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O beijo

 

Coisa inexplicável é o beijo, especialmente aquele que é dado na boca da(o) parceira(o). Um idiota, Henry Gibbons, definiu-o como “justaposição anatômica dos músculos orbiculares de duas bocas em estado de contração”. Um para teorizar assim o beijo, por certo nunca deu/recebeu um “daqueles” beijos, de lábios entreabertos, sugado, babado, cheirado, gemido, com a língua enfiada quase nas amígdalas da outra pessoa, em que o casal muda a posição da cabeça, para nesse interlúdio, olhar um nos olhos do outro. O beijo é uma coisa tão fantástica, que para desenvolver-se um beijo de amor, é preciso usar os cinco sentidos: o tato, a visão, a audição, o olfato e a fala. Eu defino o beijo como “um ritual de amor”, onde um bebe o outro. No passado, os beijos eram mais frios, rituais, com os lábios duros, boca fechada, rápidos, coisa técnica. Depois surgiram os beijos mais “produzidos”. Os franceses, a partir do final de década de 50 tornaram público, através do cinema, o beijo não apenas dado na boca ou no rosto, mas algo mais ousado, colocado no corpo da(o) parceira(o), onde ela(e) solicitasse. O cancioneiro romântico, especialmente o latino, dá uma ênfase notável ao beijo: “Después que nos besamos, con el alma y con la vida, te fuíste por la noche, de aquella despedida...” (A. Manzanero, “Somos”, 1959). De uns tempos para cá, a televisão notabilizou o “selinho”, que é um beijinho rápido, boca fechada, mais ou menos formal, que alguns artistas (Hebe, Jô Soares, Galisteu, etc.) dão em seus convidados, de ambos os sexos. Isto sem esquecer o beijo (de língua) trocado por Madonna e Britney Spears, num clipe, que provocou um frisson nas massas. A cantora bivolt Cristina Aguilera, sintomaticamente nascida no Peru, disse que seu sonho é beijar Madonna, na boca. Na célebre obra (cinema e teatro) “O beijo no asfalto”, escrito em 1960, Nelson Rodrigues († 1980), conta a história de um homem moribundo, atropelado nas ruas do Rio, pede um beijo para o personagem Erandyr, criando a essência do drama. É de Bastos Tigre († 1957) a frase “O beijo é como uma confissão, que se segreda na boca e se escuta no coração”. Há dias, li, na Internet, uma enquete feita entre lobas solitárias (faixa dos 35 aos 45 anos) que o que mais sentem falta, mais do que o sexo, é o beijo na boca. Num desses chat de “procura”, algumas chegam a usar como nick name (apelido) o “adoro beijo na boca”. A gente fica imaginando, matutando, como diz o caboclo, que força, que troca de energia tem um beijo, em especial o dado na boca, para provocar toda essa ânsia e essa busca incontida do encontro de dois lábios. Talvez seja por causa dessa troca de energia que o beijo proporciona, que há o notável troca-troca entre artistas de televisão. Há tempos, zapeando o controle remoto, passei por uma novela, em que “a” beijava “b”. Diante do calor do beijo, eu disse: “Essa dupla vai acabar ‘acertando as pontas’ na vida real”. Alguém que estava por perto disse: “Não, é ‘beijo técnico’, eles estão acostumados, e além disto, cada um é casado com outra ”. Ao que eu redargüi: “Nessa intensidade não tem ‘beijo técnico’, é como diz a filósofa contemporânea Elke Maravilha: ‘o beijo é como ferro elétrico: liga em cima e aquece embaixo!’”. E não deu outra: quanto terminou a novela (O Clone) os dois anunciaram a quebra dos vínculos anteriores para tentar nova “aventura” (sim, porque a relação de artista, via-de-regra é aventuresca), a partir das fráguas daqueles beijos ardentes. Um beijo na boca torna-se uma coação moral e física, absoluta, pertinaz e irresistível. Para fechar, uma quadrinha, de um parnasiano, conhecido de vocês, que há mais de quarenta anos atrás disse que “nada fala neste mundo, tão bem de nossas vidas, que o silêncio profundo de duas bocas unidas”.



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63358
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
981 textos (321414 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão