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OS ASPECTOS SOCIAL E POLÍTICO PRESENTES NO POEMA: “MORTE DO LEITEIRO” DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Autor: CLARINDO, Heliomar de Oliveira

RESUMO: Este trabalho surgiu da necessidade de analisar a importância dos Aspectos Sociais e Políticos presentes no poema: “Morte do Leiteiro”, do poeta da Segunda Geração Modernista, Carlos Drummond de Andrade. O presente estudo tem o intuito de entender como essa poesia pode se aproximar dos leitores, no sentido de torná-los leitores mais reflexivos, e interessados pela poesia de um autor simples, no ato de tornar as coisas e o ser humano também simples. Procuramos evidenciar o Surgimento da Poesia Moderna a fim de um melhor entendimento da análise do poema, apontar a linguagem coloquial e simples para mostrar que a mesma é típica da Poesia Modernista, evidenciar as ideologias Drummondianas a fim de entender a sua preocupação com o ser humano brasileiro, entre outros tópicos importantes. O presente estudo de cunho analítico foi realizado através de uma pesquisa bibliográfica. Para tanto, recorremos a diversos autores, dentre os quais citamos: AMARAL (2003), BAUMAN (2001), BOSI (1936), CANDIDO (1975), COUTINHO (1986), MOISÉS (1928), SÁBATO (1994). A mesma consistiu no exame da Literatura Modernista, para levantamento e análise do que já se produziu sobre o tema. Ela abrange a leitura, análise e interpretação de livros, documentos, entre outros. Todo material recolhido foi submetido a uma triagem, ou seja, uma seleção daquilo que é de maior importância para o tema em estudo.Por meio dela, procuramos, com o auxílio de bases de dados, todo tipo de documento que melhor se adaptasse e se relacionasse ao tema aqui proposto.


 PALAVRAS-CHAVE: Modernismo. Carlos Drummond de Andrade. Poema. Morte do Leiteiro. Linguagem.

1 INTRODUÇÃO

Cada autor, cada movimento literário, prega seu projeto estético e sua ideologia. Nunca temos movimentos literários idênticos, mas temos autores que tratam de assuntos iguais, porém, com uma estética diferente.
O caráter Social e Político presente no poema Morte do Leiteiro de Drummond é um fato que está relacionado à sua ideologia e ao movimento literário ao qual ele pertence. Sendo assim, a linguagem predominante no poema tem que ser simples e coloquial, e que trate daquilo que é colocado segundo as ideias que o seu movimento prega.
Neste estudo, daremos enfoque à poesia Morte do Leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade, presente no seu livro A Rosa do Povo, publicado em 1945.
A motivação para fazermos um estudo sobre este tema surgiu a partir do momento em que tínhamos que apresentar um seminário na disciplina de Literatura Brasileira II, ministrada pelo Professor Especialista José Dimas de Carvalho, no Curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú, no semestre 2011.1 sobre a Poesia Modernista de Carlos Drummond de Andrade.
Nessa mesma época, estávamos lendo alguns livros sobre o Modernismo, e foi a partir de então que nos interessamos pela Poesia Moderna, principalmente a de Drummond. O fato de os autores dessa época literária fazerem uso de uma linguagem simples, e ao mesmo tempo poética, nos permitiu um gosto maior por essa literatura.
A disciplina de Literatura Brasileira II nos ajudou muito, principalmente pela clareza com que os conteúdos eram expostos pelo professor. A cada aula existia um interesse maior em conhecer e pesquisar a respeito desse movimento literário. As poesias expostas em aula pareciam ir ao encontro com o nosso pensamento, principalmente pelo fato de os autores estudados focalizarem, em sua maioria, assuntos modernos, sociais, que nos mobilizam a pensar a respeito de como está o mundo, e como podemos fazer para ajudá-lo a melhorar nos seus diversos aspectos. A poesia de Drummond nos possibilita essa reflexão, principalmente na sua fase “Social”, onde ele mostra, através da “Literatura Engajada”, os problemas que a sociedade e o homem enfrentam.
O desenvolvimento deste estudo organiza-se a partir de três categorias, um de natureza conceptual, com esclarecimentos sobre O SURGIMENTO DA POESIA MODERNISTA NO BRASIL, e os outros referem-se ao caráter analítico, com apresentação da obra A ROSA DO POVO e a análise aprofundada sobre o Poema “Morte do Leiteiro”.
O presente estudo, de cunho analítico, foi realizado através de uma pesquisa bibliográfica. Para fundamentar teoricamente este estudo utilizamos alguns teóricos que analisam a Literatura Modernista e a sua repercussão referente aos temas abordados, a saber: AMARAL (2003), BAUMAN (2001), BOSI (1936), CANDIDO (1975), COUTINHO (1986), MOISÉS (1928), SÁBATO (1994), dentre outros autores que se dedicaram a esse assunto.
Para atingirmos o nosso objetivo, estudamos a Literatura Modernista, com exemplificações e maiores esclarecimentos, a fim de fazer surgir discussões por parte dos leitores, com ideias diversificadas a respeito do tema aqui proposto, para levantamento e análise do que já se produziu até então.
O poema “Morte do Leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade, evidencia os problemas enfrentados pelo povo. No poema, Drummond coloca o “leiteiro” como referência das injustiças vigentes no meio social brasileiro.
Drummond foi um poeta que sempre se preocupou em tratar com simplicidade as situações cotidianas do homem brasileiro. Analisou o homem moderno e seus sentimentos, com sensibilidade, e muitas vezes, com ironia. Sempre procurou perceber as injustiças do mundo, como as guerras e a violência, e, meditando nesses problemas, buscou transformá-las em matéria de sua poesia. Alguns temas foram bastante recorrentes em sua obra como: o cotidiano, a preocupação social e política, as reminiscências (terra natal, família, amigos), o amor e a metalinguagem. O foco deste estudo será a preocupação Social e Política presente na sua poesia: “Morte do Leiteiro”.

2 SURGIMENTO DO MODERNISMO NO BRASIL

Como sabemos, o Modernismo no Brasil teve início oficialmente em São Paulo com a Semana de Arte Moderna, em 1922. A partir daí, começou a se espalhar por todo o Brasil, pregando uma ideia de uma literatura nova, e também com autores manifestando novas ideologias e novas formas poéticas.


