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GERALDO SOL

SÉRIE FIGURAS DA BAHIA
GERALDO SOL

Foi um dos grandes amigos que tive nesta vida.

Ator, diretor de teatro,  músico, poeta, cronista e intérprete. Fã de Raul Seixas.

Independente disso, era um cidadão de primeira grandeza. Bom amigo, bom colega, íntegro, humilde, corajoso, capaz de sacrificar-se pelos amigos e pelas causas que defendia, descompromissado com os bens materiais.

Afável, cordial, educado e atencioso.

Foi diretor do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, cuja indicação partiu da nossa amizade. Foi uma das ações mais corretas que tive a oportunidade de realizar.

Com tantos predicados, uma jaça havia em sua vida: o álcool. Geraldo bebia quase todos os dias e o seu organismo começou a dar sinais de repulsa ao álcool, através de uma pancreatite que o acometeu em 1992. Em função disso, foi internado algumas vezes nos hospitais locais, mas logo tinha alta voltava a beber. Sua bebida predileta era cgnac. Quando a grana estava curta, bebia  cachaça pura.

Várias vezes conversei francamente com êle sobre os males que o álcool trazia à sua saúde. Um dia êle me disse: - Olha aqui, Ricardo. Eu bebo cachaça porque é líquida. Se fosse sólida, comê-la-ia...

mesmo com os dotes que Deus lhe deu, Geraldo tinha muitos inimigos em Vitória da Conquista, formados dentro da classe artística que êle tanto defendia. Uma pequena casta de mal caráteres, que tanto mal fizeram e ainda fazem à cultura da região. A perseguição contra Geraldo Sol era terrível, destes elementos e também do Partido dos Trabalhadores do qual êle fez parte e abandonou, quando descobriu suas entranhas. Isso, há uma década...

Geraldo foi Secretário de Cultura e professor durante alguns anos na vizinha cidade de Cândido Sales, onde prestou relevantes serviços.

Era membro efetivo das academias Conquistense e Serrana de Letras. Membro Fundador do Conselho Regional de Cultura do Sudoeste da Bahia.

Passou quatro meses no Canadá realizando uma turnê artística a convite da empresa Nativa, em 1996.

MORTE DE GERALDO SOL CAUSA REVOLTA

A classe artística de Conquista, amigos e familiares de Geraldo Moreira Brito, conhecido pelo pseudônimo artístico de Geraldo Sol, ainda estão revoltados.

Com febre alta, o artista, acompanhado da sua genitora, D. Anália Brito Moreira e uma parenta, peregrinaram por alguns hospitais de Conquista, sem conseguirem o devido atendimento. Depois de horas de peregrinação e agonia, o artista veio a falecer, numa maca do Hospital de Base.

O fato aconteceu na madrugada do dia 06 de maio de 2000 e remete o noticiário para uma triste constatação: adoecer à noite, pode ser fatal em Vitória da Conquista, onde avolumam-se queixas de absoluta falta de respeito para com a vida, justamente contra os médicos, aqueles que juraram lutar para preservá-la.

Eis o fato
“Relato apresentado sobre as condições de atendimento hospitalar, descaso nos encaminhamentos, negligência médica e morte de Geraldo Moreira Brito.

Ao Ministério Público de Vitória da Conquista - Digníssimo Sr. Dr. Promotor de Justiça,
Acometido de febre altíssima, com dificuldades, Geraldo Moreira Brito, conseguiu despertar familiares às 4:00 h. da madrugada, para levá-lo ao hospital. Acompanhado de sua genitora e de uma prima, foi caminhando para a UNIMEC, chegando nesse local às 4:30 da manhã, foi informado que não havia médico no referido hospital, por um vigilante que lhes sugeriu procurarem o Hospital São Vicente. Lá chegando, 10 minutos depois, enquanto a genitora preenchia a ficha de atendimento, a prima acompanhou o paciente até o Pronto Socorro, 15 minutos depois foi atendido pelo médico Dr. João Rogério, que ao fazer exame físico incompleto, uma vez que, alegando inexistência de um termômetro no hospital, não verificou a temperatura corporal do paciente que estava delirando de febre. Mais importante que isso: deixou de prestar os primeiros socorros, uma ação considerada prioritária em qualquer conduta médica de emergência. Após ter perguntado às acompanhantes, o paciente bebe? E recebendo como resposta bebeu muito durante a micareta, está vomitando e tendo febre a dois dias, concluiu que o paciente estava com início de hepatite, e que a Santa Casa não tinha condições de atendê-lo. Perguntamos por que o Hospital São Vicente da Santa Casa de Misericórdia, conveniado da rede SUS não possuia condições de prestar os primeiros socorros a um paciente que apresentava quadro dessa natureza, de suposta hepatite? Que recursos tecnológicos demandariam os primeiros socorros de um quadro agudo como esse? Além disso, outro grande equívoco foi cometido pelo referido médico; não fez o encaminhamento formal, por escrito, do paciente, limitando-se a ordenar para as acompanhantes, procurarem o Hospital de Base, alegando ser aquela instituição de saúde especializada em tratar de doenças infecto-contagiosas.

