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Texto

Para escrever poesia, é preciso estudar

Nos tempos atuais, com o advento de sites e outros locais públicos, qualquer pessoa pode, com relativa facilidade, publicar seus textos. Temos hoje inúmeros textos, de diversos tipos, indo desde uma simples declaração de amor até mesmo o roteiro completo de um filme.

Tudo isso se deve ao avanço da tecnologia. Cada vez mais as pessoas se globalizam, se expõe através de palavras e de outros meios, como fotos e até mesmo vídeos.

Com tanta gente querendo escrever, querendo expor ao mundo suas obras artísticas, fica aqui uma pergunta: será que essas pessoas conseguem transformar em arte a sua escrita?

A resposta, infelizmente, é um retumbante não.

Nesse artigo, vou ater-me somente à poesia, contudo, o seu conteúdo pode muito bem ilustrar outras formas de arte escrita.

Em primeiro lugar, as pessoas tendem a se imaginar em cinco aspectos quando vão escrever poemas: que nasceram com o dom para a coisa; que escrever poemas serve para aliviar as tensões, como uma forma de terapia; que o seu poema exprime os seus sentimentos; que o poema é uma forma de dizer ao mundo aquilo que normalmente não seria dito.

Todas essas afirmações não passam de baboseiras, de falatórios de pseudo-escritores ou de falsos apreciadores. Essas pessoas rechaçam qualquer forma de crítica, dizendo que “a poesia deve fluir como o sentimento, que não deve ser presa a nenhum molde”. Essas mesmas pessoas são, sob raros casos, as que mais escrevem poemas pobres, que além de não poderem ser configurados como arte, ganham cada vez mais seguidores ao longo do tempo, dificultando o trabalho da crítica e não contribuindo em nada para a literatura.

Como argumentos, elas dizem que autores como Fernando Pessoa, Álvares de Azevedo, Manuel Bandeira, entre outros, escreviam de forma livre. Rejeitam os poetas como Olavo Bilac, por pensarem equivocadamente que eles “se preocupam demais com a forma e não deixam fluir os sentimentos”.

Esse empobrecimento da poesia ou mesmo o empobrecimento da cultura poética se dá por alguns motivos. O primeiro se configura na preguiça das pessoas que se propõe a escrever. O segundo é da má-interpretação do que foi, de fato, o Modernismo, acreditando que toda a métrica e forma deve ser abolida em nome da emoção. O terceiro se configura no fator moderno do que é ou não arte, que acaba por juntar os motivos anteriormente apresentados.

O primeiro motivo, a preguiça, se configura no fato dos candidatos a poeta simplesmente lerem superficialmente o poema. Não se preocupam em entender os porquês daquela forma, os arranjos das rimas, as metáforas, a sonoridade explorada, a disposição gráfica (no caso de poemas com veia concretista). Nessa preguiça, não procuram evoluir seus escritos, fartam-se com elogios vazios, bobinhos até e acham que, quando criticados quanto à qualidade, o crítico é chato, arrogante ou, ainda, que não tem nenhuma autoridade para falar algo a respeito. A preguiça também leva a uma prepotência por parte do pseudo-poeta, que não consegue ver além daquilo que escreve.

Isso não se configura um problema por parte do leitor. Cada leitor possui uma carga maior ou menor de conhecimentos, que vai enxergar a poesia de forma diferente, até com o direito de não gostar. Mas ao escritor cabe o papel não somente de leitor superficial, mas de analista. Ele deve pegar as palavras, saber como arranjá-las, qual o melhor meio de fazer com que elas se tornem o poema.

Dentro dessa problemática da preguiça, as pessoas também não se preocupam em conhecer o idioma em que escrevem. Não se faz poesia sem um conhecimento avançado da língua e isso não implica somente em escrever palavras difíceis e de pouco uso, mas saber fazer bom uso de tudo aquilo que conhece.

No segundo motivo, as pessoas que defendem o Modernismo interpretam equivocadamente o que ele significou. Pensam que a quebra da métrica, da forma, das estruturas, significa uma maior liberdade de criação por parte do poeta, na qual pode-se abrir mão De um certo formalismo e ousar mais. Isso não quer dizer abandono total das mesmas, apenas uma releitura.

Fala-se também no Concretismo. Mas o Concretismo é um abandono da função normal da poesia e a transfiguração da mesma, tornando-a plástica. Ela assume, nessa acepção, a função de arte plástica. E isso é algo que as pessoas não entendem, acham que qualquer coisa que lembre outra é “poesia concreta”.

Nada mais longe da verdade. É apenas desculpa para evitar debruçar-se sobre o seu material de estudo.

O terceiro fator vai da nossa concepção moderna de arte. As pessoas tendem a imaginar que qualquer coisa, por pior que seja, é arte. Críticos pseudo-modernos ajudam a continuar essa imagem, dando o valor de arte para coisas que não o são. E isso soma-se aos dois primeiros itens, tornando a produção pobre, ruim. E as pessoas não vêem a poesia como arte. Todo artista, quando quer se aprimorar, preocupa-se em estudar. Mesmo que seja em formas populares, mas procura estudar. Os pseudo-poetas costumam acreditar no “dom” ou que o estudo tira a criatividade. Esse erro contribui para a pobreza de muitos que escrevem.

E o que estudar? Como estudar? Para que estudar?

A resposta da primeira pergunta é a seguinte: leia e analise. Pegue obras clássicas, veja como eles as fizeram. Procure conhecer a língua em que você vai escrever, isso é fundamental. Forçar uma quebra sintática é diferente de errar. E esse erro não pode ser encoberto sob a desculpa de “licença poética”. Depois, existem livros de literatura, manuais de versificação, livros teóricos, coisas que ajudam demais o pretenso escritor. Isso tudo deve ser lido, mesmo que você não seja adepto da forma.

A resposta para a segunda pergunta é assim, com esse estudo, passar a ter uma visão mais crítica do que é criação poética. Praticar e praticar muito escrita. Jogar o seu “eu” no poema, mas sem que isso o transforme em lamentações juvenis ou sonhos cor-de-rosa de meninas.

E para que estudar? Para evitar que a poesia se transforme num consultório sentimental, que não seja como uma carta de amor fútil e de juvenis desesperos, tão efêmeros e tão fúteis. Para que a pessoa tenha mais liberdade de criar sua arte, saindo dos lugares comuns e dos clichês.

Por isso, concluo esse artigo dizendo que estudar é preciso. Pensar também, mas estudar é preciso. Não importa como você escreve, estude o seu objeto de arte, para imprimir nele esse estado, em vez de se perder em futilidades iguais a todos .
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 11/03/2007
Reeditado em 26/04/2009
Código do texto: T409196

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 30 anos
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