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Viagem ao Rio de Janeiro

(Artigo publicado no site do autor: www.nardeliofernandesluz.com)

Apesar de, antes da paralisia, ter andado como notícia ruim por aí, foi sempre pelo interior do Brasil e eu nunca tinha visto o mar de perto, coisa que aconteceu num final de semana em abril de 2003. E que maravilha é o mar! Agora entendo melhor a inspiração de alguns poetas e compositores.

Alguns dias antes haviam me ligado da APARU (Associação dos Paraplégicos de Uberlândia) e me fizeram uma proposta pra lá de interessante: uma viagem de turismo para o Rio de Janeiro. Ao descobrir que seria tudo pago por uma nova agência de turismo daqui, quis saber mais detalhes, pois esse pessoal não costuma fazer as coisas de graça. Pois bem, tratava-se de uma viajem de lazer, mesclada à responsabilidade de fazer avaliações das novas adaptações para acesso de deficientes físicos ao Cristo Redentor e da propagação do turismo uberlandense. “Até aí, tudo bem”, pensei, “como seriamos filmados e fotografados para matérias de divulgação, nosso cachê seria as despesas da viajem”. (Risos.)

Adoro viajar! Sempre gostei!!! E a última viagem que havia feito, já haviam se passado nove meses. Caramba!... Nove meses é o tempo de uma gestação... Tempo demais para permanecer num só lugar!!! Sendo assim, após uma reunião para melhor esclarecimento das coisas, mais que depressa aceitei a oferta da APARU. Já não tenho mais a habilidade de ir e vir quando der na telha, como antigamente, sendo assim, não posso perder nenhuma oportunidade de bancar o "rato de estrada", quando esta surgir. E essas oportunidades têm sido cada vez mais raras.

Saímos de Uberlândia por volta das 20:00, na sexta-feira. A proposta inicial era para que fôssemos em ônibus leito, afinal, se a viajem já é longa e extremamente cansativa para os paraplégicos – que conseguem fazer elevações e se virarem sozinhos sobre as poltronas –, imagine para nós, tetraplégicos, que não conseguimos nos mover. Mas, contrariando minha expectativa, o ônibus foi desses comuns, com acesso e poltronas normais.

A meu ver, a coisa começara mal, mas já que eu estava ali, não iria desistir. Encarei a viagem como um teste para avaliar a tolerância do meu corpo, afinal, eu precisava saber até onde poderia suportar as agruras de vagens longas, para o caso de experiências futuras. Além disso, sempre gostei de aventuras, e esta foi uma das poucas que pintou na minha vida ultimamente. E fui feliz em constatar que meu corpo é bem mais resistente do que eu imaginava. Não vou dizer que a viajem em si foi confortável, pois realmente não foi. Ainda que os dois rapazes que foram para nos auxiliar, por duas ou três vezes tenham me elevado levemente da poltrona – para descomprimir as nádegas e costas –, não é fácil viajar treze horas e meia sem sair do lugar. O pior é que tanto a porta de entrada, quanto a que separa a cabine do motorista do resto do ônibus, eram muito estreitas, dificultando assim que o pessoal de apoio nos transportasse para dentro e fora do veículo. E as poltronas inclinavam muito pouco, no que tive que permanecer sentado e não consegui pregar o olho um momento sequer.

Como eu estava na primeira poltrona da direita, apesar da chuva em boa parte do caminho, tinha uma visão panorâmica da rodovia e arredores, isto me distraiu bastante. Uma vez que não conseguia dormir, precisava de algo para matar o tempo: contei nove postos de pedágio. O trajeto foi pelo estado de São Paulo e pude perceber que não só a Anhangüera – que eu já conhecia –, mas também suas outras rodovias – assim como as do Rio – são realmente bem melhores que as nossas.

Apesar de todos os incômodos e cansaço da viajem, chegamos ao Rio por volta das 12:00 de sábado. E foi aí que percebi o quanto o sacrifício valeu a pena: a começar pelas belezas naturais, avistadas na descida da Serra das Araras, na chegada. Por todo lado que se olha naquela cidade são só maravilhas, por isso é chamada de "Cidade Maravilhosa". As praias, o mar, as serras, as ilhas, os morros, as florestas urbanas, o Corcovado, a Rodrigo de Freitas, a pedra da Gávea, a arquitetura dos antigos prédios da orla... Até mesmo os minúsculos barracos das favelas, vistos à distância, milagrosamente pendurados nas bordas dos precipícios, possuem sua beleza insólita. O Rio de Janeiro é realmente uma cidade maravilhosa.