Mais uma vez, retomando à peregrinação, acompanhantes e paciente chegaram ao Hospital de Base às 5:20 da manhã. E novamente, enquanto a mãe preenchia a ficha de atendimento, a prima acompanhava de perto o paciente no Pronto Socorro.

Na sala de espera, observam o tempo passar sem que nenhuma providência fosse tomada, acompanhando o desespero do seu filho, que em delírio falava coisas desconexas pelo corredor; a mãe pergunta, quanto tempo falta para o atendimento? - A resposta de uma auxiliar de enfermagem: estamos esperando ordens da médica. Uma fila de pacientes começa a crescer, nenhum médico ou componente da equipe de plantão aparece para dar qualquer justificativa. Percebendo que o estado de saúde do filho se agravava, a mãe abandonou a postura polida das perguntas e implorou pelo atendimento a uma funcionária e essa dava-lhe a mesma resposta: estamos esperando ordens da médica. As horas passavam, súplicas aumentavam, e nada! Num último gesto de desespero, a mãe chora, grita por um atendimento que não vem... Duas horas e quarenta e cinco minutos depois, o paciente Geraldo Sol que delirava, de repente, desmaiou! Nessa hora, aos gritos, aos prantos, pedem ajuda, outros pacientes dizem: ele está morrendo! O desespero aumenta; mais gritos e ... finalmente apareceu um auxiliar de enfermagem com uma maca para ajudar a prima que não agüentava com o peso do corpo. Contudo, ninguém da equipe de plantão, nem o médico, assistente social, enfermeira ou auxiliar de enfermagem apareceu para ajudar na ressuscitação do paciente. Após três horas de ter dado entrada, Geraldo Moreira Brito morreu na sala de espera do Hospital de Base, sem ter recebido qualquer assistência médica. Ante ao exposto indagamos: Como um paciente que chega a um hospital, com todos os sinais vitais preservados, após três longas e agonizantes horas de espera, morre sem que tenha recebido qualquer assistência médica? Onde fica o direito mínimo de uma assistência médica, universal, equânime e de qualidade, garantido pela Constituição de 1988, e que constitui princípio orientador do Sistema Único de Saúde ? Como é que um hospital possui 120 médicos, plantonistas deixam cidadãos morrerem dentro do hospital?

Mais importante que isso, após constatada a morte, quando o pai da vítima e um amigo vizinho, depois de avisados chegaram ao local, foram procurados por um funcionário do hospital que igualmente perguntou, ele bebe, não é? Indo adiante, afirmava que o rapaz estava embriagado! Que estranha coincidência, dois profissionais da saúde de diferentes hospitais de Vitória da Conquista, deixaram de prestar os primeiros socorros a um paciente, sem maiores informações, porque chegaram a um diagnóstico, “o paciente bebe”. Sem um histórico do paciente, concluindo sem verificar todas as variáveis, confundindo delírio febril com embriaguez alcóolica, em enorme demonstração de desrespeito a ética médica e a vida de cidadãos, os profissionais das equipes médicas desses dois hospitais precisam ser responsabilizados pela negligência médica, pelo descaso ético e profissional no cumprimento de suas profissões, e pelo preconceito de julgar e escolher quem deve ou não ser atendido diante de um quadro de emergência, sentenciando cidadãos à morte.

No intuito de retirar a responsabilidade da médica e sua equipe de plantão, além do Hospital de Base, o mesmo funcionário sugeriu ao pai e ao amigo acompanhante que arranjassem duas testemunhas para atestarem a morte do paciente para liberarem o corpo para o velório! Nem o atestado de óbito foi emitido por aquela instituição, sendo recomendado, aos acompanhantes retirarem o referido atestado no Fórum na presença de duas testemunhas, em clara transferência de responsabilidade pela morte de Geraldo Moreira Brito daquela instituição para a família.”

Assinam: Mário Brito Santos- Pai. Marluce O. Souza - Viúva. Anália Brito Moreira - Mãe e Edna L.de Brito - Irmã.

Assistimos o velório pois tratava-se de um grande amigo e a revolta era total.

No sepultamento falei sobre as suas virtudes de artista e amigo, conclamando a família a requierer ação na Justiça para desagravar tal atitude da classe médica, como vimos acima, na íntegra.

Geraldo Sol foi meu sucessor como diretor do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, realizando uma grande gestão. Era amante das artes e da cultura, um homem de bem, pai de família que deixa uma filha de três anos e um rapaz de 20 anos. Era servidor, preocupado com o bem estar dos seus semelhantes e merecia melhor sorte.

Cinco anos são passados e ninguém foi punido!

Esta é a situação da nossa cidade que ostenta o título de referência em Saúde. Imaginem as cidades que não o são...
Ricardo De Benedictis
Enviado por Ricardo De Benedictis em 12/08/2005
Reeditado em 16/09/2005
Código do texto: T42033

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Sobre o autor
Ricardo De Benedictis
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 77 anos
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