O que a crítica nacional chama, há meio século, Modernismo está condicionado, isto é, por algo datada, público e clamoroso, que se impôs à atenção da nossa inteligência como um divisor de águas: a Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922, na cidade de São Paulo. (BOSI, 1974, p. 339)


Segundo Bosi (1974), este movimento surgiu como um adjetivo para definir o estilo dos novos. Veio também confrontar as idéias e o estilo conservador do Parnasianismo e do Simbolismo. A partir do ano de 1922 as manifestações inovadoras referentes às novas artes, como a literatura, por exemplo, começaram a surgir, provocando diversas polêmicas para a sociedade da época.


A historiografia tem considerado o ano de 1893, quando Cruz e Sousa publica Broquéis e Missal, início do movimento simbolista entre nós. Sucede que a hegemonia do ideário simbolista não foi nem completa nem duradoura: a tendência realista, nela incluindo as ramificações naturalistas e parnasianas, igualmente se projetaria para além da década de 90, chegando mesmo a ultrapassar 1922. (MOISÉS, 1989, p. 03)


Moisés (1928) afirma que os ideais do Simbolismo e do Parnasianismo continuariam vigentes nos anos que iniciam o Modernismo no Brasil. Considera ainda que esses dois movimentos constituem estéticas contemporâneas, paralelas e interinfluentes. Mas, pelo fato de o Modernismo se afastar tanto desses ideais, consideramos neste estudo que essas correntes não vão de encontro ao conteúdo aqui proposto.  Por tratarmos aqui de uma análise de um poema com características tão peculiares ao Modernismo, como a linguagem coloquial, a não utilização de rimas, com uma métrica irregular, entre outros recursos. Por isso ocorre a existência do afastamento das idéias do estudioso Massaud Moisés.
O fato de os novos nomes da Literatura brasileira tomarem posição em expressar uma literatura revolucionária, e com temas livres a respeito da realidade do Brasil, trouxe algumas problemáticas, mas mesmo com as dificuldades de expressão conseguiram êxito em seus manifestos.  Os autores dessa época desejavam se expressar livremente, com uma linguagem coloquial, semelhante à nossa fala, afastando-se assim dos modelos portugueses, abandonando as formas fixas, como o soneto, por exemplo, trazendo uma linguagem mais acessível aos leitores.
De acordo com a Academia Cearense de Letras, no livro intitulado Modernismo: 80 anos, percebemos que a linguagem realmente foi um dos principais focos de discussão, como foi evidenciado a partir da Semana de Arte Moderna.


A língua foi a primeira preocupação dos escritores modernistas. Havia que radicalizar contra o uso de um idioma eminentemente lusificado, de uma Língua Portuguesa regida pela norma lusitana no Brasil. A escrita é levada a incorporar um discurso mais popular. (LETRAS, 2002, p. 28-29).


Um exemplo disso foi o poema-paródia: “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, onde é feita uma crítica aos Parnasianos. Com esse poema foi possível perceber a radicalização com que os poetas modernistas queriam de fato trazer algo simples, sem complicação, em relação à linguagem.


O poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, que ridiculariza o Parnasianismo, mormente o Pós-Parnasianismo, foi declamado por Ronald de Carvalho “sob os apupos, os assobios, a gritaria de “foi não foi” da maioria do público. (BOSI, 1974, p. 381).



Os acontecimentos desse período literário receberam muito enfoque, principalmente no que se refere às questões industriais. A máquina ganha espaço na sociedade e a vida das pessoas passa a ser mais acelerada. Tudo que era considerado fora dos padrões estéticos, era posto nos textos dos novos autores, o humor e a denúncia social eram questões bem presentes nos textos da época.
O Modernismo apresenta três fases distintas: 1ª fase – chamada de fase destruidora, (1922-1930), essa fase foi marcada pela quebra das tradições literárias, “poema-piada”, com um profundo nacionalismo, primitivismo, aversão ao nosso passado histórico; a 2ª fase – chamada de fase edificadora, (1930-1945), essa fase foi caracterizada pela construção de uma literatura renovadora, originando a ficção nordestina e regional, e o romance urbano, psicológico e introspectivo; e por fim a 3ª fase – (1945 até a atualidade) essa fase também é conhecida como Pós-Modernismo.

3 COMENTÁRIO SOBRE A POESIA SOCIAL PRESENTE NA OBRA “A ROSA DO POVO” DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O poema “Morte do Leiteiro” foi publicado em 1945 no livro A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade. É uma das obras mais extensas do autor, composta por 55 poemas, também é considerada a primeira obra madura e de maior expressão do lirismo social e modernista.


A maturidade humana e poética de Carlos Drummond de Andrade, que corresponde à terceira fase de sua poesia – a do reconhecimento de o “coração [é] menor que o mundo” –, explode em A Rosa do Povo, de 1945, ano em que termina a Segunda Guerra Mundial. AMARAL (2003, p. 288):

 
Nesse período, não acontece somente o término da Segunda Guerra Mundial, outros grandes feitos mundiais marcam a publicação desta obra, como, por exemplo, o término do Nazismo, do Fascismo, da ditadura de Getúlio Vargas e a aceleração do progresso técnico, mecânico e científico.


O presente social e histórico representado na ascensão do nazismo e do fascismo, no irromper da Guerra Civil Espanhola e na conflagração da Segunda Guerra Mundial, tanto quanto o acirramento das questões ideológicas entre capitalismo e comunismo. (LETRAS, 2002, p. 232-233).


Nesse livro, o autor procura mostrar o lado social de sua poesia, denunciando através do poder da palavra as injustiças sociais enfrentadas pelo povo brasileiro. É uma obra que não reflete apenas um tempo individual, pelo contrário, reflete um tempo coletivo no país e no mundo, onde o autor evidencia os acontecimentos da sua época.


Ao lermos a grande poesia realizada em A Rosa do Povo, percebemos no estilo de Drummond os mesmos traços já mencionados: a sobriedade, o humor discreto, a ironia fina, a contenção emocional, a clareza inflexível na percepção minuciosa do real. Com essa obra em particular e com a sua produção como um todo, o poeta torna-se o mais significativo representante brasileiro da lírica moderna. (AMARAL, 2003, p. 288).



