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Novo, novíssimo e a expectativa do futuramente vindo.

Novo, novíssimo e a expectativa do futuramente vindo.
 
Ao andar na rua vejo anúncios indicando a "qualidade" de um produto pela duração da saída da fábrica até sua exposição em vitrines. Os produtos super novos são os sonhos de consumo de todos os potenciais consumidores que por ali circulam. Tvs de plasma com suas imponentes 42 polegadas de puro widescreen. Geladeiras sofisticadérrimas que só faltam falar. Fogões que usam sistemas de aquecimentos variados e muitas vezes a frio, o que é um conforto para mães com filhos pequenos. Rádios ultramodernos com ligações usb com tecnologia de reprodução dos mais diversos tipos de mídias possíveis e assim por diante.
 
Muitas vezes o que é novo chama a atenção, não por ser bom e bonito, apenas por ser novo. Geralmente produtos com tecnologia de ponta são postos à venda para teste e justamente podem apresentar problemas dos mais diversos. Que aquele consumidor menos precavido acaba se envolvendo justamente por comprar a novidade no impulso.
 
A impulsividade do consumo, seja ele de eltroeletrônicos, de roupas, de objetos de entretenimento ou até mesmo de produtos alimentícios vai de encontro com as outras partes de nossas vidas. Onde agimos muito mais por impulsos do que por uma reflexão e um verdadeiro "querer".
 
Pois vejamos que ao praticar um dado comportamento o ser acaba se viciando naquele tipo de atitude e justamente o expandindo, mesmo que sem pensar, a outras áreas de sua atuação. Contando que, normalmente, as pessoas tendem a agir com mais precaução em momentos de suas vidas que mostrem riscos maiores. Então quanto maior for o risco de sua atitude maior é sua precaução com ela adotada.
 
Como exemplo eu cito um caso aparentemente banal, mas que ilustra muito bem tal tipo de conduta. Vamos imaginar que Lúcia tem uma vida modesta e gosta muito de celulares, ela é a primeira a despejar alguns litros de sua preciosa saliva em vitrines das lojas que exibem modelos dos mais caros e modernos. Por ser uma trabalhadora e ter família e contas a pagar ela não pode se dar ao luxo de sair comprando um celular impensadamente, mesmo que fique desejando aquele aparelhinho todos os dias, e certamente vai comprar o de seu agrado quando for possível. Mas em outra área Lúcia é expert também. Ela ama chocolates. E nada mais gostoso que um chocolate descendo pela garganta e adocicando nosso paladar. Todos os dias ela passa em frente a barraca de chocolates do Pézão, que fica em frente ao seu trabalho, e compra uma barra de chocolate. Muitas vezes impulsivamente. Gastando por mês um equivalente a sessenta reais.
 
O grande problema que se configura atualmente é a perda dessa noção de importância de certas atitudes pelos consumidores. Simplesmente pelos dribles da foca que o mercado passa na mente impulsiva dos consumidores. Eles conseguem passar pelas barreiras da proteção individual e acabam atingindo o cerne da vontade aliando à ela uma incrível facilidade na hora da compra. Pague em 10, 12, 24 vezes, sem juros, com primeira entrada para daqui há alguns meses e ainda receba um desconto de 100 reais só até amanhã, obs. Ficaremos abertos a noite inteira.
 
Quer apelo mais irrepreensível do que esse para aflorar de vez o impulso consumidor do cidadão? Não interessa se a coisa é cara, vamos passar um ano pagando por ela, para ter o mais novo, o melhor, o de melhor custo benefício. Vamos agora! "Zé liga o carro que eu to acabando de passar o batom!" - "...mas Ana são uma da manhã!" - "C acha que eu vou perder essa mamata?"
 
Essa desconstrução dos valores sociais e da desvalorização das prioridades do ser é um dos principais problemas que essa cultura de consumo trás englobada em sua filosofia. As corporações são pessoas jurídicas, mas sem escrúpulos. São pessoas amorais que procuram apenas o lucro. Sem medir as manipulações que podem fazer. Sem medir a destruição de camadas mentais que causa e com isso toda uma desconstrução do modo de pensar da pessoa ocidental.
 
E para que tal modelo "econômico" vigore, é imprescindível que as pessoas alvo sejam acríticas. Sejam desenvolvidas em um modelo escolar que as eduque de maneira eficazmente informacional e impulsiva. Do modo que há apenas um acúmulo de informações que são camufladas e passadas como conhecimentos. Essas informações que são passadas, são empurradas na direção do aluno que não é capaz de criticar o que está recebendo e muitas vezes não se identifica com o modelo imposto, sendo mais uma pessoa que estuda para passar em provas e logo depois acaba esquecendo o que nunca foi, de fato, útil.
 
