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Texto

De objeto a mulher

INTRODUÇÃO
O presente trabalho defende a posição da mulher como sujeito de valor em qualquer configuração social e, partindo de uma análise crítica de “Aquele Casal”, pretende dar conta de questões referentes à mulher no mundo. Além de uma leitura pessoal e reflexiva da crônica de Carlos Drummond de Andrade, este texto tem uma orientação sociológica que é feita a partir dos artigos acadêmicos disponíveis em sites e revistas eletrônicas, a fim de esclarecer a história do casamento e de como este se reconfigurou ao passar do tempo saindo do velho modelo moralista e patriarcal, endossado pela religião, até alcançar as configurações reconhecidas no século XXI.

Para isso, tomamos o marido como representação da sociedade falocrática, e Elsa a esposa, como uma representação da mulher ou da condição feminina nessa sociedade dominada pelo senhorio masculino. Assim, este trabalho aborda o tema em três aspectos: um primeiro que pensa o casamento enquanto modelo tradicional, falocrático, no qual a mulher, assujeitada ao homem, era subjugada à condição de coadjuvante nos papéis sociais ao longo dos séculos, sendo ela muitas vezes considerada apenas um bem de pertencimento ao marido e não um indivíduo, um sujeito dotado de sentimentos e que é pensante e atuante; um segundo que reflete sobre as mudanças na sociedade e suas implicações no lugar social da mulher e seus efeitos sobre o casamento a partir da quebra de tabus; e, por fim, como deriva dessa reconfiguração e quedas de tabus, pensamos a respeito do lugar da mulher idosa e do funcionamento da sexualidade na velhice em nossos dias.

Esposa e propriedade
“Não quero saber de minha mulher
revelar seu encanto a ninguém.”

O que compramos é nosso e guardamos em nosso quarto para estar seguro, protegido, longe do alcance dos olhos dos observadores inconvenientes e muitas vezes mal intencionados. É até por isso que a nota fiscal de um produto é guardada com tanto ou mais zelo em um local separado. É preciso que se prove de quem é a coisa. A nota, a certidão é a prova.

O homem possuidor de seus bens zela por eles para que permaneçam intactos, intocáveis. Para que não os furtem, os guardam em cofres, os escondem, montam guarda para eles. Acaso alguém em sua sã consciência, dotado de mínimo bom senso e possuindo um bem qualquer o deixaria a disposição de qualquer um?

Um bom negócio alegra o coração do homem e este satisfeito com a negociação zela pelo seu sucesso, afinal de contas o seu nome estará em jogo. Terrenos, imóveis, animais, empresas, tudo isso são bens cujos donos cuidam para que deles tirem proveito e através deles se faça notar sua capacidade de comando, gerenciamento, administração de suas posses. Um bom negócio é um bom negócio e deve ser bem guardado.

A história relata que o casamento é um desses negócios que, bem sucedidos, faziam prosperar o negociador, o homem. Este zelava para que tudo ocorresse segundo a regência de seu braço forte. O homem casado tinha sua esposa, tinha seu bom negócio, tinha seu objeto de posse.

Dela esperava-se que lhe desse resultados positivos: submissão, cooperação com a ordem da casa, obrigações conjugais e herdeiros.

O casamento tradicional punha o homem no senhorio da família, uma espécie de deus mortal, mas infalível cujos membros da família deveriam obedecer cegamente. Era em razão disso que “sua autoridade jamais era contestada, e sua figura era sagrada: a imagem do Deus do Velho Testamento, do herói e do guerreiro” (RODRIGUES, p. 437).

O marido, senhor, não admitia que sua esposa ousasse fora daquilo que era previsto dentro das tradições do casamento e da família. Família que segundo HARIOU (apud CANEZIN, p. 147), “é uma instituição – a primeira das instituições – e o casamento é o seu ato de fundação”. Por isso havia uma norma: a de que à mulher era dado o direito de ser esposa obediente e progenitora dos herdeiros de seu marido e senhor. O que, desde cedo, era parte de sua formação cultural, já que segundo CANEZIN (p. 147) a educação feminina “restringia-se às prendas domésticas, à prática da virtude e da obediência ao futuro esposo” e “o namoro e noivado eram um ritual onde a jovem aprendia a ser submissa ao futuro marido, como fora ao pai.

