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Sobre Malhação

Que a programação da televisão não é boa todos sabemos, e que a programação da Rede Globo, particularmente, é mais ainda alguns discutem. Creio que pelo quesito técnico que a Globo tem alguns se deixam seduzir e esquecem que o visual não importa mais que o conteúdo.

Bem, para muitos o visual é o que importa, mas falo para aqueles que são do outro lado dessa sociedade da imagem. Para aqueles que se ligam muito mais no visual, creio que seja bom ler outra opinião que não a sua, para ter o conhecimento da existência de outro lado das coisas.

O único programa que acompanho regularmente na televisão é Malhação. O programa é destinado a crianças, adolescentes e jovens em sua temática principal, mas é aberto a todos da família. É veiculado normalmente entre 17h30 e 18h e tem em sua trama adolescentes em uma escola.

Mas algumas coisas são bastante interessantes de serem comentadas e refletidas, se pensarmos que esse é um programa de grande alcance e moldador de visões de mundo.

Creio ter dito que a qualidade técnica dos programas Globais são bastante agradáveis e esse quesito será devidamente ignorado aqui, pois comentarei sobre o roteiro do programa, sua estrutura narrativa e seus conceitos básicos.

Encaramos anualmente uma mudança nos personagens protagonistas e a manutenção ou não dos personagens secundários (escrevo “dos personagens” pois não consigo me acostumar com “das personagens” e creio que isso não interferirá na leitura de ninguém, já que “das personagens” é um preconceito contra o bom senso).

Uma das premissas básicas do programa é ser uma escada a novos artistas. Então reclamar da performance dos atores juvenis é ser por demais crítico com aprendizes, tento sempre repara na evolução destes ao longo do tempo em que ficam no ar, no espaço que é dado aos personagens e o desenvolvimento deles dentro do contexto disponível. Outra faceta das reclamações vem da parte das falas, em que relegam aos atores às falas dos personagens. E isso já é culpa de quem escreve o programa.

O roteiro de Malhação é tão esdrúxulo que chega a ser constrangedor em vários momentos. Sempre no começo de uma nova “temporada” o programa nos apresenta personagens determinados que vão participar da galera da comédia e os protagonistas que vão entrar nas armações dos “vilões” e as ações “heróicas” das pessoas do bem. Curioso notar que sempre há um casal que é separado por outro casal a fim de cada um ficar com o par do outro. O tema, par perfeito que se merece, está sempre em voga com uma previsão de nunca se modificar. Então temos um programa que sabemos o que vamos ver ao longo do período.

Essa previsibilidade do roteiro nos dá um descrédito no nível de sua qualidade. Mas vemos por aí escritores que trabalham com o óbvio e ainda sim saem-se tão bem que esquecemos que estamos vendo algo previsível e nos importamos em como a previsibilidade será lidada ao longo da obra. O que não é o caso do programa. Ele nos apresenta situações (as tensões) cujas soluções já antecipamos e vemos o desenrolar das ações correrem do jeito que imaginamos, pelo simples fato de que ano após ano elas se repetem sem muitas variações.

Outro erro do roteiro é não respeitar os personagens em suas essências. Se um personagem é bom ele poderá cometer erros, mas nunca maldades descabidas. Se alguém não tolera chantagens as aceita só porque isso fará uma determinada situação se desenrolar é algo puramente manipulado pelo roteiro sem o menor respeito a elaboração daquele personagem.

Mas digamos que o roteiro fosse altamente manipulador ao nível de trocar noções, convicções e ideologias dos personagens só para se adequarem ao roteiro, que o fizessem sempre ou então de forma eficaz. Mas mesmo assim há ainda falhas grotescas quando vemos personagens ter ações inconsistentes com um ritmo de pensamento que tem, tornando-as horas uma pessoa genial e outras uma verdadeira toupeira. O que é altamente influenciado pelo ritmo de vida que levam. Parece que acordam às oito da manhã, tem aulas das nove ao meio dia, com direito a intervalos e ainda ter o dia todo a viver. Sem contar com o espaço amostral da vida que vivem. Onde só existe um clube, uma clínica médica, uma escola, um bar-boate, etc. Parece que só o que interessa ao roteiro é deixá-los o mais junto possível para poder fazer suas manobras. E criar as situações mais ridículas do mundo.

