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As Muralhas e As Pontes


Em “Outras Inquisições” Jorge Luiz Borges menciona o imperador Shih Huang Ti que ordenou que se construísse a infinita muralha da China para defender-se da invasão de bárbaros e que todos os livros existentes antes dele fossem queimados, possivelmente para defender-se dos pensamentos e das idéias que pudessem despertar seus súditos do sono da escravidão. Renunciar ao passado e isolar o império do mundo foram medidas que influenciaram o destino daquele povo. Ele, como tantos outros déspotas construtores de muralhas que pretendem isolar e separar os homens, não chegou a compreender que as soluções dos problemas humanos dependem do entendimento e da união entre os homens.
Não se pode apagar a Verdade que possa estar contida nos livros por estar ela estampada na Natureza e inscrita nas consciências humanas. E piores são as muralhas mentais que separam a alma humana de sua consciência tornando os homens violentos, irascíveis, desumanos e desunidos.
Os imperadores, os reis e os ditadores sempre estabeleceram uma sutil ligação entre teologia, tirania e despotismo. Os deuses inventados pelos homens sempre foram invocados para justificar atrocidades inomináveis, a escravidão e o terror. E não há maior terrorismo que a abominável submissão imposta aos seres pelo temor e pela mentira. Os escravizadores são os impostores de uma teocracia absurda que muitos chamam de política, que deveria ser a arte de gerir o bem comum, mas passou a ser a arte de chegar ao poder e permanecer nele.
O esférico Deus de Hermes Trimegistus, “uma esfera inteligível cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma”, não quereria, certamente, súditos escravizados, temerosos e ignorantes, porque vivendo em seus corações, não poderia ser contrário ou inimigo de Si mesmo, que tudo contém e que se confunde com a própria Criação.
Ao invés de construir muralhas, o ser humano do futuro construirá pontes mentais de entendimento, caminhos que unam os homens e que integrem os fragmentos perdidos para que possam, efetivamente, sentir e compreender o Deus invisível que está eloqüentemente presente nos grandes sentimentos, como na amizade, verdadeira ponte invisível que permitirá que a humanidade subsista.
Há algum tempo recebíamos a notícia da morte de um amigo e refletíamos que o que se ausenta deveria ser recordado sempre, para que não morresse pela segunda vez; a sua sobrevivência dependeria, em parte, dessa recordação que seria um tributo àquele espírito que continuaria vivendo entre nós.
Revendo um ensaio de um pensador americano sobre a amizade, não pude deixar de recordar aquele dia e fazer algumas reflexões sobre a amizade e a vida, pois serão os nossos amigos que estarão presentes nas celebrações da vida e da morte.
A amizade não pode ser uma ligação passageira e interesseira, senão a confortante experiência de estar acompanhado. E não se pode ser amigo de alguém se não se é de si mesmo.
O sopro divino que habita o coração dos que são amigos desconhece, ou deveria desconhecer, as grosseiras muralhas dos defeitos pessoais.
A amizade, em seu profundo significado, implica o amor que é a síntese e a essência do Deus único.
Um amigo é como um espelho que pode nos ajudar no caminho evolutivo. Nesta mágica relação poderemos aprender muito.
Diante da morte de um amigo, de uma ausência que parece ser irreparável, deveremos pensar que a vida celebra a vida, e que a alegria e a amizade sustentam o ser humano nos anos de sua vida terrestre. E que essa ausência não é mais que um sinal e um convite para que continuemos a nos ver e a nos falar através da recordação.
A amizade é um sentimento que dignifica a espécie humana; capaz de elevar a conduta pessoal a níveis de desprendimento, humanismo e heroísmo que chegam a surpreender a opinião do mais frio observador. No entanto, apesar de dignificar a espécie humana e de reconfortar os corações daqueles que a experimentam, é fugaz, efêmera. Quantos distanciamentos incompreensíveis! Quanto sofrimento nas separações que jamais se cogitou! Quanta incompreensão!
E a que se deve tudo isto? Por que o sentimento morre como se nunca tivesse existido?
Esta é a pergunta que cada um deve fazer a si mesmo ao contemplar a própria incapacidade por conservar o que um dia julgou justo, belo e imorredouro.
O que não se chega a compreender é que a manutenção da amizade exige a correspondência do afeto. A amizade é uma das maiores reservas morais que tem o ser humano. O esforço que se faça por preservá-la será largamente recompensado pela correspondência espontânea do afeto que se prodigou.
Um amigo é uma riqueza imponderável que nos acompanha sempre. Nem mesmo o distanciamento ou a morte poderá abalar uma amizade conscientemente cultivada. Cada amizade é como uma planta que, de semente, poderá florir se dispensarmos a ela o cuidado que exige tudo aquilo que queiramos que seja permanente em nossa vida.
Este sentimento superior deve ser despojado de qualquer interesse pessoal ou mesquinhez. Comecemos por ser amigos de nós mesmos; ensaiemos estas gentilezas, a sinceridade e o afeto com nossa própria pessoa, e quem sabe este sentimento deixe de ser palavra morta, expressão literária, e possamos experimentá-lo em sua plenitude em nossos corações.

Nagib Anderáos Neto
nagib@sobloco.com.br
www.nagibanderaos.com.br

 
Nagib Anderáos Neto
Enviado por Nagib Anderáos Neto em 15/08/2005
Reeditado em 16/11/2010
Código do texto: T42740

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Sobre o autor
Nagib Anderáos Neto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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