreas de foco ou nitidez na fotografia) – é inevitável não falar ou atribuir a processos técnicos. Porém, quando compreendemos o todo, o resultado, a beleza implícita pelo controle destes elementos é impossível não falar em arte. A contemplação do resultado imagético é arte. Vale destacar que não discutimos aqui a questão do belo, e sim, a mais pura contemplação imagética proporcionada pela arte fotográfica.

Autores de referência ao estudo da imagem, como Roland Barthes, Ansel Adams, Michael Busselle, Susan Sontag, Jacques Aumont, Philippi Dubois entre outros, expressam a característica artística a fotografia ao afirmarem que, sem a determinação do fotógrafo, ou seja, as suas escolhas, os pontos de vista, a linguagem ali determinada, a foto não será produzida.

A linguagem que é expressa e escolhida pelo autor, pelo fotógrafo, deve traduzir o seu conceito em imagem, ou seja, o resultado imagético da foto depende, obrigatoriamente, das escolhas feitas na atribuição dos elementos da linguagem visual. Ansel Adams no livro “A Câmera” se dedica a conceituar o que ele chama de “visualização”. Visualizar para ele, parte do pressuposto que o fotógrafo deve imaginar, antes do click, a cena eternizada. A tarefa não é fácil. Barthes na obra “A câmera clara: notas sobre a fotografia” também evoca a idéia de momento único ou cena eternizada ao fazer alusão à fotografia como às águas que correm num rio, ou seja, um momento único que não se repetirá.

A proposta de buscar esta “visualização” da imagem, do resultado, antes da própria produção da foto exige do fotógrafo uma série de competências ao escolher determinado ponto de vista, iluminação, plano ou angulação no registro, atribuir, por exemplo, se irá trabalhar em Preto e Branco (PB) ou em cores enfim, exigem-se várias escolhas.

Além disso, a tarefa de imaginar como destreza e qualidade a exatidão dos detalhes garante ao fotógrafo, maior êxito em sua foto. São muitos os detalhes da imagem. Basta lembrar que, mesmo a partir de um mesmo objeto ou assunto fotografado é possível “escolher” inúmeras maneiras de se produzir àquela foto.

Com a proposta de tentar concentrar-se em alguns conceitos ou parâmetros de identificação de certa “linguagem fotográfica”, destacamos alguns pontos que serão pormenorizados a seguir: a) ponto de vista e composição; b) ponto de vista e perspectiva; c) luz, forma e tom; d) luz e textura; e) desenhos; f) cor e clima; g) temas fotográficos.

Para iniciar, quando falamos em ponto de vista e composição, para simplificar proponho que pensemos no visor da câmera. O visor da câmera, grosso modo, indica ao fotógrafo o espaço físico da escolha, da seleção do que vai ou não constituir a sua foto. Desconsidero aqui, obviamente, falha ou problemas como o erro de paralaxe – quando se atribui uma distinção entre aquilo que é visualizado pela objetiva (lente) do que é visualizado pelo fotógrafo no visor.

Desta forma, o ponto de vista se traduz como aquilo que é escolhido pelo fotógrafo. A escolha, podemos pensar se deve a alguns fatores como: proposta de trabalho, gosto estético ou simplesmente uma escolha autoral livre e arbitrária. Ou de outra forma podemos dizer que sua escolha deve-se a motivos subjetivos (pessoal, autoral) ou objetivos (reprodução factual). Michael Busselle, na obra “Tudo sobre fotografia” reforça a idéia ao dizer que: “Para um fotógrafo, o visor de uma câmera representa o mesmo que uma tela vazia para um pintor” (1998:10). Isso expressa bem a importância da escolha.

A escolha é tão séria que mínimas alterações só no fato de se posicionar ao fazer a foto implicam em variações gigantescas na luz, na composição da foto e, principalmente, na mensagem que será passada pela imagem. Portanto, tenha sempre em mente que a escolha do seu posicionamento, bem como a escolha da composição da imagem refletirá na foto. Além disso, deve-se ter em mente qual é o meu objetivo na foto, ou seja, estou fazendo foto do que ou de quem? Existe um equilíbrio na foto? Existe algo que chame mais atenção do que o meu motivo ou assunto fotográfico principal?

O ponto de vista pode seguir ou desobedecer às regras. Via de regra, devemos compreender a arte fotográfica como uma expressão livre, artística, portanto, ausente de uma gramática normativa que pode censurar determinada fotografia. Vejamos uma situação: Ao centralizar o assunto fotográfico, como uma mulher, por exemplo, inicialmente pode sugerir a idéia que identificamos claramente o meu objeto fotográfico. No entanto, ao centralizar o assunto, minha imagem fica esteticamente simples, sem muito movimento, sem muita significação. Eu poderia optar, por exemplo, em deixá-la em um dos lados para garantir maior equilíbrio à foto.