Contudo, há algo em Minas Gerais que, em matéria de beleza, ganha disparado do Rio: as mulheres. Como são lindas e maravilhosas as nossas mineiras! Ao ver as cariocas seminuas nas praias, senti falta das nossas beldades, ainda que vestidas, exaltando sua beleza simples pelas nossas ruas.

Ao chegarmos, fomos diretamente para o hotel, onde pude tomar um banho e descansar um pouquinho antes do almoço. Ficamos hospedados no Leme Othon Palace – hotel 4 estrelas – na praia do Leme, a pouco mais ou menos quatro quadras de Copacabana. (O Leme Othon Palace pertence à rede Othon, que também possui hotéis em outros bairros nobres do Rio e, segundo ouvi, em outras capitais brasileiras e também em alguns países da Europa.) Fizemos nossas refeições no Sindicato do Chopp, restaurante famoso, também situado na praia do Leme. Foram os dois dias VIP’s da minha vida e, creio que da maioria dos meus companheiros de viagem (risos).

Ainda na tarde de sábado, curti a praia, os quiosques, cervejas e bastante água de coco – com e sem cachaça –, enquanto a turma se esbaldava tirando fotografias de tudo e de todos. À noite, após o jantar, fizemos um passeio a pé pelo calçadão de Copacabana e paramos num quiosque onde havia um pequeno grupo de pagode, para algumas cervejas e caipirinhas. Dali só saímos para o hotel.

No domingo, levantamos cedo. Banho, café no hotel e, por volta das 10:00 fomos para o Corcovado, a fim de visitarmos as instalações de acesso e adaptações para deficientes do Cristo Redentor e fazermos a avaliação para um relatório posterior. Seguindo a idéia do nosso patrocinador – que viajou conosco –, nossa equipe soltou uma pomba branca no alto do corcovado, em apologia a paz no Rio de Janeiro. Foi um gesto simbólico, mas belíssimo, que foi registrado não só pelas nossas câmeras, mas também por mais de uma dúzia de turistas, nacionais e estrangeiros.

Durante toda a viagem, tivemos a companhia de um cinegrafista da Rede Vitoriosa – emissora SBT da nossa região –, registrando todos os nossos passos numa matéria para o programa "Radar", que vai ao ar diariamente pelo SBT, por volta das 12:30. (Inclusive, assisti o programa, no dia que passou a matéria. Achei que ficou bem legal.) E, no corcovado, tivemos também a presença da Andréa, uma simpática jornalista carioca. Esta, além de registrar nossa visita, também nos serviu como guia turístico.

A vista do Rio a partir do Corcovado – aos pés do Cristo Redentor – é simplesmente deslumbrante, mesmo que eu tentasse mil vezes jamais poderia descrevê-la com palavras. Pode multiplicar maravilhoso por extraordinário e, talvez, consiga 10% daquela beleza. Como eu disse ao Márcio – o amigo que me acompanhava –, aquelas imagens ficarão para sempre na minha memória, tão nítidas quanto fotografias.

Ao sairmos do Corcovado, fizemos um tour de ônibus por alguns pontos do Rio – tendo, dessa vez, um membro da Polícia Militar como guia – e depois voltamos ao hotel. Almoçamos novamente no Sindicato do Chopp, curtimos mais um pouco da maravilhosa praia do Leme e, à tardinha, deixamos o Rio de Janeiro.

A volta para casa foi ainda mais sofrida e cansativa, pois como sempre acontece nos finais de excursões, já não tínhamos ânimo e nem os estímulos da curiosidade. Só nos acalentava a lembrança das nossas camas e a expectativa de um descanso prolongado. Ao menos foi assim para mim. E após mais treze horas e meia de desconfortos na estrada, eu estava novamente na minha cidade. Pouco mais ou menos três horas depois, eu estava em casa.

Meu corpo passou no teste, digamos que até com louvor e a viajem valeu muitíssimo. Pena que foi um tanto corrida, não nos deixando muito tempo para pensar, sequer para comprar alguns souvenires. Só no longo trecho de volta me lembrei dessas coisas, mas já era tarde demais.

Nardélio Luz
Enviado por Nardélio Luz em 18/08/2005
Reeditado em 29/11/2007
Código do texto: T43457

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Sobre o autor
Nardélio Luz
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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Nardélio Luz