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POESIA: INSTRUMENTO DE JUSTIÇA SOCIAL

A nação brasileira precisa muito de certames literários.

É necessário que se faça a recolha da contemporaneidade, nos atos e fatos, na versão de quem os rumina, e por vezes recria a história. Porque esta – que a corrente purista deseja mero relato sobre os fatos – é, nada mais, nada menos, do que a versão do autor sobre acontecimentos, quer na prosa ou em poética. É mera questão de ferramental vernacular próprio e de talento vário e adequado.

Nada do que é proveniente da criação humana é isento de subjetividade. Sempre há algo de pessoalizado no que se escreve. O espírito do autor se enreda nos relatos...

O Prêmio Lila Ripoll de Poesia, promovido pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, se justifica plenamente.

Primeiro porque o Brasil de mais de 500 anos iniciou a recolha do produto de sua intelectualidade muito antes do Rio Grande, província meridional esquecida, meio lusa, meio espanhola, por desídia do Poder Imperial.

Os moços do Parthenon Litterario – sumarentos de Pátria – começaram a gesta da recoluta espiritual em 1868, na capital do Rio Grande e nas principais cidades. Tropearam o que havia: tradição oral. Em Pelotas, o talento fomentador e divulgador de idéias associativas do grupo era Francisco Lobo da Costa, o poeta.

Assim, a comemoração dos 100 anos da ardorosa poeta nascida em Quaraí, na Fronteira Oeste, das bandas limítrofes com os irmãos argentinos, é fato auspicioso para uma nação jovem, que tem a média anual de leitura de 3,8 livros/ habitante/ano.

O RS lê quase duas vezes a média nacional. Mas poucos releem o Rio Grande e a si próprios. A globalização se encarrega de lavar o pouco que se tem de memória local.

Segundo porque a homenageada é mulher, e estas só tiveram voz e vez a partir de 1934, no período getulista, com o sufrágio universal.

Terceiro porque Lila Ripoll não foi uma mulher comum, militou no idealismo socialista, na denodada luta por uma sociedade sem classes, que é, sob certa visão, uma forma de fazer poesia em tempos de dinheiros e cóleras.

E a sua Poesia surge como alquebrada combatente em nome da tentativa de transformações sociais.

O que sobra para o "condenado a pensar", a não ser recriar o mundo que lhe é hostil? Por isso, o poeta é sempre libertário, amoroso em nome da Liberdade.

Lila, viva pela imortalidade através do verso, continua gritando permanentemente contra as balas da globalização e do subdesenvolvimento. Mas, para que o grito ecoe, é preciso que todos cumpram o seu papel.

A velha Casa Legislativa do Rio Grande de São Pedro cumpre a sua parte. Objetiva-se premiar aqueles que afinam o verso com a Liberdade e com o Amor.

O gume da palavra sempre foi a Liberdade.

E isto ocorre desde o canto trágico dos gregos, passando pelo trovador medieval acompanhado pelo som do alaúde (o primitivo violão) fuxicando, de reino a reino, as diatribes das Cortes. Dificilmente a plebe, que mandava nada e só servia pra engrossar fileiras nas hostes guerreiras, e nem gerava notícias. Também por analfabeta e por proteção pessoal, tinha ouvidos moucos. Falar significava o calabouço ou a fogueira...

Durante séculos de dominação mourisca, na velha Europa, incêndios vivos nas praças públicas desafiavam fundamentalistas mouros e a própria Santa Inquisição.

O gládio da eterna Poesia é instrumento de Justiça Social. Porque ao Poder não interessa que pensemos.

Lila Ripoll, poeta-mulher, acreditava nisto.

– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2006/2009.
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/51023
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 16/09/2005
Reeditado em 29/01/2009
Código do texto: T51023
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709746 leituras)
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Joaquim Moncks