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POETA AFFONSO MANTA

        Último Suspiro
        3 de dezembro de 2003 é uma data muito triste para a Poesia. No crepúsculo daquele dia ás 17,20 h. o poeta Affonso Manta exalava o último suspiro, em sua residência na Rua Cel. Alberto Lopes, onde o poeta viveu os últimos 30 anos de sua vida; no momento do desenlace, estava amparado pelo irmão lrundi Manta Alves Dias (professor e cirurgião dentista) e pela cunhada Noélia Gusmão Dias (professora).

       Assim, foi o passamento físico de Affonso Manta Alves Dias, uma das maiores cabeças que as últimas gerações conheceram.

       Affonso tinha um grande coração; era, por assim dizer, protetor de muitos desvalidos que ajudava anonimamente, com a divisão dos seus proventos de inspetor aposentado dos Correios.

       Ao velório, em sua residência, compareceram alguns dos amigos mais próximos, além de representantes da comunidade e parentes. Na oportunidade o amigo e ambientalista  Adoniran Andrade Cunha recitou poema de Jânio Rocha e falou algumas palavras de despedida, já no momento da saída do corpo, no dia 4 de dezembro às 11h. quando foi realizado o sepultamento no cemitério público localizado nas imediações da igreja matriz. Ali falaram o poeta Florisvaldo Rodrigues e o autor deste texto.

       MAIOR POETA BRASILEIRO DO SÉCULO XX

       Poções, Sudoeste da Bahia, Terra do Divino Espírito Santo, registra em sua história, um personagem que seria a sua maior referência na Poesia: Affonso Manta Alves Dias...

       Affonso nasceu em Salvador, na rua da Poeira 57, no dia 23 de agosto de 1939. Em dezembro daquela ano veio para Iguaí e, aos 10 anos de idade, para Poções, onde concluiu o curso primário no Grupo Escolar Alexandre Porfírio, no final de 1950.

      Era filho de Olinda Manta Dias, de prendas domésticas e Ary Alves Dias, médico, vereador, presidente da Câmara e prefeito em exercício.

      Primo, em quarto grau do poeta Castro Alves, pela via paterna, sua obra está contida nos livros A cidade Mística e outros poemas (1980), O Retrato de um poeta (1983), Canção da rua da Poeira e outros poemas (1991) e No Meio da Estrada (1994). Alguns dos seus poemas permanecem inéditos.

      A Arte Virtuosa que aproxima o homem de Deus...  gera angústia, solidão... e a inquietude naqueles que não são compreendidos ao seu tempo...  Assim foi Da Vinci, Beethoven, Mozart, Castro Alves, Van Gogh, Affonso Manta... e tantos outros... Esse vulcão de genialidade é indelével na Poesia de Affonso Manta, Rei dos Poetas Brasileiros do século XX...

      Ele abominava as "igrejinhas", criadas por  intelectuais para se auto-promoverem... tão comuns em cidades maiores...

      Em Salvador, Affonso passou pela faculdade de Ciências Sociais da UFBA, abandonando o curso no terceiro ano. Casa-se com Carmem, passa a ensinar em cursinhos e é aprovado no concurso dos Correios. Sua classificação foi excelente, valendo-lhe a nomeação para o cargo de Inspetor, na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro.

       No Rio, o poeta teria duas crises, internando-se na Clínica Dr. Eiras, em Botafogo. Afastou-se dos Correios para tratar da saúde, advindo, então, a separação com a mulher Carmem e a aposentadoria, em 1975. A partir de então passa a residir em Poções, com seus pais.
       
       Em 1981, compõe o poema profético, “O Kremlin” cuja profecia já se cumpriu com a Perestroika...

       O KREMLIN
       O Kremlin é um antro de malfeitores,/ de frios assassinos e impostores/que se fazem de deuses humanistas./O Kremlin é um covil de trapaceiros/mascarados de heróis e justiceiros,/ envergonhando até os comunistas.
O Kremlin é um sacrílego atentado/contra o que é belo e contra o que é sagrado,/um crime contra a luz do verdadeiro./O Kremlin é uma sombria ameaça,/como uma nuvem negra de fumaça,/ escurecendo a paz do mundo inteiro.
O Kremlin é uma Besta militar./O Kremlin quer domar e subjugar/ os homens e as nações em pleno dia./Os homens e as nações que exigem juntos/o direito de ter os seus assuntos/livres da intervenção da tirania.
O Kremlin vai ruir com os fariseus./O Kremlin vai virar, com fé em Deus,/ um montinho de cinzas fumegantes,/quando a espada de fogo da justiça/fulminar este mundo de carniça,/que fede como nunca se viu antes...

      Num estado pós crise, o poeta compõe “O Louco”...
      Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca./ Os pássaros já estão fazendo ninho/ Atrás da minha orelha./ Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro./ Vou conhecer Londres/ no meu bergantim de pirata.

      Quem o visse pela rua, em sua auto-análise...
"Com estrelas na testa de rapaz,/ Com uma sede enorme na garganta,/ Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta/ Pela rua Lilás./ O rei da extravagância, o sem maldade,/ O campeão da originalidade,/ O peregrino astral."

      Mas quem vivesse a sua realidade...
"Quem me dera estar santo de uma vez./ E enlouquecer de luzes de repente./ Mas conservando toda a lucidez./  Viver sem limite, em plena graça,/ Na paz de uma razão incandescente/ Capaz de dar relâmpagos na praça."

       Sua definição de poesia é pura poesia...
"A poesia tem os olhos inocentes./Inocentes de saberem tudo./ A poesia é um pássaro branco/ Voando na velocidade da luz..."

       Em O Rei Feliz, ele decreta:
"Elevo meus amigos a barão,/ Marquês, visconde, duque e tudo o mais./ Tenho uma côrte sem ter cortesão./ Recebo honras sem me alterar jamais."

       No final da década de 1970 morreu seu pai; a morte de sua mãe, na década de 1990 deixa o poeta sozinho em sua residência, alimentando-se mal, abusando de bebidas alcoólicas que o levaram a algumas crises e internamentos no Afrânio Peixoto, em Vitória da Conquista.

      Affonso era lúcido e genial. Conversa agradável, atencioso, e, às vezes, sarcástico...
O ano de 2003 foi sofrido para o poeta, vítima de crises estomacais que o debilitaram muito, culminando com o diagnóstico de câncer que o levou ao Hospital das Clínicas em Salvador. O poeta passa ao estado terminal. Volta para Poções e, depois de alguns dias aos cuidados da família, vem a falecer, às 17,20 h do dia 03 de dezembro de 2003.

     No poema “Inscrição Final” ele recomenda:
Quando eu me for na barca da saudade/ Para o país de onde não volte mais;/ Quando da morte a densa liberdade/ Imprimir em meu rosto os seus sinais;/ Quando o meu coração ficar parado/  E os meus olhos alguém quiser fechar/ Façam de conta que eu estou cansado/ E vou dormir para me repousar...

Ricardo De Benedictis
Enviado por Ricardo De Benedictis em 06/08/2005
Reeditado em 08/09/2005
Código do texto: T40685

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Sobre o autor
Ricardo De Benedictis
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 77 anos
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Ricardo De Benedictis