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A INFÂNCIA, ANOS 60,70, 80...

                                            FRANCISCO DE PAULA MELO AGUIAR


                                                   Oh! que saudades que tenho
                                                   Da aurora da minha vida,
                                                   Da minha infância querida
                                                   Que os anos não trazem mais!
                                                                   Casimiro de Abreu


                         Preliminarmente, enfatizamos de que a infância, enquanto termo, tem origem na língua latina, isto é vem de “in”, privativo mais “fari”, que significa falar, verbo de primeira conjugação, cujo particípio presente é “fans” e ou “fantis”. Assim sendo, etimologicamente falando, o termo denota, o período da vida em que o individuo enquanto criança não pode ainda falar. De modo que na pratica, esse termo é empregado em síntese para designar a fase da vida do ser humano que antecede e ou precede a fase da adolescência. Sabemos que  este período da vida humana é caracterizado: 1º) pela dependência quase total do ser humano em relação aos seus genitores e ao seu grupo familiar, em detrimento dos animais irracionais, levando-se em consideração o grau de dependência e fragilidade do ser humano ao nascer, não obstante a grandeza potencial de que é portadora; 2º) pela ductibilidade e plasticidade física e psíquica, propriedades singulares especiais que dão a infância a sua capacidade de aprendizagem e assimilação de experiências e impressões que ficarão permanentes e indeléveis dentro de si para o resto da vida  em todas as demais fases. E até porque o pai da Psicanálise Sigmund Freud menciona que “a religião é comparável a uma neurose da infância” e bem assim “não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai”. É a falta da presença paterna e materna na vida de uma criança que a faz diferente dos moldes sociais..
                        Por analogia ao Provérbio Chinês que nos ensina que “o grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”, assim sendo pela simples leitura do texto: “Você que teve sua infância durante os anos 60,70...”, escrito por Dejan Trifunovic¹, onde ele indagava “responda uma coisa: Você que teve sua infância durante os anos60,70,80...”, ato continuo continua descrevendo o mundo vivenciado naquele período e na infância de quem tem sua infância ali. E volta a indagar “como pôde sobreviver?” e em sendo assim enfoca em primeiro lugar de que “os carros não tinham cintos de segurança, apoios de cabeça, nem air-bag!”, como uma declaração enfática de que tais acessórios dos carros atualmente usados fosse a única tecnologia e ou maneira para se viver mais...de modo que finaliza o seu primeiro argumento com outro do tipo “íamos soltos no banco de trás fazendo aquela farra!” e desabafa “e isso não era perigoso!”. Em dando continuidade as suas referências memoriais da infância o autor diz que “as camas de grades e os brinquedos eram multicores e no mínimo pintados com umas tintas “duvidosas” contendo chumbo ou outro veneno qualquer”. Isso era uma realidade nua e crua vivenciada nas décadas de 60,70,80... não só Brasil, mas em todas e qualquer parte do mundo, envolvendo toda a população infantil dos cinco continentes. E relaciona enfaticamente de que “não havia travas de segurança nas portas dos carros, chaves nos armários de medicamentos, detergentes ou químicos domésticos”, diante do faltava tudo naquela época em termos de tecnologias “modernas” do século XXI, relata também de que “a gente andava de bicicleta para lá e para cá, sem capacete, joelheiras, caneleiras e cotuveleiras...” e disserta magistralmente em seu escrito de que “ bebíamos água da torneira, de uma mangueira, ou de uma fonte e não águas minerais em garrafas ditas... “esterilizadas...” e a memória desconfiada registra de que “construíamos aqueles famosos