Podemos perceber claramente, segundo as palavras de Emília Amaral (2003), que algumas dessas características mencionadas marcam a Poesia Modernista, fazendo de Drummond um dos grandes nomes desse Movimento Literário. Drummond trata com ironia assuntos sérios e que merecem um olhar especial.
  No poema “Morte do Leiteiro”, Drummond faz uma relação muito íntima entre a vida do trabalhador, neste caso o “leiteiro”, mostrando suas dificuldades de posicionamento em meio à sociedade e sua questão de sobrevivência.


Nessa obra, o tema das iniqüidades do sistema capitalista, incluindo as questões sociais e políticas deflagradas pela Guerra, funciona como fato-exemplo da opção do poeta pelo presente. Além disso, convive com outros temas, inclusive alguns de natureza metalingüística, num momento de depuração técnica, de refinamento poético. (AMARAL, 2003, p. 288).


O capitalismo está presente no poema, pois o mesmo foi escrito em uma época em que todos queriam ascender socialmente. O burguês colocado no poema marca esse capitalismo, dando assim um novo rumo ao decorrer da narrativa. A Rosa do Povo nos remete ao capitalismo e à busca de poder, evidenciando assim os problemas e injustiças político-sociais.


Foi pelo prosaico, pelo irônico, pelo anti-retórico que Drummond se afirmou como poeta congenialmente moderno. O rigor da sua fala madura, lastreada na recusa e na contensão, assim como o fizera homem de esperança no momento participante de A Rosa do Povo, o faz agora homem de um tempo reificado até a medula pela dificuldade de transcender a crise de sentido e de valor que rói a nossa época, apanhando indiscriminadamente as velhas elites, a burguesia afluente, as massas. (BOSI, 1974, p. 495).



Podemos perceber que Drummond se destacou muito pelo fato de ter características fluentes em relação aos métodos modernos. Em A Rosa do Povo, o poeta demonstra de maneira magnífica a sua bela obra-prima. Fazendo os leitores se encantarem com uma obra que fala tanto, mas com palavras simples, confirmando ainda mais o talento desse grande poeta.
Lins, um dos grandes críticos da Literatura Brasileira, comenta sobre a publicação de A Rosa do Povo, revelando a qualidade exposta por Drummond, referente à sua excepcional dramaticidade e forma espetacular de apresentar poemas com caráter instigante aos olhos dos leitores.

O principal acontecimento poético do ano de poesia 1945 foi sem dúvida a publicação de A Rosa do Povo, do Sr. Carlos Drummond de Andrade. Vejo antes de tudo nesta coleção dos seus últimos poemas, um movimento no mais fundo da zona subterrânea da criação, um conteúdo dramático que não decorre só da qualidade da poesia em si mesma, mas também dos seus elementos de contradição, fazendo crescer assim o ritmo da dramaticidade, no espetáculo de um poeta que procura equilibrar e fundir artisticamente duas tendências que o apaixonam numa época de agitações e divisões extremas, bem difícil para os anseios de equilíbrio e paz. (LINS, 1947, p.83).

Nessa obra é possível perceber a capacidade de Drummond em refletir através de seus poemas, os enfoques e as transformações mais radicais de sua época. Um período de grandes confusões, onde Drummond, com seu modo delicado e sutil, trata dos problemas sociais mais prementes desse período.


4 ANÁLISE:  O ASPECTO  SOCIAL E POLÍTICO PRESENTE NO POEMA “MORTE DO LEITEIRO”

A análise do Poema “Morte do Leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade mostra que se faz por meio de palavras simples, uma crítica à sociedade brasileira através de um poema narrativo, onde são enfatizados aspectos de um moço, “Leiteiro”, que vive um drama em seu cotidiano, e sofre por meio dos impasses e injustiças ocorridos em uma sociedade capitalista.
Neste poema podemos perceber que Drummond revela uma característica muito peculiar de pessoas individualistas e capitalistas, representados aqui, pela figura do “Burguês”, personagem de grande tensão neste estudo. Tanto o leiteiro, quanto o burguês, representam com discrepâncias seu reflexos totalmente opostos, um por fazer apenas o que lhe é imposto, o que lhe convém, aquilo que lhe é de obrigação, que é acordar cedo e distribuir leite para aqueles que ainda dormem, e o outro por estar sempre em vigilância, a cuidar e proteger a qualquer custo a sua propriedade. E é nesse contexto de oposição entre classes que se constrói umas das obras-primas de Drummond.
Como sabemos, “Morte do Leiteiro” nada mais é que uma das inúmeras obras-primas de Drummond. Neste poema temos um narrador onisciente, que participa ativamente dos fatos. Dois personagens em conflito, sendo o primeiro o “leiteiro” e o segundo o “burguês”. A partir desses dois personagens podemos perceber já de imediato que o poema trata de uma divergência de classes sociais, o “leiteiro”, pertencente à classe dos Proletários e “burguês” por sua vez, representando a alta sociedade, a burguesia.
Percebemos neste poema que se trata de um ambiente de violência e medo, pois temos aqui um acontecimento do cotidiano urbano. Por ser um poema narrativo, se assemelha muito à crônica. Possui uma linguagem simples, sendo típica do Modernismo, possibilitando assim ao leitor um melhor entendimento.

A poesia social de Drummond deve ainda a sua eficácia a uma espécie de alargamento do gosto pelo quotidiano, que foi sempre um dos fulcros da sua obra e inclusive explica a sua qualidade de excelente cronista em prosa. Ora, a experiência política permitiu transfigurar o quotidiano através do aprofundamento da consciência do outro. Superando o que há de pitoresco e por vezes de anedótico na fixação na vida de todo dia, ela aguçou a capacidade de apreender o destino individual nas malhas das circunstâncias e, deste modo, deu lugar a uma forma peculiar de poesia social, não mais no sentido político, mas como discernimento da condição humana em certos dramas corriqueiros da sociedade moderna. (CANDIDO, 1975, p. 108-109).

