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O LADO MALÉFICO DO FAMIGERADO JEITINHO BRASILEIRO


                         

         O LADO MALÉFICO DO JEITINHO BRASILEIRO


     O cidadão chega em um Banco, e usa das suas prerrogativas de ser um grande depositário para passar a frente de todos na fila, ainda sai se vangloriando de sua esperteza.  O outro paga uma propina para o guarda de trânsito para livrar-se de uma infração, este por sua vez, aceita o dinheiro porque “neste país todo mundo é desonesto, “por que só eu vou ser diferente?”; o eleitor vota em quem lhe oferecer qualquer vantagem pessoal , sem utilizar-se de qualquer avaliação séria ou critérios rígidos de escolha porque “todo político é corrupto e tanto faz escolher um ou outro mesmo”, deixando satisfeito o político ladrão que acha excelente tal idéia de que todos são iguais e  quer que todos pensem assim para que ele não corra o risco de ser punido e se perpetue no cargo, não ocorrendo com mais constância a alternância de poder.

     Há ainda aquele que consegue o emprego, não por merecimento ou concurso, mais porque é parente ou apadrinhado do político tal; este despreza o outro que teria muito mais competência para exercer a função, mas não comunga com suas idéias ou prática política, prejudicando a administração pública.

     A solenidade ou a reunião para discutir assuntos de interesses coletivos foi marcada para as oito horas, mas os poucos participantes chegam com uma hora de atraso porque todos sabem que nunca  começa no horário estabelecido. O Dr: fulano de tal que atende no hospital público exige que o seu patrão, que é o  povo, o referencie e nunca reclame do seu atraso ou do mau atendimento porque ele é Dr: e esses devem ser tratados de forma diferenciada. O vereador daquele povoado quer que todos o bajulem e nunca reclame da sua atuação, como se ele não fosse empregado destes mesmos indivíduos, tendo inclusive, os melhores salários da nação.

    O engravatado de colarinho branco que exerce cargo público, ver com normalidade o desvio (roubo mesmo) do dinheiro público porque os poderosos nunca são punidos e nem vão para cadeia. O jovem rebelde destrói o orelhão ou quebra o banco da praça, exercitando uma revolta contra o sistema, e sai todo orgulhoso de sua ação, sem saber o idiota, que quem vai pagar o concerto do que ele acabou de destruir é ele mesmo, seus amigos,  familiares e toda a Nação com o dinheiro dos insuportáveis impostos que todos nós pagamos.

     O prefeito administra o município como se fosse sua própria casa, por que ele foi eleito, gastou milhões e precisa do retorno, tratando todos como seus empregados e achando-se no direito de humilhar, luxuriar, esbanjar, exigir favores sexuais e outras esculhambações a mais. O comerciante sonega os impostos porque argumenta que o retorno desses em serviços e obras públicas, como: segurança, educação, saúde, infra-estrutura etc, deixa muito a desejar por parte dos governos; estes não aplicam o dinheiro de forma honesta e justa porque ninguém cobra nada mesmo, e muitos acham até bonito o famigerado “rouba mais faz”.

     Esta nossa flexibilização moral, é que desmoraliza a ética  e causa todo o nosso atraso social, nosso fracasso atual como sociedade, onde a corrupção é praticada numa freqüência tão corriqueira que termina contaminando as novas gerações. Começa com a cultura do lado mais perverso do famigerado “jeitinho brasileiro”, que admira o salafrário que se locupleta com o erário público, até o malandro que passa a perna em todo mundo para subir na vida, ou que vive como “marajá”, sem trabalhar e muitas vezes é admirado; e termina na cultura que valoriza o “levar vantagem em tudo” descambando para conivência com os grandes corruptos, e estes terminam servindo de espelho para a sociedade, por que se “deram bem” na vida e enriqueceram.