Essa tradição de submissão e serviço era apoiada pela igreja que se baseava, também, neste imperativo bíblico: “Seu desejo será para seu marido e ele a dominará” (Gn 3:16). Deixando de lado os aspectos específicos da religiosidade implicada na citação, o peso dessa ordem açoitou as costas da sociedade feminina durante muitos séculos e mesmo nos dias atuais não é raro ver um marido se impor sobre a sua esposa como se esta não pertencesse a si mesma, mas pertencesse unicamente a ele.

Se na velha conformação social a mulher solteira era destituída de identidade, casada isso não mudava. Sua identidade era apenas a de esposa de seu senhor. Era uma mulher sem voz, sem desejos, sem atos deliberados, e, sim, sempre atos cerceados pelo desejo, pela vontade, pelo agrado do marido. A esposa deveria zelar pela honra e bom nome de seu senhor. Para o marido de antigamente dizer que isso ou aquilo “não vai bem com uma senhora casada”, como disse o marido da crônica de Drummond, era um lugar-comum.

A crônica é uma fotografia do cotidiano, cuja lente, o foco, o olhar do fotógrafo têm arte, têm literariedade. A crônica não é pura ficção. Não é pura inventividade. Seu flerte com o real é intenso, daí sua realidade ficcional ser tão tangível aos olhos de seu leitor e seu impacto ser mais imediato.

A confissão feita pelo marido em “Aquele casal” monta o quadro de uma desconfiança que surge não pelos supostos indícios de que a esposa, Elsa, esteja traindo seu marido ou pelo menos propensa ao ato. O quadro que ali notamos é a pintura de um homem que se vê sem as rédeas de sua esposa, sem o controle remoto que pausaria a, como ele bem disse, “evolução” de Elsa.

O marido descrito na crônica, não é outro, senão esse velho homem que espera que o desejo de sua esposa seja para ele. Aquele homem que é dono, senhor de sua esposa. A esposa lhe pertence.

“Minha mulher jamais se permitiu a esses desfrutes”, disse ele. Mas quais desfrutes? O de seguir a moda? O desfrute de evoluir?

O incômodo do marido é o incômodo do “homem tradicional” vivendo no mundo contemporâneo a nós: este até compra novos objetos, acessórios modernos, conforme a moda e as tecnologias disponibilizam, mas não lida bem com suas atualizações. Compra para ter o que comprou do jeito que comprou. Casa-se para ter a esposa com quem casou do jeito que ela era quando casou.

O marido queixava-se de Elsa por ela não ser mais a mesma Elsa, por ela não ser mais o seu bem matrimonial, o seu objeto pessoal. Ela ao contrário do marido, evoluiu. Não mais coisa. Não mais objeto de seu homem, mas uma senhora. Uma mulher que se via diante do espelho enquanto mulher.

A mulher demolindo tabus
Se “a Elsa não é mais a Elsa”, é porque a mulher não é mais a mulher. Logo, o casamento não é mais o casamento.

Tardia ou não, a mudança de Elsa, descrita na crônica, parece um retrato da mudança da própria mulher. Se a Elsa já não é mais aquela Elsa, a mulher de nossos dias também já não é mais a mulher de outrora. A evolução de Elsa que tanto incomoda o seu marido, mudança que ocorre na velhice, após tantos anos com tudo correndo conforme o esperado, ao menos na aparência, é o retrato da transformação da mulher do século XIX na mulher do século XX. E por que não dizer XXI?

Ler Elsa, a esposa idosa que desabrocha na velhice, após anos de casada, como o símbolo da mulher que após séculos calada e parada falou e se moveu não seria um exagero. “Elsa anda um pouco estranha”. O choque, o espanto, a desconfiança, o estranhamento do marido surge diante dessa nova Elsa, que evoluiu (ou que pelo menos a partir de então se mostrou assim), que se incorporou ao tempo em que vive rompendo com paradigmas conservados pelo seu marido.