Já quando falamos ou pensamos em composição fotográfica, é importante pensarmos nos elementos adicionais ou acessórios a foto, porém não com a idéia de tomar o espaço destinado ao assunto principal, mas sim, com o objetivo de passar novas informações ou significados. No exemplo já citado da mulher, imagine adicionar um outro elemento, como flores, ao lado oposto do posicionamento da mulher. Certamente esta nova imagem passará uma nova significação. A composição, portanto, deve ser compreendida como todos os elementos inseridos no espaço do visor. Com o elemento principal e também os elementos secundários.

Quando adicionamos um novo elemento à linguagem fotográfica, como a perspectiva, muita coisa se altera. Porém, antes de falar sobre tal implicação, devemos antes ressaltar que a fotografia trata-se de uma imagem bidimensional. Ou seja, temos enquanto representação física as dimensões de altura e largura. Ao inserir a perspectiva nas fotos, inserimos também a terceira dimensão, ou seja, profundidade a cena. Com isso, pode-se explorar novos resultados ao optar por um ponto de vista em perspectiva. De maneira mais óbvia podemos inserir uma perspectiva linear na foto, com auxílio de linhas que percorrem toda a extensão da foto. Podemos optar também pelo método de redução de escala. Imagine dois elementos: uma gigantesca árvore e uma criança. Ao posicionar a criança próxima a árvore e a câmera distante dos dois objetos terei uma noção exata da relação entre as diferentes alturas (criança baixa e árvore alta). Quando vou distanciando a criança da árvore, e aproximando-a da câmera, a criança parecerá maior do que realmente é. E finalmente, quando coloco a criança distante da árvore e bem próxima a câmera, conseguirei um efeito inverso, ou seja, a criança parecerá maior que a árvore.

Falamos em perspectiva também, ao fato do fotógrafo poder optar por um recorte horizontal ou vertical na sua foto; ou um recorte que busca uma angulação na fotografia de cima para baixo como também inversamente, ou seja, de baixo para cima.

Normalmente – mas não via de regra – a escolha vertical ou horizontal enquanto recorte da foto tem a ver com a necessidade do fotógrafo de encaixar determinados elementos em sua composição. Por exemplo, se pretendo fotografar uma praia e quero reforçar a imensidão do seu horizonte, acabaria optando pelo recorte horizontal. Agora se quero fotografar um casal de namorados em pé contemplando um parque posso optar pelo recorte vertical. Do mesmo modo posso optar por fotografar um belo teto de uma igreja da perspectiva do chão ou ainda, fotografar de cima de uma sacada crianças brincando livremente na calçada.

Com a perspectiva, além de constituir como mais um elemento na linguagem fotográfica, precisamos pensá-la como um recurso que pode, muitas vezes, alterar a relação natural ou real da imagem, daí mais uma vez, reforço a idéia de que a fotografia “representa” um dado momento e uma dada realidade e não a realidade.

Luz. Fotografia, etimologicamente significa “grafia da luz” ou “escrever com a luz”. A luz, a iluminação tem um papel essencial e definitivo na fotografia. Quando falamos de luz podemos dividi-la enquanto natural (sol), artificial (refletores de todos os tipos e intensidades) qualidade (fraca, forte, direta ou rebatida) e direção (de cima, de baixo, do lado, de frente, de trás ou contraluz). A luz também propícia à construção ou entendimento de diferentes formas e tons. Os diferentes tipos de luz resultam, obviamente, em diferentes resultados. Não podemos esquecer que, “onde há luz, há sombras” na obra “Luz, câmera, ação” de Edgar Moura.

A luz natural caracteriza-se pela luz do sol e suas diferentes variações de intensidade e cor e temperaturas de cor. Já a luz artificial, caracterizada por refletores, flashes ou pontos de luz, se apresenta de diferentes maneiras com diversas opções enquanto refletores como os do tipo snnot com uma luz centralizada e forte; o hazy-light com uma luz abrangente e suave; e as do tipo sombrinha com uma luz forte e rebatida bastante comum em estúdios fotográficos.

A luz fraca é aquela que atinge o objeto ou assunto fotografado com baixa intensidade. Ela pode ser proveniente de uma fonte de luz indireta, ou seja, quando a luz é rebatida e não é atingida diretamente pela fonte de luz. Como característica, tende a iluminar o objeto como um todo deixando sombras suaves. Para facilitar, podemos associar a um dia com céu nublado. A luz forte caracteriza-se pelo contato direto entre fonte de luz e assunto fotografado, ou seja, luz direta. Como resultante, ficará mais evidente sua sombra.

Quando falamos na direção da luz, ela pode ser de cima para baixo quando a fonte de luz é posicionada acima do objeto ou assunto fotografado. Seu posicionamento é bastante comum, visto que normalmente já nos acostumamos com essa direção da luz, tanto com iluminação natural (a luz do sol) como também de fontes artificiais (lâmpadas comuns em um ambiente de casa). Tal direção de luz tende a deixar uma sombra abaixo do objeto ou assunto fotografado. Quando ela é posicionada de baixo para cima, trata-se de um tipo incomum, mais artístico e autoral e a sombra é projetada inversamente, ou seja, acima do objeto. Como exemplo, quando posicionamentos uma fonte de luz de baixo para cima no rosto de uma pessoa formaram sombras do queixo e do nariz. As luzes laterais também são um tipo bastante comum na fotografia. Normalmente a luz será projetada em um dos lados. Este lado terá uma iluminação mais forte e o lado oposto ficará sombreado. A iluminação é rica na construção de tons e formas. A qualidade e intensidade da luz implicarão a qualidade e a intensidade da sombra. A luz frontal tende a esconder determinadas formas por se apresentar de modo mais chapado não resultando em sombras, tons ou formas. Enquanto aplicabilidade é muito comum este tipo de luz nas fotografias de objetos. A luz proveniente de uma fonte posicionada atrás do assunto também é conhecida como contraluz. Também se caracteriza como uma luz especial, de efeito, autoral e artística. O resultante deste tipo de luz é evidenciar as formas e contrastes dos objetos, priorizando a sua silhueta.

A textura trata-se do tipo espacial de uma determinada superfície. Com o auxílio da luz e da sombra provocada ao objeto à textura é vista. A variação de suas qualidades e formas possibilita desenhos incríveis. Imagine um campo com diferentes tipos de plantações, ou uma madeira sendo talhada ou ainda uma pela que já demonstra os sinais da idade. É possível ainda mesclar, misturar diferentes texturas, basta um olhar atento do fotógrafo.  Os desenhos na fotografia andam lado a lado com a textura. É preciso ficar atento a diferentes formas geométricas na composição fotográfica, na relação entre luz e sombra, nas linhas formadas por paredes vazadas ou tijolos, no vôo de vários pássaros sob um céu limpo sem nuvens, enfim, mais uma vez requer um olhar apurado e um bom ponto de vista.

As cores também exercem total influência sobre a linguagem fotográfica. As cores em uma foto podem indicar e promover sensações em quem contempla esta mesma fotografia. É possível “brincar” com a variação das cores e com a mistura delas. Imagine a fotografia com a seguinte composição: um girassol bem amarelado e no fundo um céu azulado sem nuvens. Porém, deve-se ficar atento com o excesso de cores na mensagem fotográfica. Imagine a fotografia de uma mulher com vestido florido sentada em um sofá estampado com tema florido. As cores podem dar vida a foto. Existe também a possibilidade de se trabalhar com fotografias PB (preto e branco). Nesta situação, o fotógrafo deve atentar-se a escala de cinza, isto é, a variação entre o branco absoluto para o preto absoluto. Quanto maior for essa escala mais qualidade de variação de cor a foto terá.

Os temas fotográficos também implicam ou possibilitam ao fotógrafo a utilização de determinados recursos quanto à linguagem. São temas recorrentes em fotografia: paisagens, arquiteturas, esportes, natureza morta, pessoas, animais entre outros. Além de uma classificação enquanto gêneros como é o caso do fotojornalismo, fotodocumentarismo, fotografia publicitária entre outros. Como exemplo, podemos argumentar que, no caso de fotografia de paisagens devemos priorizar um plano fotográfico mais amplo, pois concentrará mais informações; ao contrário das pessoas que posso optar por um recorte mais fechado, de detalhes, como nos olhos ou na boca. Na fotografia de esportes posso optar por uma iluminação mais forte, dura e direta, priorizando o fato, mostrando com exatidão a cena, o lance; já na proposta de um ensaio mais sensual posso trabalhar com uma iluminação mais suave ou em contraluz, sem revelar detalhes mantendo a curiosidade do observador da foto.

Conforme se percebe, a linguagem fotográfica por meio das diferentes opções de escolha do fotógrafo pode influenciar diretamente no resultado fotográfico, na foto em si. Além disso, existe uma relação direta entre a proposta de foto com os elementos que o fotógrafo dispõe para realizá-la. É preciso ficar sempre em estado de alerta e observação constante ao entorno. Um olhar apurado e o conceito de “visualização” tratado por Adams garantem maior êxito ao trabalho fotográfico, esse amálgama entre arte e técnica.
Ulisflávio Evangelista
Enviado por Ulisflávio Evangelista em 15/07/2012
Código do texto: T3779518

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Sobre o autor
Ulisflávio Evangelista
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