 
A partir do trecho citado podemos perceber a presença de informações mais reais em relação à poesia de Drummond. No poema que será analisado iremos notar o quanto essa poesia foca nos modelos sociais e políticos, revelando o que o poeta tem de melhor nesse momento para expor aquilo que equivale genuinamente ao cotidiano das pessoas.
Temos no poema narrativo o “leiteiro”, um rapaz que trabalha, vendendo leite, alimento indispensável à saúde do ser humano, que pensa apenas em fazer o seu trabalho honestamente, e um proprietário “burguês”, que nada faz, além de proteger o que lhe pertence, pensando apenas em salvar e cuidar de sua propriedade. Essa dualidade presente no poema nos leva a perceber como a luta de classes e a exploração se tornam traços marcantes no poema, indo ao encontro à temática principal, que seria os aspectos Social e Político.
Os Aspectos Social e Político presente no poema Morte do Leiteiro, nos levam a perceber que o autor quis mostrar e evidenciar esses problemas enfrentados por homens simples de uma sociedade. Neste poema, temos um referencial de injustiça social e política.

Para compreendermos em que consiste a expressão lírica moderna, lembremo-nos do tradicional afastamento do poeta lírico em relação à realidade exterior, já que a ele o que interessa é o seu universo interior, subjetivo. Em oposição a essa postura, o criador da lírica moderna é o poeta que, como Drummond, “está preso à vida”; não pode deixar de enfrentá-la, porque lhe é necessário denunciar as suas condições, as suas desigualdades sociais, políticas e humanas. Ao mesmo tempo, continua a ser lírico, isto é, a criar uma poesia em que mantém o posicionamento interior, a emoção e a reflexão diante do que vê, o que o torna envolvido, comprometido com o mundo, como o é consigo mesmo. Assim, amplia a densidade artística desse gênero, nele inserido a preocupação com o social. (AMARAL, 2003, p 288).


Amaral, em suas palavras, nos faz refletir exatamente por meio da associação entre preocupação social e a lírica do poema. Pois é comum ao leitor perceber que apesar de se tratar de um fato bastante relevante em relação aos acontecimentos cotidianos, como aqui já foi dito, o poema se aproxima da crônica por narrar um acontecimento do dia a dia. E é por isso que Drummond se destaca com essa narrativa, pois apesar de tratar de algo aparentemente comum, real, ele nos faz perceber, através da lírica, que esse poema também é capaz de mexer com os sentimentos do leitor, pois uma das finalidades do poema é exatamente fazer o leitor refletir, se comover com a temática apresentada.
O que podemos perceber nesse poema é exatamente isso. O narrador, aqui, nos mostra as desigualdades sociais e políticas, com exemplificação de dois personagens que norteiam a narrativa do poema. No decorrer da narrativa temos um ato de violência com a presença de sangue, a morte se faz presente na poesia de Drummond. Mas apesar dessa fatalidade acontecer, o poeta nos faz perceber e sentir um toque de lirismo no poema, pois aos leitores é colocada a cena de morte, exatamente para mostrar esse sentimentalismo através da perda. Drummond nos faz entrar e presenciar o fato, ele nos faz viajar e participar da narrativa. Com isso, ele nos possibilita pensar no próximo, e não vivermos no constante “individualismo”. Pois pensar no próximo, é pensar em nós mesmos.
Esse poema nos possibilita fazer uma alusão a uma “Obra de Arte”, pois podemos analisar a sequência perfeita com que são narrados e distribuídos os fatos. Tudo acontece de forma linear, perfeita. E é nesse caráter peculiar de Drummond que observamos o seu grande potencial de um poeta.


Poesia é uma arte. Toda arte supõe uma organização, uma técnica, uma disciplina que faz das obras uma manifestação encerrada em si mesma. A obra-de-arte é antes de mais nada uma organização fechada, em toda criação artística deve haver intenção de obra de arte. (ESTÉTICA, 3, p. 327 apud BOSI, 1936, p. 385)


Drummond coloca a figura do “leiteiro” para com isso fazer sua denúncia a respeito de problemas enfrentados por trabalhadores, e a luta por sobrevivência a custa do suor derramado ao vender o leite. Talvez o “leite” tenha sido colocado como referência no poema, não apenas como alimento indispensável à saúde, mas também como forma de um meio de sobrevivência a cada litro de leite vendido, dando assim o sustento para um pobre e simples homem, que talvez pensasse apenas em sustentar sua família.
O poema possui uma linguagem muito acessível ao leitor. Composto por oito estrofes, ele vem falar daquilo que seria comum na sociedade daquela época. A luta de classes faz do poema um objeto social e político. Um período onde grandes acontecimentos mundiais ocorriam, como aqui já foi citado. Passemos então à análise do poema:
A primeira estrofe é feita de impessoalidade. Temos orações sem sujeito:

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
(ANDRADE, 2006, p.178).

Essas orações evidenciam a escassez de leite, e que existe muita gente para a qual esse leite ainda não pode chegar, tanto pela questão econômica da população, quanto, da lentidão nas melhorias das condições de vida. Drummond talvez tenha usado da ironia para fazer uma crítica à sociedade brasileira do século XX, mostrar como as pessoas tinham que ter paciência para receber algum bem social por parte dos governantes.
No final da primeira estrofe podemos perceber a desigualdade social, onde é evidenciada a luta para salvar a propriedade. A classe dominante nos parece mostrar que alguém será explorado pela sua condição de trabalho.


Como Karl Marx descobriu, as idéias das classes dominantes tendem a ser as idéias dominantes (proposição que, com nossa nova compreensão da linguagem e seu funcionamento, poderíamos considerar pleonástica). Por pelo menos 200 anos foram os administradores das empresas capitalistas que dominaram o mundo – isto é, separaram o factível do implausível, o racional do irracional, o sensato do insensato, e de outras formas ainda determinaram e circunscreveram a gama de alternativas dentro das quais confinar as trajetórias da vida humana.(BAUMAN, 2001, p. 66-67).



A partir desta ideia, podemos perceber que sempre existiu essa luta entre classes dominantes e dominadas. No poema percebemos que a vida do “leiteiro” nos leva a ver a sua rotina diária em função da distribuição do leite. Nesse desenrolar do poema, o “leiteiro” está em constante dominação e exploração da sua força do trabalho pela sociedade capitalista, à qual o mesmo pertence.
O narrador ainda nos mostra nos versos seguintes que haverá morte no decorrer do poema. E que tudo será feito para defender os bens materiais de um dos personagens. Temos aqui o anúncio da morte, mas, ainda não sabemos quem é a vítima. O narrador também nos mostra o “phatos”, o destino da vítima, do qual não pode fugir. As orações sem sujeito nos levam a tentar saber quem são os personagens que estarão em torno da narrativa.
A partir da segunda estrofe podemos perceber que não há mais nada além do que narrar toda a trajetória do leiteiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
(ANDRADE, 2006, p.178).