Ali Elsa se encontra na posição da mulher moderna frente ao arquétipo falocrático que a submetia à margem da sociedade e que durante séculos a manteve à sombra de seu homem e senhor. O que com o advento do movimento feminista começou a ser transformado. A recolocação social da mulher trouxe desestabilização para o homem, que precisou rever também a sua posição na sociedade já a partir da família.

Isso porque o casamento também sofreu grandes mudanças. Se a mulher moderna, já não era mais a mulher tradicional, que papel cumpria ao homem assumir? Quais as implicações dessa nova configuração?

A mulher não mais aceitando os grilhões do casamento tradicional passou a exigir certa liberdade. Passou a exprimir seus desejos, ainda que inicialmente não fossem eles satisfeitos. Essa mulher reconfigurada vestia-se ao próprio agrado, buscava sua própria elegância, ficou mais leve, jovial, sentava-se à sua maneira.

É bem verdade que a liberdade permite que se trilhe por caminhos perigosos ou mesmo tortuosos, sem virtude. Alguns caminhos que não se deveria trilhar. Mas essa não é a questão aqui. E se fosse, o homem também não fez (e continua a fazer) mal uso de sua liberdade?

Elsa é aquela mulher que ao seu modo, sem grandes revoluções, mas com evolução, modificou-se ao passar do tempo, deixando para trás a tradição da submissão ao macho dominante que seu marido representa e buscando seu modo ser mulher.

Sem se dar conta o marido parece narrar o fato de que finalmente sua esposa libertou-se de algum papel que talvez não se agradasse de interpretar. O marido parece narrar que sua esposa finalmente se achou em cena. Ao dizer que Elsa não é mais a Elsa, o marido parece se enganar. Agora Elsa é Elsa.

Sexualidade feminina na nova velhice
“A mulher casada desabrochou, não é mais um projeto, pode revelar melhor o encanto natural da personalidade”, disse o anônimo amigo do anônimo esposo de Elsa em defesa desta. O impacto dessa afirmação nada tem de superficial. Tal desabrochar implica em feminilidade, em sexualidade ativa, revelada.

A mulher não é mais um projeto. Ela não é mais um plano, articulado, idealizado. Nenhum projeto é projeto de si mesmo, mas projeto de outro. É totalmente possível que se faça projetos para si, mas projetar-se, não é. Projeta-se o outro ou algo no outro. Elsa era projeto de mulher. Um projeto daquela mulher subserviente que vivia para gozo e honra de seu marido, mas desabrochou.

O desabrochar de Elsa, na altura de seus 79 anos, revela o potencial feminino contido na mulher velha. A velhice não é o ponto final da sexualidade. ALMEIDA e LOURENÇO afirmam que “ao contrário do que se pode pensar, a velhice é uma idade tão frutífera como qualquer outra no que se refere à vivência do amor e à questão da prática da sexualidade” (2008, p.131). Sexualidade que não necessariamente está na dependência da genitalidade. A sexualidade também é manifesta em sentimentos e atos simples. Ainda segundo os autores, “as demonstrações de carinho e afeto, como beijos, abraços, olhares, cumplicidade, companheirismo, podem e devem ser vivenciadas num relacionamento entre pessoas maduras”. Talvez Elsa esperasse essas demonstrações de carinho e afeito de seu esposo. Quem sabe o amigo de seu marido não estivesse certo ao dizer “vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina, e disse aquilo só para fazer charminho”.

“Para fazer charminho” pode ser uma síntese analítica dos atos de Elsa. Atos que não passariam de uma tentativa de fazer com que o marido a olhasse, a visse como a vira um dia e quem sabe retomasse o carinho, a afeição dos primeiros anos de relacionamento.

É fato que ele a olhou e a viu. Por isso afirmou que “Elsa parece uma menina de quinze anos. Ficou com os movimentos mais leves, um ar desembaraçado que ela não tinha, e que não vai bem com uma senhora casada”. Este “não vai bem com uma senhora casada” penalizou Elsa com o insucesso, mas a história desses dois está em aberto. Não sabemos o que dali por diante ocorreu. Mas outra vez Elsa oferece um modelo a ser seguido pela mulher de nossos dias.