Pois de nada adianta saber datas, fórmulas, nomes, eventos, regras se não se é capaz de analisá-las e utilizá-las com destreza nos vários ramos da vida cotidiana. Tendo as escolas abolido definitivamente os ensinos de filosofia, antropologia e arte o aluno acaba ficando com a parte idiotizante do chamado "conhecimento". E sendo empurrados à faculdades se vêem perdidos em suas concepções e valores.
 
Justamente o que quer o mercado para abraçar e englobar mais uma pessoa no modelo de desejos/ligeiras satisfações/frustrações que promove a cada dia. Era de se esperar que educadores fossem os primeiros a criticar tal tipo de conduta, mas em sua maioria são eles também vítimas de uma educação que vem se desenvolvendo nesse sentido idiotizante. Sendo frutos da educação idiota, só poderão ensinar aos seus alunos, e educar seus filhos de mesma maneira. Criando um círculo vicioso em que de pouco em pouco as barreiras críticas e analíticas dos cidadãos vão caindo. Como se a filosofia de nosso modelo econômico se garantisse no passar das gerações para cada vez mais se consolidar.
 
Sendo então que uma aparente cultura consumista do novo e do moderno acaba se refletindo em todos os ramos do pensar e do conhecimento de nossas gerações, que ficam mais expostas a manipulações de sonhos, desejos, ideais de felicidade, objetivando-as em uma única coisa. O produto fruto de consumo. Hoje consume-se sonhos, estilos de vida, felicidades fulgazes, e até produtos, que em sua instância máxima se promove como realizador de sonhos e estilos de vida. Entramos então no conceito da sociedade da imagem. Não se compra mais um produto, mas sim a imagem que dele é passada. Concepção essa que vigora nas camadas mais altas de nossas sociedades ocidentais. Que por sua vez influenciam as camadas mais pobres. Essas que sempre foram influenciadas no sentido de tentativa de igualdade com as camadas mais superiores.
 
Criando uma cultura de falsificações imagéticas tremenda. Para se parecer com o rico cria-se cds piratas, dvds piratas, tenis piratas, roupas piratas, brinquedos e perfumes piratas. Cria-se uma sociedade pirateada para se parecer, em sua imagem como à grande classe dominante que também é idiotizada pela imagem. Configurando uma sociedade que em todas as suas camadas não mais vive a vida, mas vive da imagem que se quer passar e dessa imagem que o consumo sobrevive sempre despertando o novo e o moderno como ideais de consumo. O que na verdade afeta mais uma parte de nossas vidas, os nossos recursos naturais.

Em sua luta incansável pelo novo os tecnocratas em sua visão racional do consumo se apropriam de elementos da ciência de vanguarda para desenvolver métodos mais eficientes de produzir novos sonhos de consumo. Configurando uma tecnologia sem compromissos com os materiais e processos que utiliza. Só pensando em que tipo de lucro podem gerar essas novas tecnologias aplicadas são testadas aos milhares de tipos emplacando uma porcentagem de dois da proporção de objetos testados e objetos emplacados no mercado.

O que é um dispêndio inacreditável de energia e material para um fim apenas, gerar lucro. Essa idéia abstrata de nossa sociedade que tem como fim um final mais breve de nossos recursos naturais e uma deterioração maior de nossa sociedade.

Essa configuração de nossa realidade que apresento é a que nos domina atualmente, acredito que existam pessoas lúcidas e de bom senso que agem de modo diferente e procuram esclarecer cada vez mais nosso meio e as pessoas que os circundam. Mas o que é extremamente difícil e complicado, pois as pessoas que tem a clarificação dessa faceta de nossa sociedade não consegue competir com massificações de gigantes globalizadas.

O que vale uma palavra dita de uma pessoa uma vez por semana contra milhares de mensagens jogadas contra você diariamente? Não muito, e por isso que a disciplina do pensar, do criticar e do filosofar para melhor viver deve cada vez mais ser valorizada. Para que possamos pensar e nos livrar, da melhor forma possível dessas massificações idiotizantes.

Por isso, e por esses motivos apresentados que defendo a reestruturação de nossa escola a fim de formar cidadãos mais conscientes de nossa condição. Primeiro de nossa condição fraca diante às grandes corporações globais que fazem de nossas mentes simples joguetes, e quando compramos nossa coca cola para matar a sede não pensamos que estamos comprando algo porque somos secretamente induzidos a tal. Segundo de nossa condição de pais que vão formais pais cada vez mais suscetíveis a tais tipos de manipulações, já que sem pensarmos e criticarmos nossa condição não temos como passar aos próximos seres nossas ideologias, deixando brechas para a televisão e o colégio fazer. Terceiro de nossa condição de povo ocidental consumidor. Que deverá sempre ser assim, mas não com uma política de total descontrole dos meios de renovação de promoção, venda e compra desses produtos.

Espero ter mostrado como uma simples característica, que parece banal pode ocultar toda uma estrutura errônea de viver, que sem pensarmos e sem nos atinarmos para ela, a coisa passa despercebida e só tende a piorar.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 23/08/2005
Código do texto: T44568
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz