Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Zezé Di Camargo e o Golpe Militar de 1964

O compositor Zezé Di Camargo, disse, recentemente, numa entrevista, que se considera politizado e que o Brasil não teve uma ditadura militar. Para ele, o país vivia um ''militarismo vigiado''. A realidade: Zezé demonstra total desconhecimento dos anos de chumbo. É claro que tem o direito de dizer que é politizado e o que pensa da ditadura. Mesmo que sua opinião demonstre alienação e uma visão distorcida dos fatos ocorridos.

A verdade, é preciso lembrar o que aconteceu há 53 anos, em 31 de março de 1964. Ou seja, quando um golpe civil-militar mergulhou o país numa terrível e implacável ditadura militar. Assim, é fundamental entender o que aconteceu de fato e a conjuntura histórica que levaram aos terríveis acontecimentos de outrora. É preciso, também, que ao resgatar a nossa memória histórica, social, política e cultural..., estamos compartilhando o nosso legado com as novas gerações. Mais, é necessário que a sociedade civil fique vigilante para que essa triste e terrível página de nossa história recente não volte acontecer.

Para o professor Caio Navarro de Toledo, ''O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado''. Na verdade, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, o vice-presidente João Goulart, ou Jango, do PTB, assumiu o governo. Era acusado de ser simpatizante da esquerda e sua posse era questionada por alguns segmentos da sociedade.

O que levou à destituição de Jango? A revolta dos marinheiros e sargentos da Aeronáutica, o discurso no Automóvel Clube do Brasil (RJ) e o comício na Central do Brasil, em 13 de março de 1964. Por outro lado, o historiador Daniel Aarão Reis diz que é inútil esconder a participação de amplos seguimentos da população que levou à instauração da ditadura em 1964. É como tapar o sol com a peneira. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade mobilizaram dezenas de pessoas, de todas as classes sociais, contra o governo João Goulart.

A 31 de março de 1964, Goulart é deposto pelos militares. O deputado Ranieri Mazzili assumiu interinamente o governo. Começou o golpe militar liderado por oficiais golpistas de alta patente ligados a Castelo Branco, que comandava o IV Exército sediado em Recife. Ele foi o líder do golpe militar. No imaginário dos militares e das elites, a tomada do poder acabaria com a corrupção, libertaria o país do comunismo e restituiria a democracia e a ordem. Em 15 de abril, de 1964, o general Castelo Branco é nomeado presidente da República pelo Congresso Nacional.

Outra coisa, os EUA tiveram participação fundamental no golpe contra Goulart. O cenário era o seguinte: vivíamos num mundo bipolar dividido entre EUA e União Soviética (URSS). Ou melhor, uma disputa ideológica entre os dois maiores vencedores da 2ª Guerra (1939-45), cujo objetivo era se estabelecer hegemonicamente em termos mundiais. Era o auge da Guerra Fria. Assim, o presidente estadunidense Lyndon Jhonson temia que Jango se aproximasse da URSS e transformasse o Brasil em Cuba, que havia sito tomada pelo revolucionário Fidel Castro em 1959. Para isso articulou o golpe com os militares brasileiros, por meio do embaixador Lincoln Gordon, e enviou o seu porta-aviões USS Forrestal como suporte ante algum eventual problema. Conforme o jornalista Elio Gaspari, autor de ''A Ditadura Envergonhada'', o seu destino era o porto de Santos.

TERROR E AUTORITARISMO
Como é sabido, cinco generais governaram o país durante 21 anos: Castelo Branco (1964-67), Costa e Silva (1967-69), Garrastazu Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79) e João Figueiredo (1979-85). Eles governaram utilizando os Atos Institucionais (AI). A dura verdade é que o novo regime assumiu sua face autoritária, ou seja, houve cerceamento da justiça e dos direitos dos cidadãos.

No poder, os militares adotaram um modelo de gestão do Estado baseado no terror, no autoritarismo, no banho de sangue e nas prisões arbitrárias. Foram cometidos inúmeros abusos e crimes em nome da Lei de Segurança Nacional. As liberdades e os direitos, que eram asseguradas pela Constituição de 1946, deixaram de existir por meio do AI-4 (1966). Por exemplo, o AI-5, de 1968, decretado por Costa e Silva, promoveu uma ampla concentração de poderes. E tem mais: fechou o Congresso Nacional, cassou políticos, suspendeu o Habeas Corpus e promoveu censura à imprensa. Houve, também, supressão das garantias individuais, violações, agressões, torturas, assassinatos, desaparecimento de pessoas e o fim do Estado de direito.