Elsa, em seus 79, não desistiu de ser feminina, não abriu mão de sua vaidade. Fato que incomodou seu esposo, ao que parece, bastante conservador. Elsa representa as senhoras casadas (e não casadas) dos séculos XX e XXI que mesmo em idade avançada não deixaram de se perceber enquanto mulheres. Deixaram para trás o estereótipo da mulher envelhecida, debilitada e útil ao auxílio dos cuidados dos netos.

A velhice feminina de nossos dias abriga senhoras que sorriem, caminham, cantam, dançam, se arrumam para si e para seus homens. A velhice de nossos dias já não é, como alguns ainda parecem crer, o ponto de ônibus no qual se aguarda sentado a chegada da condução que levará o idoso ao túmulo.

Há diversas evidências de que a velha de hoje já não é mais a velha de ontem. “Repare no encadeamento: os vestidos modernos; os modos”. Observe a leveza dos movimentos e o desembaraço. As senhoras parecem mesmo ter o espírito de meninas de 15 anos de idade, mesmo aos 79. É que a mulher que um dia já foi coisa possuída, evoluiu, achou-se mulher e amadureceu desabrochou e realçou ainda mais essa mulher “por uma graça experiente”.

De modo algum Elsa se encaixa no modelo das tristes “vovozinhas”. Ela tem alma. Ela sonha, suspira. Não atoa “demora mais tempo no espelho. Fica olhando um ponto no espaço, abstrata. Depois, sorri”. Quem sabe ela esteja a sonhar com um carinho de seu velho marido. Mas o fato é que a velha Elsa sorri.

CONSIDERAÇÕES
Tendo em vista “Aquele casal”, foi possível refletir sobre diversos aspectos que enquadram condição social da mulher, com ênfase em relação ao casamento. Já que a história da mulher na configuração tradicional da família é marcada por uma série daquilo que hoje considera-se injustiça.

Ao olhar para “Aquele casal” vemos um reflexo de uma sociedade machista dominadora que busca enquadrar a mulher em modelos considerados aceitáveis não apenas pelo social, mas, sobretudo, pelo homem. Apesar disso, enxergamos uma Elsa que mostra a capacidade e evolução feminina. Evolução que causa estranhamento e desestabiliza o marido, o homem. Também a crônica revela que a sexualidade não é algo que diga respeito apenas aos jovens, mas que mesmo na velhice ela é manifesta.

Tendo um final em que a história do casal não termina parece que o que o autor nos apresenta mesmo são interrogações: Aonde vai dar essa história? Aonde chegarão Elsa e seu marido? Qual o lugar do marido e da mulher daqui por diante? Como estará a relação homem e mulher amanhã? Drummond não nos disse.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, C. D.de. “Aquele casal” in Crônicas na sala de aula. Itaú Cultural, São Paulo-SP, 2007, p. 41.
BIBLIA. Português. Bíblia sagrada – Nova Versão Internacional. Sociedade Bíblica Internacional. Editora
Fôlego Ltda. São Caetano do Sul-SP, 2007.
CANEZIN, C. C. “A mulher e o casamento: da submissão à emancipação”. In Revista Jurídica Cesumar – v.4, n.
1 – 2004. Disponível em: < http://cesumar.br/pesquisa/periodicos/index.php/revjuridica/article/view/368/431 >.
Acessado em: Julho de 2013
RODRIGUES, A. “As novas formas de organização familiar: um olhar histórico e psicanalítico”. In Estudos
feministas. 2005. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ref/v13n2/26896.pdf >. Acessado em: Julho de
2013.
ALMEIDA, T. de; LOURENÇO, M. L. “Amor e sexualidade na velhice: direito nem sempre respeitado”.
RBCEH, Passo Fundo, v. 5, n. 1, p. 130-140, jan./jun. 2008. Disponível em:
<http://www.upf.br/seer/index.php/rbceh/article/view/104/187> Acessado em: Julho de 2013.
Elton Carvalhal
Enviado por Elton Carvalhal em 01/12/2013
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Sobre o autor
Elton Carvalhal
Aracaju - Sergipe - Brasil, 31 anos
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