Nesta estrofe já temos o sujeito bem marcado: “Então o moço que é leiteiro”, diferente da primeira estrofe, feita de impessoalidade.
Nesta estrofe podemos notar que, apesar de o sujeito ser bem marcado, ele não possui identidade própria, não tem “nome”. Não é nomeado como sujeito próprio. Sabemos que ele é um leiteiro, que é moço, que sai todo dia de madrugada para vender a sua mercadoria e que mora no último subúrbio.
É importante notar a falta de identidade a qual as pessoas proletárias estão sujeitas a portar. Elas não são reconhecidas, e por isso sofrem discriminação pela sua posição social. O “leiteiro” aqui é nomeado apenas pela sua posição do trabalho: o vendedor de leite.
Percebemos, ainda, nesta estrofe a presença de “antítese”, coisas contrárias fazem parte da narrativa e mostram que o leiteiro é bom, mas deve servir a todos: “Sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim”. Neste caso, percebemos que o “leiteiro” é tão ingênuo e de bom coração que não discrimina ninguém, distribui o leite: “alimento indispensável à saúde” a todos.
Nesta mesma estrofe notamos a expressividade por parte do leiteiro. Observamos o “leiteiro” em movimentos constantes, em função de fazer o seu trabalho de forma digna. Porém essa expressividade é contraposta à falta de voz do personagem. Notamos que ele não tem voz, ele nem ao menos tem o direito de falar: “Sua lata, suas garrafas/ e seus sapatos de borracha/ vão dizendo aos homens no sono”. Não é ele que anuncia a sua chegada às casas para vender o leite. O autor poderia ter usado de ironia para mostrar a falta de liberdade de expressão presente na sociedade daquela época.
O leiteiro parece ainda mostrar todo o seu potencial em agradar aos homens da alta sociedade, não sabendo ele que é vítima dessa sociedade capitalista que pensa somente em proteger o que é seu: “Trazer o leite mais frio/ e mais alvo da melhor vaca/ para todos criarem força/ na luta brava da cidade”. É como se o leiteiro servisse como um meio de alerta para os burgueses criarem força para um dia cheio de trabalho e preocupação, em manter seu patamar social e político, mantendo assim, o “status” do capitalismo e da produção.
Na terceira estrofe temos o “tempo” como um dos fatores principais que norteiam a questão social e política do poema.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
(ANDRADE, 2006, p.178-179).

Podemos perceber que o “leiteiro” lida com uma vida de trabalho bastante corrida: “Na mão a garrafa branca/ não tem tempo de dizer/as coisas que lhe atribuo”.
Nessa perspectiva, podemos entender que o “leiteiro” não compreende nem a sua presença no meio social, favorecendo apenas a alta sociedade. Se ao menos tivesse mais tempo para entender que contribui para essa produção social, se sentiria honrado por ocupar e saber que possui um lugar na sociedade, mesmo que seja na classe dos Proletários.
Talvez por ser “ignaro”, ou seja, desconhecedor, ingênuo, isso é que possibilita essa alienação e esse modo de se colocar apenas como a sua posição de trabalho: “leiteiro”.
Notamos ainda nesta mesma estrofe o distanciamento entre “explorador” e “explorado”: “E já que tem pressa, o corpo/ vai deixando à beira das casas/uma apenas mercadoria”. O leiteiro faz o seu trabalho tão depressa, que nem ao menos se aproxima e dialoga com algum de seus clientes. Percebemos aqui esse distanciamento, não apenas entre “vendedor de leite e cliente”, mas entre proletário e burguês, sendo assim, Os Aspectos Social e Político se fazem cada vez mais presentes no poema. Como já dizia Bauman sempre haverá uma divisão entre administradores e administrados, levando para esse contexto do poema seria o distanciamento entre a classe dos Proletários e a classe dos Burgueses.


O que elas compartilhavam era o pressentimento de um mundo estritamente controlado; da liberdade individual não apenas reduzida a nada ou quase nada, mas agudamente rejeitada por pessoas treinadas a obedecer ordens e seguir rotinas estabelecidas; de uma pequena elite que manejava todos os cordões – de tal modo que o resto da humanidade poderia passar toda a sua vida movendo-se como marionetes; de um mundo dividido entre administradores e administrados, projetistas e seguidores de projetos[...] (BAUMAN, 2001, p. 65)


Na quarta estrofe, podemos perceber a ambição e a cobiça de quem não tem dinheiro para comprar o leite.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
(ANDRADE, 2006, p. 179).

A estrofe é iniciada pela conjunção “e”, que dependendo do contexto pode ser usada tanto como conjunção adversativa, como aditiva. É claro perceber que pelo contexto da mesma, classificamo-la em aditiva. Lemos a estrofe e continuamos com a mesma linha de pensamento em relação ao trabalho do leiteiro. Porém, se a lermos como adversativa percebemos que existe alguém necessitado de leite, alimento indispensável à saúde, mas que não tem dinheiro para comprá-lo: “E como a porta dos fundos/ também escondesse gente/ que aspira ao pouco de leite” (ANDRADE, 2006, p. 179, grifo nosso). Nesses versos notamos que o leiteiro para e reflete se é certo ajudar uma pessoa necessitada, que “aspira”, ou seja, almeja, ambiciona um alimento tão importante para o seu sustento. Usando de certa clandestinidade apenas para fazer o bem ao próximo, o “leiteiro” faz o uso de sua boa fé e transforma a “mercadoria leite”, que ele distribui para toda a população, sem ter tempo de entender a sua importância, em “leite”, alimento que não pode faltar na mesa de um ser humano. Nesse momento, talvez o “leiteiro” entenda o real significado que tem esse alimento na vida de uma pessoa.
Essa atitude do “leiteiro” pode ser considerada de base revolucionária, pois o mesmo faz uma boa ação e ajuda o próximo a ter um alimento na mesa. Nesse momento é claro notar que o “leiteiro” percebe que sua atitude pode ser considerada por muitos como um crime ou roubo. A companhia distribuidora do leite, a qual ele pertence, também pode pensar dessa forma e, é por isso que ele faz sua ação de forma discreta e silenciosa: “avancemos por esse beco,/ peguemos o corredor,/ depositemos o litro.../ Sem fazer barulho, é claro,/ que barulho nada resolve” (ANDRADE, 2006, p. 179, grifo nosso). Se fizesse barulho, toda a sua tentativa de fazer uma atitude revolucionária iria ser interrompida.
A aproximação entre o “narrador” e o personagem “leiteiro” se evidencia na quinta estrofe.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
(ANDRADE, 2006, p. 179).

