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Temer a morte

    O que são nossas verdades? E o que é a morte? Na verdade eu não sei nenhuma das respostas, mas tenho a minha verdade. E ela é o que sei; portanto, aplica-se primeiro a mim, depois a quem achar que é realmente uma verdade. As verdades jamais são absolutas conquanto se moldem conforme nossas diretrizes. Nossos sonhos – ainda que sonhos – são a expressão do que nos vai no coração e na mente... Quanto ao corpo, ele age como um espelho da mente, refletindo em suas funções cada um de nossos medos e anseios. Se a mente adoece, o corpo adoece e se deteriora, porque perde o equilíbrio; por outro lado, pode rejuvenescer diante de uma mente clara e lúcida. Mas o que é a lucidez? De novo o equilíbrio. A lucidez é apenas uma linha a separar as metades conflitantes de nossa mente. Se elas se misturam... problemas à vista (e à prazo). Mas se, pelo contrário, mantemos o equilíbrio, podemos fazer escolhas; podemos respirar “vida” ou “morte”, dependendo apenas da diretriz que assumirmos. O que nos norteia é aquilo que nossas mentes projetam. De certa forma pode-se dizer que toda e qualquer realização depende primeiramente da materialização do que nos venha à mente... O sucesso de muitos, em qualquer campo, parece estar intrinsecamente ligado a esta “materialização”, ao passo que outros são fadados ao fracasso, porque nossos fantasmas são também materializações de nossos medos mais secretos. Se não tememos, não materializamos... E assim podemos afastar o infortúnio de nossas vidas apenas porque não o tememos ou cremos nele. A vida deve ser vivida a cada dia, a cada passo. E viver implica em ter atitude, porque a ação só se dá após a atitude mental positiva. É usar a força no sentido em que mais produza trabalho, materializando os nossos anseios construtivos... e exorcizando os medos negativistas.
De todos os temores que o ser humano enfrenta talvez o pior seja a morte, porque vivemos dia após dia em contato com possibilidades catastróficas, das mais variadas. Tudo é possível, até o inevitável! A morte é também uma possibilidade, tanto quanto é inevitável. E encarar esta possibilidade e sua inevitabilidade é, em última análise, uma tarefa relativamente simples para uma mente lúcida e equilibrada. É algo de que não podemos fugir apenas porque não aceitamos. Aceitar o inevitável é como saber cair – uma prática muito comum em esportes onde a queda é uma possibilidade. Ninguém deseja sofrer uma queda, mas é muito difícil devolver o equilíbrio a um corpo sujeito a uma lei maior - a gravidade. Assim raciocinamos: Cairemos. É um fato? Sim. Poderia ser evitado?  Antes, talvez sim, mas agora não. Conclusão: estamos caindo...  E já que o fato em si não pode ser mudado, saibamos como cair: Caiamos de um modo que soframos danos menores, porque é bem mais fácil o reerguer depois, quando não há ossos quebrados, cortes e escoriações dolorosas. Conclui-se daí que tudo depende da diretriz que a mente assume diante dos fatos da vida. É novamente a materialização daquilo que a mente induz. O pensar bem leva ao viver bem! E o que é a vida senão uma seqüência de momentos, bons ou ruins, dos quais retiramos as experiências para vivenciarmos os novos momentos que virão? Viver é uma arte, mas é necessário se ter uma grande técnica para viver bem, ou muita prática. O exercício da vida é o que nos faz crer nela. Morrer é, assim, uma fatalidade – ou antes, uma inevitabilidade provável – e algo que deve ser encarado com uma naturalidade quase cruel. Até que se contrarie Shakespeare, em Hamlet, com provas contundentes, morrer é relativamente fácil. Difícil é reagirmos bem diante da morte dos outros, mas pensemos: A morte é apenas a ausência física de alguém com quem nos acostumamos a conviver. Viver implica em conviver, e com o passar do tempo, as “ausências” se intensificam, e se tornam, até certo ponto, normais. As pessoas com as quais convivemos hoje não são as mesmas de dez anos atrás, porque as pessoas se afastam por inúmeras razões, muitas vezes alheias às nossas ou suas vontades. E já que assim é, estas ausências deveriam parecer mortes, mas não o são e nem o parecem ser. A verdade é que sofremos mais diante da morte apenas porque nos incomoda a certeza de que a ausência é irreversível, e que jamais encurtaremos novamente esta distância que se abriu entre nós e quem esteve antes ao nosso lado.
