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A arte da cara-de-pau (POLÍTICA)

Há anos que venho observando como certas pessoas atingem o estrelato na política. Como, tempos depois, passam a ter tantos bens, tantas propriedades, tanta ostentação, tanto cacife para interferirem, diretamente, em nossas vidas e nós sem podermos fazer nada. Mas será que não podemos, mesmo, nada fazer? Devemos ficar parados, gente sem voz, passivos, meros números de votos que autorizam alguém a discursar e roubar em nossos nomes?
Li, aqui mesmo, num texto do Cecílio, que “a corrupção não nasce federal. Ela começa em casa. No município...” Hoje, tenho plena consciência que a corrupção começa mesmo em nossas casas, nos nossos quintais, com nossos filhos, primos, amigos de infância, gente com quem convivemos em tempos de vacas magras e que, hoje, se deliciam de nacos suculentos de verbas, das constantes viagens e aquilo que vem em forma de propinas, favores, doações, do poder político que lhes outorgamos.
Temos que entender que político nenhum nasce desonesto.É um fato. Ele evolui para a desonestidade, assim que sobe de cargo, ou assume seu primeiro cargo político. Todos defendem a honestidade, a honradez (palavra que não integra boa parte do vocabulário de políticos conhecidos nossos), a vergonha, a mesa farta para os que têm fome, escola para os iletrados, saúde para os doentes, água para os sujos e luz e calor para os que têm frio e vivem na escuridão.
Como, então, eles, vereadores, secretários municipais, presidentes de Câmaras Municipais, deputados estaduais, prefeitos, deputados federais, secretários de estado, ministros, senadores e presidentes da República chegam até o poder e como lá conseguem se manter? Primeiramente, porque tiveram nosso ouvido para escutarmos os planos e propostas iniciais que proferiram. Depois, porque os ajudamos com trabalho e votos em suas campanhas iniciais. Em seguida, porque não cobramos, deles, nossos escolhidos e eleitos, uma postura séria e firme na defesa do que haviam proposto a nós, à sociedade. Mais adiante, porque concordamos em dar-lhes outro voto e mais outro e mais outro... E assim, eles acabam permanecendo em evidência e prosperando pessoalmente com tanta corrupção que promovem. Tudo sob nossa mais absoluta complacência e, pasmem, conivência.
Hoje, aos vermos tantas denúncias contra membros do Partido dos Trabalhadores e outros partidos, nos indignamos. Mas, quantos de nós, com estrelinhas no peito, com bandeiras vermelhas, idealismo, não fizemos de tudo para colocarmos os escolhidos lá, em Brasília, aqui, nos vários postos da administração pública? Lá, com malas, pacotes, contas, dinheirama vinda de “propinodutos”, contas abastadas no exterior?
Será que não nos lembramos de que aquele colega de profissão, um professor, um advogado, um engenheiro, um jornalista, um médico, um líder sindical, um bancário, um estudante, todos eles caminhavam pelas mesmas calçadas que nós e, depois de ganharem nossa confiança, mudaram de rua, se afastaram por conta dos votos que lhes demos e que, agora, estão aí, impunes e imunes a serem descobertos e punidos pelo que de horrível e desonesto fizeram e continuam fazendo?
São tantas as perguntas e tão poucas respostas que nos dão que fica, aqui, parecendo que somos “madalenas-arrependidas” por não termos aproveitado a “boquinha gulosa nas tetas do poder”. Nas poucas vezes em que pude trabalhar com políticos – alguns famosos, ricos e poderosos por este Brasil afora, ficava assustado como eles conseguiam defender um ataque à corrupção e como, por trás, nos bastidores, na vida real da nossa política, faziam exatamente o mesmo que condenavam nos discursos. Lógico que numa escala não tão assustadora como a que o PT nos presenteia agora, mas não passível de condenação e repúdio.
Lembro-me de ter ouvido alguém reclamar de que tinha que fazer um cheque para devolver parte do seu salário para fulano. Disse devolver parte do salário. Isto, prezados leitores, não acontece apenas lá longe, em Brasília, onde pude morar e trabalhar. Acontece aí, na sua rua, naquele gabinete de quem era humilde e que hoje quer, a todo custo, atingir outros postos na hierarquia política brasileira. Onde ele começou? Você deve se perguntar: de quem podemos estar falando? Não sei. Sou apenas um ser criativo e provocador, mas um cidadão indignado. Você sabe e, com certeza, saberá escolher melhor em quem vai votar nas futuras eleições, em outubro do ano que vem. Antes, porém, veja bem em quem você votou sempre. Será que ele merece seu voto? Ou, mais uma vez vai deixar que alguém, no seu quintal, mate suas esperanças e o transforme em conivente com tanta safadeza? O debate está aberto.


(*) Rogério Viana é jornalista em Curitiba


Rogério Viana
Enviado por Rogério Viana em 19/09/2005
Reeditado em 19/09/2005
Código do texto: T51768
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Sobre o autor
Rogério Viana
Curitiba - Paraná - Brasil, 68 anos
190 textos (43283 leituras)
2 e-livros (8648 leituras)
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Rogério Viana