Como percebemos o pronome possessivo “meu”, vem qualificar e mostrar a preocupação de aproximação de classes entre narrador, personagem e o próprio leitor: “Meu leiteiro tão sutil”. É como se Drummond quisesse nessa estrofe colocar o trabalhador no centro do discurso poético e evidenciar a intimidade entre “narrador” e o “leiteiro”.
Os versos seguintes mostram de certa forma uma base revolucionária por parte do “leiteiro”. É como se Drummond colocasse o personagem como um exemplo de revolução, de pensamento novo e de igualitarismo tanto social como político, para tornar assim, uma sociedade mais justa, sem diferença de classes. As palavras “marcha” e “desliza” evidenciam traços comuns para haver uma revolução sem conturbações, pois é inviável fazer revolução com barulho, o silêncio torna-se assim, algo essencial para que esse fenômeno aconteça. Mas, apesar de tanto lutar para conseguir algo sem fazer barulho, sempre existe algum rumor a nos impedir a fazer tão ação: “É certo que algum rumor/ sempre se faz: passo errado,/ vaso de flor no caminho,/ cão latindo por princípio, ou um gato quizilento” (ANDRADE, 2006, p. 179, grifo nosso). Os elementos “passo errado”, “cão latindo”, “gato quizilento”, servem para mostrar a preocupação e a segurança por parte do proprietário, pois se alguma iniciativa de revolução for colocada em ação, todos os “burgueses” terão a missão de fazer tudo para impedir. Pois essas revoluções vão interferir de alguma forma no seu progresso, e com isso ele não permanecerá no seu patamar, na burguesia, na alta sociedade.
Nos últimos versos da quinta estrofe, podemos perceber a representação da burguesia: “E há sempre um senhor que acorda,/ resmunga e torna a dormir” (ANDRADE, 2006, p. 179, grifo nosso). Notamos também nestes versos que o personagem não é nomeado com substantivo próprio, talvez o narrador não quisesse fazer referência ao nome de nenhum dos dois personagens, pois o que deveria ser mais evidenciado no poema seriam mesmo esses aspectos sociais e políticos.
A quinta estrofe possui uma relação muito íntima com o gênero “crônica”, pois temos aqui uma descrição detalhada do ambiente. Este poema, por ser uma pequena narrativa, se aproxima muito com esse gênero textual, pois temos aqui a referência da narração de um acontecimento cotidiano. Segundo CEREJA: “A crônica trata-se de um texto curto e leve, a linguagem é simples e direta, os temas abordados são normalmente colhidos no cotidiano”, daí então essa aproximação com o poema em estudo. “Passo errado,
vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio... E há sempre um senhor que acorda,/ resmunga e torna a dormir” (ANDRADE, 2006, p. 179, grifo nosso).
Na sexta estrofe percebemos a atitude instintiva de se defender por parte do “senhor”.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
(ANDRADE, 2006, p. 180).


O mesmo, ao sentir que sua propriedade se encontrava em perigo, não pensou duas vezes e agiu para defender seu patrimônio e seu patamar na sociedade capitalista, pois se o mesmo perdesse os seus bens saberia que iria ter que começar do zero. E sendo assim, teria que passar pela classe dos proletários, percebendo assim a discriminação à qual os mesmos estão submetidos. SÁBATO nos mostra que existem pessoas egocêntricas:

Introvertido e solitário, um ser que vê o semelhante como inimigo, e com uma infância marcada pelo sentido cristão do dever em relação ao próximo; aterrorizado pelo mundo e ao mesmo tempo sentindo-se culpável por seu egocentrismo, como espantarmo-nos com que ele preconize a ação política e o coletivismo? (SÁBATO, 1994, p. 14).



Através das palavras de Ernesto Sábato, notamos como o personagem “burguês” é ambicioso. Ele luta tanto para continuar firmado no seu alto patamar social, que vê todos que estão à sua volta como inimigos, podendo assim tirar o que é seu, e o levar a classe baixa da sociedade.
Temos ainda nesta estrofe a presença de “prosopopeia”, pois é colocado aqui o objeto “revólver” com habilidade humana: “O revólver da gaveta/ saltou para sua mão”. A atitude impensável do “burguês” se materializa em uma grande fatalidade, da qual, o leiteiro não poderia fugir, o destino aqui se cumpre, confirmando assim, o que foi dito na primeira estrofe: “Há no país uma legenda/ que ladrão se mata com tiro” (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso).
Novamente presenciamos a aproximação entre o “narrador” e o “leiteiro”. Nessa passagem percebemos não somente a aproximação entre esses dois: “Os tiros na madrugada/ liquidaram meu leiteiro” (ANDRADE, 2006, p. 180). É como se Drummond tivesse escrito esses versos do poema pensando no leitor, pois o leitor se emociona ao ver que um simples trabalhador que lutava e fazia seu serviço dignamente é assassinado de uma maneira brutal e irresponsável. O grau de intimidade entre ambos aqui colocado diminui ao passo que nem o leitor, nem o narrador, conhecem os assuntos pessoais do “leiteiro”: “Se era noivo, se era virgem,/ se era alegre, se era bom,/ não sei,/ é tarde para saber”. (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso).
A sétima estrofe nos remete a perceber o despertar do “senhor”.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
(ANDRADE, 2006, p. 180).


É como se o mesmo estivesse no mundo do sono capitalista, e que seria preciso algo acontecer, precisaria ele ser ameaçado ou pegue de surpresa para acordar e salvar o seu capitalismo, a sua propriedade, pois era com isso que ele mais se preocupava: “Mas o homem perdeu o sono/ de todo, e foge pra rua”. É apresentado também o Individualismo do “burguês”. (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso). A narrativa do poema pauta-se neste tema. Segundo as palavras de GOUVEIA (2003) o individualismo representa algo que persegue os diferentes tipos de objetivos de uma pessoa.