Desse modo, a nação mergulhou num enorme retrocesso constitucional no que se refere às liberdades e os direitos individuais. Apesar de toda a situação, a população não se calou... Goulart foi para o exílio no Uruguai. Assim, é fato incontestável que a ditadura promoveu, também, a maior concentração de riqueza em toda a história deste país. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais miseráveis. Lamentavelmente, declinamos na educação... Prova disso é que a qualidade da educação pública degringolou. Enfim, com a ditadura, o Brasil avançou rumo a um abissal retrocesso político, democrático e histórico....

IMPRENSA APOIA O GOLPE
Qualquer pessoa associa jornalismo com democracia. Dificilmente com ditadura. ''Com mais ou menos intensidade, a grande imprensa brasileira apoiou o golpe de 64'', diz o jornalista Oscar Pilagallo.

Entre os apoiadores do regime, boa parte da grande mídia - jornais ''O Globo'', ''Folha de S. Paulo'', ''Estado de Minas'' e ''O Estado de S. Paulo'' - empresariado, seguimentos das igrejas católica e evangélicas, membros da classe média e da elite, os governadores de São Paulo, da Guanabara e de Minas Gerais. Também é verdade que alguns jornais não apoiaram os militares. Alguns militares contrários ao golpismo tiveram suas carreiras destruídas. Mais ainda: camponeses, índios e quilombolas foram perseguidos, avidamente, pelo regime.

Oscar revela, ainda, que depois de um período de entusiasmo com o novo governo, os jornais –uns cedo, outros tarde- passaram a criticar a ditadura e tiveram papel importante na sua queda e na redemocratização do país.

O MILAGRE ECONÔMICO
Na gestão Médici, temos o chamado milagre econômico (1969-73). Foi um período de construção de grandes ''obras faraônicas''. Duas delas: a Ponte Rio-Niterói e a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Essas obras permitiram enormes desfalques de dinheiro público e o aumento considerável da dívida externa.  Devemos lembrar que ao tempo dos militares não havia prestação de contas à sociedade. O que se sabe ao certo é que tivemos incontáveis abusos e mal uso de dinheiro dos cofres públicos.

De outro lado, Médici manteve o AI-5 e perseguiu ferozmente os sindicatos... Ele usou e abusou da propaganda oficial – slogans como: ''Brasil – ame-o ou deixe-o'', ''Ninguém segura esse País'' e ''Esse é um país que vai pra frente'' - com uma dupla finalidade: ocultar a repressão e conquistar o apoio da população para a ditadura. Mais: em 1970, no México, o Brasil foi tricampeão mundial de futebol. Dessa forma, Médici usou a conquista como uma forma de minimizar opiniões contrárias ao sistema político vigente.

Para a psicanalista Maria Rita Kehl, o milagre econômico além de enriquecer ainda mais a burguesia, propiciou a expansão da classe média e elevou os padrões de consumo de muitas famílias: eletrodomésticos, um carro, o segundo carro, financiamentos da casa própria pelo Banco Nacional da Habitação. Mas, principalmente, o começo dos anos 70 marca o início da era da televisão no Brasil.

Não se pode esquecer, portanto, que o milagre econômico ocorreu ante a situação econômica internacional favorável. No entanto, quando chegou ao fim e a inflação veio, os militares perderam apoio. Segundo o cientista social José Murilo de Carvalho, o milagre econômico deixara a classe média satisfeita, disposta a fechar os olhos à perda dos direitos políticos. Os operários urbanos não perderam seus direitos sociais e ganharam alguns. Mas, uma vez desaparecido o milagre, quando a taxa de crescimento começou a decrescer, por volta de 1975, o crédito do regime esgotou-se rapidamente.

É verdade que o milagre promoveu o crescimento econômico, contudo beneficiou apenas uma minoria. A verdade veio à tona: Médici reconheceu o aumento da pobreza, apesar do crescimento econômico. O que parece certo é que neste período houve aumento escorchante da miséria e pobreza nos quatro cantos do país.

Pois bem, no governo de João Figueiredo, último da ditadura, o país mergulhou numa grave crise econômica. A inflação atingiu 223% ao ano e a dívida externa ultrapassou os US$ 100 bilhões. Diante da pressão popular, promoveu a reabertura política e a criação de vários partidos políticos.

REALISMO
Enviado por REALISMO em 14/09/2017
Reeditado em 14/09/2017
Código do texto: T6113564
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
REALISMO
São Paulo - São Paulo - Brasil
19 textos (415 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/09/17 15:28)