carrinhos de rolimã e aqueles que tinham a sorte de morar perto de uma ladeira asfaltada, podiam tentar bater records de velocidade e até verificar no meio do caminho que tinham “economizado” a sola dos sapatos, que eram usados como freios... e estavam descalços...”, foi que relembramos de que as crianças que moravam em Santa Rita/PB, especialmente as do Bairro Popular, por exemplo,  na década de 60,70,80... do século XX, usaram os famosos carinhos de rolimã que deslizavam de ladeira abaixo, na poeira de nossas ruas e principalmente da rua Professor Severo Rodrigues, tendo em vista que somente no início da década de 70, foi que a municipalidade na gestão Antônio Teixeira II, calçou a primeira rua do referido bairro e neste período jamais conheceu o asfaltamento de suas ruas. Somente em 2000 a nossa cidade recebeu o primeiro “banho” de tinta preta misturada com asfalto em parte do chamado anel viário e que atualmente encontra-se em estado de miséria por falta de manutenção e conservação pela municipalidade.  E diz ainda de que “alguns acidentes depois...”, como se na realidade “todos esses problemas estavam resolvidos!”. Naquele tempo as crianças podiam brincar nas ruas e praças de nossa cidade e do mundo, o tempo era outro e isso ele confirma ao dizer que “íamos brincar na rua, com uma única condição: voltar para casa ao anoitecer! Não havia celulares... e nossos pais não sabiam onde estávamos”. O auto nos dá a entender de que o perigo contra a infância era praticamente zero, de modo que isso é “incrível!” em relação aos dias atuais. É um fato e contra fato não se tem argumento e diz que “tínhamos aulas só de manhã, e íamos almoçar em casa”. O que comprova a inexistência cantinas com merendas: lanche, janta e ceia da população escolar infantil nas creches e escolas de Educação Básica, como acontece com a atualidade. E as crianças brincavam na escola e no meio da rua e não era preciso de “gessos, dentes partidos, joelhos ralados...”, tudo isso acontecia raramente porque a escola, a família e demais instituições enfrentavam o ato de educar e instruir seus filhos para aprender a ler e escrever antes de entrar na primeira série do então Curso Primário. A violência dentro e fora do lar e da escola era praticamente zero e controlada pelo Poder Público. Era época em que a escola pública era respeitada por quem a freqüentava, pois, sua falência em termos estruturantes teve inicio com a implantação da Lei nº 5.692/71². E chega a concluir tal argumento mencionando de que “alguém se queixava disso? Todos tinham razão, menos nós...” e isso é um fato, a criançada atual tem o amparo do Estado através do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, nas décadas de 60,70,80... não existia tal legislação e ponto final, aí os pais e educadores tinham autoridade para educar e instruir as crianças sem espancamentos e violências outras, tudo dependia do amor e da visão de mundo de cada família e de cada educador em si, e isso ainda prevalece, ex-vi os crimes hediondos atualmente praticados por pseudos pais e professores com letras minúsculas pelo Brasil afora. Naquela época “comíamos doces à vontade, pão com manteiga, bebidas com o (perigoso) açúcar. Não se falava de obesidade, brincávamos sempre na rua e éramos super ativos...”, nesse tempo o uso de drogas: maconha, cocaína, crack, etc., era praticamente zero pelas crianças e jovens de todas as classes sociais. E até porque no dizer dele “dividíamos com nossos amigos uma tubaína³ comprada naquela vendinha da esquina, gole a gole e nunca ninguém morreu por isso...”