Pode-se dizer que o individualismo expressa uma tendência ao êxito, à valorização da própria intimidade. Neste tipo de orientação, o indivíduo está por cima dos grupos em todos os aspectos; as relações pessoais são mais freqüentes, porém contratuais. Este padrão implica geralmente em uma separação dos familiares e uma ruptura com os ancestrais, dando-se ênfase ao presente, com um grau elevado de complexidade social. (GOUVEIA, 2002, p. 224).


O individualismo representado pela figura do “burguês” nos faz comprovar o quanto ele se enquadra no sistema e mostra de forma reveladora características de um ser altamente egocêntrico, capitalista e conservador, prezando principalmente os seus bens materiais. O burguês demonstra uma frieza muito grande em relação à sua propriedade, pois ao ouvir qualquer ruído, se espanta, já com o objetivo, de salvar o que lhe pertence. Tem essa atitude mesmo sem ter a certeza se qualquer tipo de ataque está sendo feito com o propósito de tirar os seus bens, nesse caso percebemos a preocupação do personagem em pensar talvez em perder o seu “status”, pois se perder o que possui de bens materiais, corre o risco também de pertencer à classe Proletariado.
Ainda se tratando de individualismo, Claudia Garcia em seu artigo intitulado: “Os novos rumos do individualismo e o desamparo do sujeito contemporâneo” nos mostra uma discussão a respeito do individualismo, afirmando que essa questão se refere muitas vezes ao fato de tratar-se da sociedade contemporânea.

De fato, o conceito de individualismo tem sido empregado no campo das ciências humanas de diversas formas e com múltiplos sentidos, de acordo com os diferentes propósitos a que se presta. Portanto, para dar início a uma discussão a respeito do individualismo na sociedade contemporânea, torna-se necessário, antes de mais nada, mapear o campo teórico relativo a esse conceito, até que possamos discutir a situação atual e formular hipóteses a respeito de suas repercussões psíquicas. (GARCIA, 2004, p. 02-03)



Levando em consideração o trecho citado neste estudo, podemos perceber que talvez exista uma relação muito significante em relação ao individualismo do “burguês” e à sociedade contemporânea. Pois as pessoas agem de maneira muito conturbada, principalmente por nessa sociedade existir diversas confusões tanto no plano político, quanto no social, e isso acaba fazendo com que as pessoas tenham comportamentos irregulares. O “burguês” tomou essa atitude de matar o pobre leiteiro, talvez pelo fato, de a sociedade do século XX viver em grandes conturbações e transformações.
É claro notar que o “burguês” parece ter consciência de sua atitude instintiva. Percebemos que ele usa o recurso à divindade: “Meu Deus matei um inocente”, mostrando total compaixão ao suposto ladrão, que no caso era apenas um trabalhador que ganhava a vida vendendo o alimento que todos precisavam, para criarem força na luta brava da cidade: o “leite”, que aqui representa a força do trabalho.
O narrador parece nos mostrar nessa estrofe a defesa de classe, igualando social e politicamente tanto o “leiteiro”, quanto o “burguês”: “Bala que mata gatuno/ também serve para furtar/ a vida de nosso irmão”, ou seja, bala que mata ladrão, pode matar qualquer outra pessoa, seja ela boa ou má.
No decorrer da estrofe, o burguês nos leva a crer que sua preocupação com o leiteiro é tão grande, que pede que ninguém toque no corpo do mesmo. Mas, aqui fica uma dúvida, será que essa preocupação não seria explicada pela certeza de sair impune e inocentado do crime que cometeu? O burguês nos revela nessa estrofe a sua total esperteza em não se desfazer da sua posição social e política. Quando pensamos que ele está preocupado em cuidar do corpo do “leiteiro”, na verdade ele está pensando apenas na fuga dessa situação: “Quem quiser que chame médico,/ polícia não bota a mão/ neste filho de meu pai”. (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso). Fica supostamente escondida atrás desse verso a condição de saída para uma eventual detenção do mesmo. Ele nos remete a pensar que a vítima de toda essa cena, é escamoteada por ele, pois não tinha a intenção de matar um trabalhador, mas sim um suposto ladrão. A sede de poder é tão grande neste meio social, que tudo o leva a cometer erros para manter sua propriedade intacta: “Está salva a propriedade” (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso) e, é isso que importa.
Os últimos versos nos dão a entender que o “pobre leiteiro” está retirado, isolado, fora dessa sociedade capitalista que só pensa na obtenção de lucro e poder. A manhã que demora a chegar, nos remete a uma ideia, a uma realidade totalmente diferente do início do poema, até nesses versos o “leiteiro” se encontra como um ser incapaz, perdido ao ar livre, abandonado: “A noite geral prossegue,/ a manhã custa a chegar,/ mas o leiteiro/ estatelado, ao relento,/ perdeu a pressa que tinha”. (ANDRADE, 2006, p. 180, grifo nosso). O “leiteiro” que antes tinha uma pequena participação na vida urbana com a distribuição de seu leite, nessa manhã que surge, só ficarão as lembranças de suas latas e seus sapatos de borracha, que marcaram não só a vida de seus clientes, mas a sua eliminação dessa sociedade cruel e com sede de capital.
A oitava e última estrofe do poema é repleta de metáforas. Nesse momento a sensibilidade do narrador, autor, e leitor se revelam através das belas palavras aqui colocadas.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
(ANDRADE, 2006, p. 181).

Os primeiros versos desta estrofe nos causam certa desordem, pois são utilizados alguns termos que fazem com que a situação seja embaraçada e confusa: “coisa espessa que é leite, sangue... não sei / Por entre objetos confusos”. (ANDRADE, 2006, p. 181, grifo nosso). Nesse momento parece que nem o próprio narrador entende a situação em que tudo se passa, o fim dos fatos revela algo sem explicação.
Através das cores é possível notar que o narrador quis nos mostrar um novo amanhecer, com esperanças renovadas: “duas cores se procuram,/ suavemente se tocam,/ amorosamente se enlaçam,/ formando um terceiro tom,/ a que chamamos aurora”. (ANDRADE, 2006, p. 181, grifo nosso).
Nos versos seguintes o branco do leite nos remete a lembrança do trabalho e do alimento indispensável à saúde, já o vermelho do sangue nos faz lembrar a luta, a morte e o medo. Mas, essas duas cores juntas formam um dia novo, uma aurora otimista e que oferece um novo olhar para a vida, não apenas aos integrantes de uma sociedade capitalista, na qual, os personagens estão inseridos. Mas também para mostrar que apesar de todas as injustiças às quais o “leiteiro” foi submetido, o surgimento dessa nova aurora aponta uma nova visão de mundo para o leitor. Apesar de saber que o “burguês” não foi punido pelo crime cometido, acreditamos então, que a partir desse momento as pessoas se sensibilizam, tornando-se assim pessoas capazes de pensar no próximo, e verem que só o bem-estar social e político não podem oferecer felicidade a ninguém. Todo esse processo de vida social e política devem existir, porém sem inferir com a ética e moral das pessoas que estão inseridas nesse contexto.

5 CONCLUSÃO

Para fins de conclusão do estudo aqui exposto, seria importante retomar os passos desenvolvidos e que foram divididos em três categorias. No primeiro tópico, tratamos um pouco sobre O Surgimento do Modernismo no Brasil, com enfoque principalmente na relação existente entre este assunto e o tema central deste estudo, com exemplificações e conceituação do que vem a ser Modernismo.
No segundo tópico, discutimos algo secundário, que mesmo assim foi de grande importância para a elaboração e entendimento deste estudo, que foi A Poesia Social Presente na Obra A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade. Nesse momento, procuramos evidenciar todos os aspectos e características presentes nesta obra, com isso o leitor teria uma maior facilidade em entender a questão central do estudo realizado.
E por fim, no terceiro e último tópico, fizemos a análise completa do Poema: “Morte do Leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade, enfatizando principalmente os aspectos sociais e políticos presentes no poema. Nesse momento buscamos constatar cada detalhe para uma explicação e análise mais aprofundada, fazendo com que o nosso leitor obtivesse um melhor entendimento.
Portanto, procuramos neste estudo observar elementos da história do Modernismo e da Obra A Rosa do Povo, para comprovarmos de antemão Os Aspectos Social e Político Presentes no Poema “Morte do Leiteiro” de Carlos Drummond de Andrade. O poema aqui analisado provoca-nos a pensar em outras bases e novos conceitos para a poesia brasileira, pois nós também somos cobrados em nossa vida social e política, mas devemos ter a consciência de nossos atos para não ferirmos a ética e o respeito do outro.
O estudo que aqui se encerra espera ser lido como contribuição daqueles que se interessam pelo conteúdo analisado. Merecendo críticas e elogios por parte daqueles que o lerem. Pois assim como a poesia de Drummond, que foi base deste estudo, nada é considerado perfeito, tudo exige reformulações e melhoras. E o fazer literário exige tanto de quem escreve, quanto daqueles que se deleitam apenas com a leitura. E é com a valorização da linguagem modernista que pomos fim a este estudo.

SOCIAL AND POLITICAL ASPECT IN THIS POEM: "DEATH OF MILK" CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ABSTRACT: This work arose from the need to analyze the importance of social and political aspects present in the poem: Death of the Dairy, the Second Generation Modernist poet Carlos Drummond de Andrade. The present study aims to understand how this poetry can approach the readers, to make them more reflective readers and interested in the poetry of a single author, in the act of making things simple and human as well. Seek to highlight the emergence of modern poetry to a better understanding of the analysis of the poem, pointing out the colloquial language and simple to show that it is typical of modernist poetry, highlighting the Drummondianas ideologies in order to understand their concern with the human Brazil, among other important topics. The present study was an analytical accomplished through a literature search. To this end, we resorted to several authors, among which we quote: AMARAL (2003), BAUMAN (2001), BOSI (1936), COUTINHO (1986), LINS (1947), MOISÉS (1928), SÁBATO (1994). It consisted in the examination of Modernist Literature, to survey and analysis of what has been written about the given topic. It covers reading, analysis and interpretation of books, documents, among others. All material collected was subjected to a screening, or a selection of what is most important to the topic at estudo. Por through it, try with the help of databases, all kinds of documents that best suited and relate to the theme proposed here.



KEYWORDS: Modernism. Carlos Drummond de Andrade. Poem. Milkman's death. Language.


REFERÊNCIAS

AMARAL, Emília. Novas Palavras: Português, volume único: livro do professor/ Emília Amaral... [et al]. 2. Ed. São Paulo: FTD, 2003.

ANDRADE, Carlos Drummond de, 1902-1987. Antologia Poética (organizada pelo autor) – Carlos Drummond de Andrade; Prefácio, Marco Lucchesi. – 57ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

BAUMAN, Zygmunt, 1925. Modernidade Líquida / Zygmunt Bauman; tradução, Plínio Dentzien. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 2001.

BOSI, Alfredo, 1936 – História Concisa de Literatura brasileira. [2ª edição] São Paulo, Cultrix, 1974.

CANDIDO, Antonio. Literatura de Sociedade: Estudos de Teoria e História Literária. 4 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.

GOUVEIA, Valdiney V. Josemberg M. de Andrade, Taciano Lemos Milfont, Fabiana Queiroga, Walberto Silva dos Santos. Dimensões Normativas do Individualismo e Coletivismo: É Suficiente a Dicotomia Pessoal vs. Social? Paraíba 07 de Novembro de 2002 Disponível em: <www.scielo.br/pdf/prc/v16n2/ao2v16n2.pdf>. Acesso em: 23. maio. 2012.

GARCIA, C.A; COUTINHO, L.G. Os Novos Rumos do Individualismo e o Desamparo do Sujeito Contemporâneo. Psyche, São Paulo, v. 8, n.13. Junho, 2004. Disponível em: <pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=s1415-11382004000100011&script=sci_arttext>. Acesso em: 23. maio. 2012.

LETRAS, Academia Cearense de.  Modernismo: 80 anos / [Realização] Academia Cearense de Letras; organização Regina Pamplona Fiúza. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2002.

LINS, Álvaro. Jornal de Crítica. 5ª série. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947.

MOISÉS, Massaud, 1928 – História da Literatura brasileira – Massaud Moisés. – São Paulo: Cultrix, 1984.

SÁBATO, Ernesto. Três Aproximações à Literatura de Nosso Tempo. Sartre, Borges, Robbe – Grillet. – São Paulo: Editora Ática S.A, 1994.












Heliomar Clarindo
Enviado por Heliomar Clarindo em 30/07/2012
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Sobre o autor
Heliomar Clarindo
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