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A Lenda da Erva Mate (Lenda do Sul)

A PLANTA

A erva-mate (Ilex paraguariensis), também chamada mate ou congonha, é uma árvore originária da região subtropical da América do Sul.

Mate deriva do termo “mati” em quéchua (importante família de línguas indígena da América do Sul, ainda hoje falada. Inclusive é uma das línguas oficias de Bolívia, Peru e Equador). Mati designa o recipiente onde é bebido o chimarrão.

Já o termo “Congonha" deriva do tupi kõ'gõi e significa o que mantém o ser.

A erva-mate é muito sensível ao sol, tanto que, mesmo no plantio moderno, a técnica exige sombreamento, até que a planta atinja alguma maturidade. Pode atingir doze metros de altura. Tem caule cinza, folhas ovais e fruto pequeno  de cor  verde ou vermelho-arroxeado.

Atualmente, existem viveiros que produzem mudas de variedades selecionadas, cujo plantio é feito em grandes hortos. Para facilitar a colheita, a árvore é bastante podada, para manter-se com altura entorno de três metros.

É consumida como chá quente ou gelado em todos os estados do Brasil; como chimarrão nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina; e no Uruguai,  Argentina , em algumas regiões da Bolívia e do Chile; como tererê nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Acre, Rondônia e interior de São Paulo e no Paraguai.

O consumo da erva-mate está relacionado, também, ao seu poder de estimular a atividade física e mental, combater a fadiga, proporcionar a sensação de saciedade. Tudo isso sem provocar efeitos colaterias.

Os pesquisadores concluíram que o mate contém praticamente todas as vitaminas necessárias para sustentar a vida, e que a erva-mate é uma planta indiscutivelmente especial, já que é muito difícil encontrar outra planta que se iguale ao seu valor nutricional.

A LENDA

FILHA E VELHO PAI PERMANECEM NA ALDEIA

Há muitos e muitos anos, em terras do sul do Brasil, tribo carijó abandonava suas ocas, pois a caça e a lavoura estavam difíceis. Aliás, isso acontecia sempre na vida dos índios. Após a exaustão da terra por sucessivos plantios, as tribos precisavam procurar novas terras.

Os índios, vagarosamente, iam deixando a antiga aldeia o, onde haviam vivido tantos anos. A aldeia abandonada descansava em seu silêncio quando, de repente, o couro que fechava a entrada de uma das ocas moveu-se e um velho apareceu. Atrás de sua cabeleira esbranquiçada surgiu o rosto jovem e belo duma índia.

Era sua filha mais nova, que não tivera coragem de abandonar o velho guerreiro índio, que não tivera forças, para acompanhar a tribo na esperança de encontrar outras terras.

Preocupado com o que seria de sua filha e com o que faria só com ele nas terras abandonadas pela tribo, insistira com ela, para que partisse com os outros.

Preferia ele ficar sozinho, a viver angustiado com o destino da filha.

Por sua vez a filha preferia correr os maiores riscos, mas ficar com o pai e velho guerreiro, do que partir e viver a angústia e a culpa de ter abandonado o pai. Estava certa de que o pai sozinho morreria de fome.

PAI E FILHA CONSEGUEM SOBREVIVER NA ALDEIA ABANDONADA

Os dois conseguiam sobreviver na aldeia abandonada. O velho dava o máximo das forças que lhe restara para ser útil à filha. Com muita lentidão e sacrifício, reunia um pouquinho de lenha, apanhava alguma fruta, num grande esforço, para ajudar a filha.

A filha, por sua vez, não parava: plantava; colhia; cozinhava; mantinha limpa e arrumada a oca; e capinava o mato, que circundava a oca numa insistência para retomar o terreno. Até as onças, que antes não se aproximavam, urravam cada vez mais perto.

Os meses passavam com noites ameaçadoras e os dias sem esperanças.

ESTRANHO SURGE E PEDE ABRIGO AO VELHO

Numa triste tarde de inverno, o velho guerreiro afastara-se da aldeia, para colher frutas, quando percebeu uma folhagem próxima mexer-se. Apavorado, pensando que fosse onça, gelou. Em vez de onça, surgiu um homem branco muito forte, de olhos azulados.

Aproximou-se do velho índio dizendo: venho de longe, há dias que ando sem parar e preciso repousar.

Submisso ao cansaço, fez uma pausa, respirou fundo e pediu: poderia arranjar-me algo para comer.

O índio, mesmo consciente das limitações em comida respondeu: venha comigo.


FILHA E PAI ABRIGAM COM HOSPITALIDADE

Tomaram o caminho da aldeia e ao chegarem o pai chamou Yari e apresentou-lhe o viajante observando: este homem está mais cansado do que nós e também sente fome. Cuide para que nada lhe falte.

