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Notas de leitura - 3


Do criador e do seu trabalho

O criador nunca é o melhor analista do seu trabalho. Consciente ou inconscientemente, é, via de regra, maternalmente benevolente. E entende-se, sem esforço. No momento em que o executa e no período de graça que lhe é subsequente, o criador não tem nem pode ter a distanciação que lhe permita, sem emoção nem afectividade, analisar criticamente o seu trabalho, o que vale dizer, sem reclamar a sua condição de criador.
Por quanto antecede, o criador fica, nesse período de graça, tão vulnerável e sensível, que não resistirá, sem desgosto, a uma crítica que não seja agradável. É a situação da mãe perante os seus meninos, que são lindos, lindos… ainda que o não sejam. Qualquer criador, independentemente da sua idade e da sua maturidade, é, nesse período de graça, um adorável adolescente. E ainda bem! Ao crítico eu apelo para que atente na situação e não perturbe nem magoe o criador em idade adolescente. Não lhe peço que minta, porque mentir é feio; mas que seja tolerante e aguarde que passe o período de graça. Se assim for, o criador agradecerá, pois, entretanto, também já terá reparado no seu trabalho e visto que era ou não era assim tão belo quanto o supusera. O crítico e o leitor anónimo têm o dever de respeitar a fragilidade da inocência que preside a todo o acto criador. Olhar um trabalho recém-executado requer o mesmo carinho e a mesma contemplação que uma criança abrindo os olhos para a vida, pela primeira vez. Porque o seu olhar está vestido de inocência e de espanto e o mundo em derredor, que vai acolher a criança, é o desconhecido acenando à promessa que chega, naturalmente indefesa, mas confiante.
Todos sabemos que, para um criador, nem sempre o seu melhor trabalho é o mais querido. Só o trabalho que tem do criador uma carga emocional avassaladora, que, passe o tempo que passar, esteja sempre palpitante e vivo como foi no acto  de criação, será o trabalho mais amado, mais perturbado e perturbador. E se não é o melhor, porventura se apresenta como o mais autêntico, por mais sentido.
A sensibilidade dos criadores é muito variável no que concerne à divulgação dos seus trabalhos. Uns se apresentam ousados, outros timidamente. E há, ainda, os criadores que os guardam tão ciosamente que parece terem pudor ou ciúme de que outros olhos os vejam.
Tudo decorre da nossa condição humana e tudo deve merecer uma atenção cuidada. Qualquer acto de criação se assemelha ao acto de parir. É um momento mágico, que nenhum malfeitor sem alma nem coração pode conspurcar com aleivosias ou grosserias ou indiferenças pétreas e obtusas.
Profetas da desgraça também houve sempre. Nem Homero ficou imune a Zoilo.
A História da Literatura está enublada de detractores e de profecias inconsequentes e porventura malévolas, quando não subterraneamente invejosas.
Oxalá esta nota de leitura  possa merecer a ponderação de quem a ler. Se assim for, terá alcançado o seu único objectivo – o amor e a paz no coração de todos.


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Setembro de 2003.




José Augusto de Carvalho
Enviado por José Augusto de Carvalho em 01/09/2005
Código do texto: T46875
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Sobre o autor
José Augusto de Carvalho
Portugal, 79 anos
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