. A tubaína é um refrigerante regional, no caso da Paraíba a criançada do nosso tempo tomava o Guaraná Sanhauá e ou Dore, eram as marcas mais usadas compradas nas bodegas de Irmão Joca, de João Lopes, de Antônio Sales, de Edson Guedes, de Antônio Damião, dentre outros bodegueiros famosos de nossa cidade. Tudo isso era uma festa da criançada. E o autor tem razão quando fala de “nada de Playstations, Nintendo 64, X boxes, jogos de vídeo, internet por satélite, videocassete, Dolby surround, celular com câmera, computador, chats na internet” e que  tudo era “...só amigos”. A memória é a razão maior de nossas vidas em todos os sentidos pois o relato mencionado nos chama a atenção e nos cobra relembrar algo quando diz: “e os nossos cachorros? Lembram? Nada de ração. Comiam a mesma comida que nós (muitas vezes os restos), e sem problema algum! Banho quente? Xampú? Que nada! No quintal, um segurava o cão e o outro com a mangueira (fria) ia jogando água e esfregando com (acreditem se quiserem) sabão (em barra) de lavar roupa!” e chega a fazer gozação do chamado avanço cientifico e tecnológico de nossos tempos quando indaga: “algum cachorro morreu (ou adoeceu) por causa disso?”, claro que ele tem razão de sobra. O contentamento diante do descontentamento do escritor nos chama atenção quando ele enfatiza que “a pé ou de bicicleta, íamos à casa dos nossos amigos, mesmo que morassem a kms de nossa casa, entrávamos sem bater e íamos brincar”. Aqui as famílias ainda se conheciam e se respeitavam em sua totalidade. De modo que “É verdade! Lá fora, nesse mundo cinzento e sem segurança! Como era possível? Jogávamos futebol na rua, com a trave sinalizada por duas pedras, e mesmo que não fossemos escalados... ninguém ficava frustrado e nem era o “Fim do Mundo!”, existia respeito mutuo entre as famílias, os professores, os vizinhos e suas crianças. E isso fica comprovado quando é enfatizado de que “na escola tinha bons e maus alunos. Uns passavam e outros eram reprovados. Ninguém ia por isso a um psicólogo ou psicoperapeuta. Não havia a “moda” dos “superdotados”, nem se fala em dislexia, problemas de concentração, hiperatividade. Quem não passava, simplesmente repetia de não e tentava de novo no ano seguinte!”. Respeitamos as novas descobertas da medicina, da educação, psicanálise, da psicologia, da psicopedagogia, etc, e até porque “tínhamos: liberdade, fracassos, sucessos, deveres... e aprendíamos a lidar com cada um deles!” e adianta ainda que “a única verdadeira questão é: como a gente conseguiu sobreviver? E acima de tudo, como conseguimos desenvolver a nossa personalidade?” e finaliza indagando “ você também é dessa geração?” e “se sim, então mande este e-mail aos seus amigos desse tempo, e também aos seus filhos e sobrinhos, para que eles saibam como era no... nosso tempo!”, fique preparado para o que der e vier pois “sem dúvida vão responder que era uma chatice, mas... como éramos felizes!” e não sabíamos... e isso é muito relativo ex-vi a visão de Charles Chaplin quando menciona que “uma pessoa pode ter uma infância triste e mesmo chegar a ser muito feliz na maturidade. Da mesma forma pode nascer num berço de ouro e sentir-se enjaulada pelo resto da vida”.


                      É mesmo assim, na visão de Francesco Alberoni “a vida humana não tem um só nascimento, só uma infância, é feita de vários renascimentos, de várias infâncias”.
                         E assim podemos mencionar de que para se desenvolver normalmente na teoria e na prática, a infância precisa e necessita de um verdadeiro clima familiar, escolar, social, religioso, etc, sadio de amor, de lealdade, carinhoso e dedicado, em outras palavras isso não quer dizer a condescendência com suas teimosias e caprichos pessoais e individuais, tudo porque do mero sorriso da infância de uma criança depende a própria felicidade dela e do mundo em que está envolvida.
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¹  <http://melodiaweb.com/Sessao.aspx?cod=430>
²  <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/l5692_71.htm>
³   <http://pt.wikipedia.org/wiki/Tuba%C3%ADna>
FRANCISCO DE PAULA MELO AGUIAR
Enviado por FRANCISCO DE PAULA MELO AGUIAR em 22/10/2013
Código do texto: T4537563
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FRANCISCO DE PAULA MELO AGUIAR
Santa Rita - Paraíba - Brasil, 62 anos
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