Yari acendeu o fogo e preparou o que havia para comer, sabendo da dificuldade que seria para repor os alimentos.

Yari pegou sua rede, enquanto o velho oferecia a sua para o viajante. Os dois pai e filha cederam sua oca e saíram para dormir em uma das outras abandonadas.  Yari teve que dormir no chão, pois cedeu a sua ao pai.

ESTRANHO RETRIBUI A HOSPITALIDADE E REVELA-SE ENVIADO DE TUPÃ

Ao acordarem, logo cedo, encontraram o homem branco cortando lenha. Ao acabar de cortar a lenha seguiu em direção à floresta. Retornou com várias caças.

Yari e o velho pai confessaram ao bondoso homem branco, que não saberiam como agradecer, bem como não tinham nem como fazê-lo.

Ao que o homem branco retrucou: vocês merecem muito mais, pois fui tratado com toda hospitalidade e, sem medir esforços, deram-me tudo que possuíam.

Confessou, ainda, que era enviado de Tupã, que ficara muito preocupado com a sorte dos dois.  Acrescentou, ainda, que mereciam receber tudo que desejassem, pela bondade demonstrada..

ENVIADO DE TUPÃ APRESENTA A ERVA-MATE COMO RECOMPENSA

O Velho guerreiro, com a espontaneidade dos homens da floresta, disse querer ter um amigo, que lhe fizesse companhia até sua morte, pois assim, Yari poderia partir, alcançar a tribo e ser feliz.

O enviado de Tupã respondeu que lhe arrumaria um amigo para lhe dar alegria e força, para os restos de seus dias.

Apresentou ao índio uma erva estranha: esta é a erva-mate. Plante-a, deixe-a crescer e multiplicar-se. Depois ferva suas folhas e beba o chá. As forças lhe voltarão, poderá trabalhar e caçar.  Assim, sua filha, quando quiser, poderá ir ao encontro de sua tribo.

O velho chamou a filha e, na presença do homem branco, contou-lhe a novidade e pediu-lhe que fosse ao encontro da tribo. Yari respondeu que não poderia ser feliz com sua tribo, se abandonasse o pai.

O homem branco sorriu emocionado e, como representante de Tupã, determinou: por ser tão boa filha, mereces ser recompensada. A partir de agora és imortal. És Caá-Yari, a deusa protetora dos ervais. Cuidarás para que o mate jamais deixe de existir e farás com que fique conhecido por todos da região.

Todos merecem beber a erva-mate, para ficarem forte e viverem felizes.

O enviado de Tupã terminara sua missão e partiu.

O velho recuperou as forças e, pai e filha nuca mais passaram dificuldades.

Entretanto, Yari, vivia preocupada, pois a missão de tornar o mate conhecido estava difícil de ser cumprida. Estavam tão longe e ali não aprecia ninguém.

JAGUARETÉ É EXILADO DUMA ALDEIA DISTANTE

Numa distante aldeia de índios, celebrava-se a fartura da lavoura e da caça. Dançavam, cantavam, comiam e bebiam.

Depois de algumas horas, a alegria é interrompida por dois jovens índios, Piraúna e Jaguareté que tinham bebido cauim além da conta.

Depois de acirrada discussão, apesar de outros índios tentarem acalmá-los, apelaram para a força e começaram a brigar.

Os índios mais corajosos tentaram apartá-los, mas como RAM muito fortes, não conseguiram.

De repente, Jaguareté empunhou um tacape e matou Piraúna desfechando-lhe violento golpe na cabeça.

Pelas leis daquela tribo os parentes do morto poderiam executar Jaguareté.

Trouxeram o pai de Piraúna, para que decidisse sobre a execução.

O pai negou-se a ordenar a execução e justificou sua decisão. Afirmou, que Jaguareté só era culpado por haver bebido demais , dando oportunidade a Anhangá-Pitã, o grande espírito mau, de dominá-lo, levando-o a matar o amigo. Jaguaretê deveria, apenas, ser expulso da tribo. Teria de viver sozinho nas matas desconhecidas, onde poderia refletir com calma o que fizera.

A decisão foi obedecida. Jaguaretê seguiu para o exílio. Sumiu na floresta e ninguém ouviu mais falar nele. Com o tempo foi completamente esquecido pelos seus.

CAÁ-YARI APRESENTA A ERVA-MATE PARA JAGUARETÉ

Jaguareté, assim que ficou sozinho na floresta, fatigado, atormentado pelo remorso e saudoso de seu povo, jogou-se ao chão e implorou a morte.

Entretanto, a partir de certo momento, pressentiu que alguém estava por perto. Levantou a cabeça e surpreendeu-se com jovem de olhar bondoso.