O ser humano teme a morte e deixa muitas vezes de viver, por conta disso. Mas é preciso que se aprenda a viver, sem que a vida nos faça prisioneiros – sem “condicional” – de uma existência infeliz. As muitas razões para a vida são mais importantes que as poucas razões para a morte. Assim, não temamos a morte, porque temê-la é também temer a vida. Viver – insisto – é uma arte... Sejamos, pois, grandes mestres, aceitando tanto a vida quanto a “morte” com naturalidade. Não recomendo frieza de sentimentos, mas firmeza. É isso que nos diferencia dos eternos sofredores, escravos da “morte em vida, mesmo que não Severina”.
Viver implica em conviver, porque viver sozinho é uma estúpida inutilidade. Devemos sim, conviver, e aceitar com lucidez as ausências que a vida às vezes nos impõe. Aproveitarmos sempre os momentos, para que as presenças se façam sentir. E jamais ultrapassar o limite da saudade. Saudade sim, sofrimento nunca, porque são as presenças ao nosso lado que realmente dependem de nós... As ausências cabem à parte de nossas mentes e almas que cuida das memórias... e elas continuarão sendo uma realidade, uma possibilidade, muito mais do que gostaríamos. Lamentemos apenas se, por isso, deixarmos passar o trem da história, presos a um canto qualquer de uma estação.
Dia após dia! É assim que se vive e que se morre! E ainda assim é uma escolha que fazemos. E outras vezes é uma escolha que deixamos de fazer... e ainda assim sempre veremos alguém “cair” ao nosso lado, durante a batalha... É preciso seguir em frente, apesar disso, porque nos cabe a vida, e não a morte. “Deixar que os mortos enterrem seus mortos...” – ainda é uma expressão de difícil compreensão, mas é mais que um bom aviso. A morte só existe para quem não crê na vida, porque viver é estar cada vez mais sujeito à morte. Deixaremos de viver por isso? Nunca, porque ainda há sonhos a realizar, verdades a dizer... E acreditar na vida é acreditar nas presenças ao nosso redor, porque são os que ficam que contam. Vale a pena conviver com alguém, ainda que por dez minutos, se nesta convivência algo de útil puder ser construído. Sofremos pelos que amamos, quando se vão? Isso é normal, mas a pergunta é: Conviveríamos de novo, mesmo sabendo que os perderemos um dia? Mesmo sem saber quanto tempo isso duraria? Se a resposta for SIM – valeu a pena! E se a resposta for NÃO, para que lamentar então? Eis a graça da vida: ela tem sempre uma razão a mais!


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     Este texto foi escrito em 1995 e digitado em 2001. Curiosamente é o mesmo tema explorado por Ziraldo no livro editado em 2002 – vi isto em uma entrevista dele ao Jô Soares – com o sugestivo título: “Duas razões para não chorar!” Não li o livro, mas me inteirei do conteúdo através da entrevista emocionante: O autor explica à neta algumas coisas acerca da morte de sua esposa, com quem estivera casado por quase 50 anos. Soubesse eu que ele escrevia tal livro, teria mandado este texto como um presente ao grande ser humano que ele é. De alguma forma afinados, pensamos do mesmo modo, mas sabemos – ele e eu – quanto é difícil praticar as palavras que pregamos, ensinados que fomos em uma cultura de dor e sofrimento. Ainda assim, chorar pra quê?


Poeteiro
Enviado por Poeteiro em 16/10/2005
Reeditado em 16/10/2005
Código do texto: T60277
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Sobre o autor
Poeteiro
Santos Dumont - Minas Gerais - Brasil
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