     Por isso que um país rico por natureza como este, que teria todas as condições de ser uma nação desenvolvida e socialmente equilibrada, se encontra numa desigualdade tão gritante; com uma quantidade de miseráveis inaceitáveis, possui um sistema de saúde, educação, segurança, tão precários que nos deixam atrás de alguns dos países mais pobres do mundo. O pior é que a maioria não  percebe o lado maléfico do famoso “jeitinho brasileiro” que termina prejudicando a sociedade e o País como um todo. Precisamos educar as novas gerações para poder acabar com essa vangloriada esperteza que termina sendo uma grande burrice.

     O grande escritor baiano, João Ubaldo Ribeiro, escreveu recentemente um brilhante artigo que fala justamente da corrupção endêmica do brasileiro, desde as classes populares até a elite dirigente, que deveria representar o espelho para uma boa conduta ética, a referencia, e, infelizmente se comporta exatamente ao contrário, na sua grande maioria. Ele argumenta, usando uma metáfora, que o problema está na matéria-prima do qual resultamos que é de má qualidade, provocando uma grande polêmica nacional.

     Mesmo reconhecendo que existem muitos brasileiros que procuram viver de maneira digna, pagando seus impostos e trabalhando com dedicação, concordo com a argumentação do escritor, autor da prestigiada obra “Viva o Povo Brasileiro”, um conhecedor da nossa formação sociológica. Nestes tempos de corrupção generalizada, “mensalão” e outras espertezas infames, é importante uma sacudida como esta na nossa racionalidade, despertando para um debate profundo sobre nossa verdadeira índole, sobre a identidade dos brasileiros.

     Não que a desonestidade seja uma exclusividade nacional, afinal, em qualquer lugar do planeta onde existem seres humanos, a corrupção esta presente. O que se ressalta aqui em nosso país, é o nível que este câncer atingiu nosso tecido social. Quantos de nós já atravessamos uma fila, subornamos um guarda, ficamos indevidamente com o troco do outro, recorremos ao poder público sem precisão, tirando a vaga do mais necessitado. Fazemos os mais inimagináveis cambalachos para levar vantagem e ainda temos o péssimo costume de jogar a culpa no outro ou nos governantes.

     Numa pesquisa feita em todo o território nacional, a imensa maioria dos brasileiros, os mesmos que esbravejam em xingamentos contra os maus políticos, a morosidade da justiça, o suborno, a bandidagem e outras mazelas da nossa sociedade; são os mesmos que confessaram que se fossem homens públicos empregavam os parentes, usufruíam privilégios inaceitáveis, os mesmos que compram produtos piratas, que sonegam impostos, que admiram os filhos que colam nas escolas, que acham normal seu time ganhar com gol visivelmente roubado, etc, etc. afinal, tudo isso é ou não é corrupção? Claro que o sujeito que rouba do amigo num jogo ou numa brincadeira, não provoca o mesmo malefício do que o político ladrão que rouba todo o dinheiro para a construção de uma creche.
     
     Só se começa a curar um paciente, a partir do momento que ele reconhece que esta doente e se predispõe a passar pelo tratamento. Todos nós que temos o vírus da corrupção em nosso sangue, devemos nos conscientizar da necessidade de mata-lo; se não, pelo menos mantê-lo sobre controle vigiando uns aos outros e sendo intolerantes diante dos deslizes que prejudicam a sociedade como um todo. Esta, deve estar sempre atenta através da punição exemplar, do combate a impunidade com leis rígidas sendo cumpridas; exigindo dos nossos representantes o exemplo, priorizando um comportamento mais ético e mudando nossa própria maneira de se comportar perante os outros.

     Evite dar voz aquela ladainha insuportável dos ladrões incorrigíveis que diz: “não tem jeito, todo mundo é assim”, porque é isso que querem os canalhas que não estão nem aí  para com o futuro da nação e das nossas crianças.
MANDINHO
Enviado por MANDINHO em 18/05/2007
Código do texto: T491286
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Sobre o autor
MANDINHO
Barra do Mendes - Bahia - Brasil, 51 anos
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