A jovem fitou-o com compaixão e disse-lhe: tenho pena de ti, porque mataste cego por paixão fomentada pelo excesso de cauim, mas agora estás bastante arrependido.

Aquele olhar bondoso aproximou-se um pouco mais e concluiu: para que possas suportar o exílio, vou ensinar-te uma bebida, que não tira a razão como o excesso de cauim, mas fortalece o corpo e clareia a mente. Meu nome é Caá-Yari, a deusa protetora dos ervais.

Entregou-lhe a estranha planta, esclarecendo: esta é a erva-mate. Plante-a, faça-a crescer e multiplicar-se. Depois prepare e beba um chá com suas folhas. Seu corpo será forte e sua mente clara por muitos anos.

Depois, enquanto desaparecia, ordenou Jaguareté: não deixe de transmitir a quem encontrar o que aprendeu sobre a erva-mate.

JOVENS ÍNDIOS DA MESMA ALDEIA DE JAGUARETÉ O ENCONTRAM

Muitos anos depois, alguns jovens índios da mesma tribo de Jaguareté, que nunca o haviam conhecido e nem mesmo dele escutar algum comentário, saíram para caçar. No meio da floresta encontraram uma cabana e, dela, aproximaram-se com cuidado.

Nisto, um homem forte e sorridente surgiu. Cabelos brancos. Entretanto com rosto e corpo muito bem conservados.

Acolheu os índios com cordialidade e ofereceu-lhes erva-mate, bebida desconhecida por eles. O anfitrião era Jaguaretê.

Reconheceu os irmãos de tribo, identificou-se e contou o que havia ocorrido depois de sua expulsão, pela decisão clemente, mas sábia, do pai de Piraúna.

Jaguareté encerrou, pedindo aos jovens irmãos: levem alguns pés de erva-mate para a aldeia e nunca deixem de transmitir aos outros o que, sobre a erva-mate, aprenderam.

Um dos jovens índios perguntou a Jaguareté se não viria com eles e retornaria a aldeia. Então, Jaguaretê respondeu-lhe: Não vou, estou tão habituado a este lugar, que me sinto parte dele. Não estou sozinho, tenho o mate para alegrar minhas horas de solidão.

JOVENS ÍNDIOS RETORNAM A ALDEIA E DIFUNDEM A ERVA-MATE

Os índios voltaram à tribo e contaram aos outros seu encontro com Jaguareté.

O mate foi plantado e multiplicou-se. Outras tribos aprenderam seu uso e, assim, a erva-mate chegou a ser essa tradição gaúcha.

TRIBUTO Á ERVA-MATE

Quando tiveres o prazer de poder contemplar um erval, não te esqueças de que ele e todos os outros estão sobre a proteção da imortal Caá-Yari.

Não só o erval, mas, também, os ervateiros estão sob proteção de Caá-Yari, que lhes abrevia os caminhos, diminui o peso dos feixes e atenua a árdua e cansativa jornada de trabalho nos ervais.

Quando vires algum homem sozinho “mateando”, alegra-te, pois ali, mesmo que o momento seja de grande solidão, esta, certamente, já se afastou, pois não resiste à companhia saudável, alegre e solidária da erva-mate.

“Erva-Mate” são rimas para celebrar o sucesso dessa erva saudável apreciada pela maioria dos brasileiros:


                     ERVA-MATE


Mate em gôndolas de supermercado,
como tererê ou chimarrão a animar um papo,
testemunhos do que Tupã havia ordenado:
tornar o chá da erva-mate, muito apreciado.

Nas terras gaúchas, num distante passado,
abandona a aldeia, certa tribo Carijó
mas, dois adeus solitários são acenados:
o da jovem filha ,por não deixar o pai só
e o do pai, tolhido pelo corpo maltratado,
como asa quebrada, ao vôo do socó.

Mas certo dia Tupã compadecido,
envia anjo, como homem disfarçado,
que suplica ao velho comida e abrigo,
pois a longa viagem o deixara cansado.

Por receber tanta hospitalidade,
ao velho, a erva-mate, pra saúde ter mais
e a filha Yari, com a imortalidade.
Caá-Yari, a deusa dos ervais,
difundir o mate seria sua atividade,
para levar saúde e alegria aos mortais.

Quando a um erval deitares um olhar,
não te esqueças de reverenciar,
a deusa ,que fez do mate, a tradição.
Quando vires um solitário a “matear”
alegra-te, pois não existe solidão
capaz da companhia do mate, rejeitar.




FONTES

LIVROS:
A Erva-Mate – Tia Regina

SITES:
ufsc.br: e
wikipédia.org.br
J Coelho
Enviado por J Coelho em 22/08/2012
Código do texto: T3843691
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
J Coelho
São Lourenço - Minas Gerais - Brasil, 73 anos
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