O que é uma pena, já que se fosse um programa descompromissado com a realidade, ele poderia fazer suas loucuras que a coisa iria ficar reduzida ao nível da obra. Mas, infelizmente, ele é um programa que se preocupa com uma boa parte “educativa”. O que mais uma vez o roteiro falha. Já que ao incluir suas lições de moral e suas explicações nunca vê um problema dos dois lados, dos três lados e quantos lados tiver o tal problema abordado. Tendo uma visão altamente parcial da realidade que se passa fora do programa, transformando o mundo dentro do programa altamente improvável se ser comparado ao mundo real. E portanto suas lições não tem tanto impacto assim, deixando essa parte, a educacional, bem destituída de validade, o que baixa o nível do programa em sua intenção.

Começo então a perceber que essa elaboração do programa é de algum modo manipulada a criar uma realidade opcional na qual as pessoas iriam querer viver. Onde as pessoas se mobilizam com a maior naturalidade, onde o dinheiro nunca é problema, onde pessoas deixam lanches inteiros sobrando em mesas, nunca se preocupam com seu futuro, pois ele será determinado pelas mãos do Roteista.

A segunda causa da minha insatisfação do programa é sua estrutura narrativa. Ela não deixa espaços para o espectador fruir conjuntamente com a obra. Ela é fechada e lacrada a sete chaves e por isso mesmo nunca alguém se identificaria com algum personagem, mas sim com suas atitudes. Essas que podem ocorrem em qualquer personagem de um lado “bom” ou “mal” do grupo. Esses lados nunca prezam a inteligência para resolver nenhum problema. Os diálogos importantes são sempre deixados para o fim da “temporada” e em um passe de mágica tudo se resolve, e tudo é devidamente esquecido para o outro ano.

Narrando a vida de diversas pessoas elas se resumem aos interesses do programa. Deixando-os inertes do mundo real, onde pessoas discutem sobre coisas “normais” do seu dia a dia, programas de televisão, filmes, acontecimentos, impactos globais, livros que lêem, e demais características que as tornariam mais personagens humanas que simples peças em um jogo desenvolvido “as coxas” pela produção. O que falar de um grupo de crianças que acha um mapa que por ventura seria do “tesouro” e vão quebrar o chão de um estabelecimento à noite para achar o tal “tesouro” e quando entram em cena estão devidamente fantasiados com lanternas de mão, capacetes de pedreiros, e uniformes que em uma vida normal custariam o olho da cara, mas as simples crianças estão lá como que ridículas em ação. Esse tipo de incongruência nos é mostrado a toda hora. Essa opção de narração é devidamente cômica, se fosse algo afastado de uma realidade, ou devidamente inserido nela, mas não, isso só serve de maneira a não se justificar de qualquer forma.

Enfim, o programa peca em seus conceitos básicos. Seriam eles o educativo e o de entreter o espectador. Em seus dois níveis ele falha de modo grosseiro só restando saber como que ele faz tanto sucesso, já que é previsível, incongruente e altamente não justificável.

Adendo:

Como não considerar que no universo de Malhação a teoria das improbabilidades funciona à toda? Acontecem séries de atos e ações altamente improváveis em uma vida real, e mesmo no mundo proposto para nós. As situações desenvolvidas só aconteceriam se o rumo das coisas fosse aquele único e só aquele. O que é mais difícil de acontecer do que ganhar na mega sena. E olha que ninguém nunca ganhou na mega cena dentro do programa.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 09/09/2005
Código do texto: T49015
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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3 e-livros (430 leituras)
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leandroDiniz