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A coisa

 

Tudo ia bem, até que de repente a casa caiu. Ela descobriu que, depois de mais de vinte anos de casados, o marido tinha outra, inclusive com dois filhos. A primeira reação foi de rodar a baiana. Depois refletiu:  Se até aqui tudo foi tão bem, apesar da outra,  por que agora, brigar, separar... deixa como está.
O trânsito do marido entre a casa da família e da outra passou a ser algo normal. Num resquício mínimo de mágoa, ela negava-se a dizer o nome da rival, chamando-a de a Coisa. “Mamãe, pediu a filha: Posso passar o fim de semana com Paulinho na praia ?”  A mãe respondeu: “Ah! Minha filha, não sei! Espera teu pai voltar da casa da Coisa e pede para ele.”  Estabeleceram-se normas de convivência. Quando uma saia deixava os filhos na casa da outra;  quando uma viajava, a que ficava cuidava das violetas das duas. Os filhos da legítima, chamavam a outra de  a “tia Coisa” e os da Coisa, pela diferença de idade chamavam a legítima de “Vó”.  Com o passar do tempo, a esposa sugeriu que se estendesse um secundário do telefone para a casa da Coisa e, as duas se tornaram amigas, faziam confidências, aconselhavam-se, queixavam-se do marido,  trocavam receitas e remédios caseiros. Quando iam à feira, os pequenos pediam à Coisa: “Manhê, compra desse melão, que é o que a Vó gosta”.  Num aniversário a Vó fez uma toalha de crochê e mandou, de presente, à Coisa. Um dos filhos mais velhos da esposa, ia, às vezes, consertar a TV, para que a Coisa não ficasse sem a novela. Nas férias, ele alugava duas casas na praia: quinze dias com uma e quinze com a outra.  Um dia, o maridão precisou ser internado para repouso.  Quando deu alta, as duas notaram que semanalmente ele ia ao hospital, fazer sei-lá-o-quê.  Foram atrás e descobriram que ele andava se engraçando com a enfermeira que o atendera. As duas viraram bicho:  “Onde se viu,  cobiçar homem que tem dono?” Um amigo advertiu: “Cuidado, malandro, deixa disso! Quem tem duas, na hora do perigo fica sem nenhuma!” Dito e feito. O fulano adoeceu gravemente e, cada uma, por suas razões, empurrava a tarefa de cuidá-lo para a outra. E o cara morreu. Ai sim, a casa caiu, de vez.  Cada mulher reivindicou o direito de velar o presunto em sua casa. Não houve acordo. Um filho, mais sensato, propôs: “Vamos velá-lo em campo neutro, no cemitério, e pronto”. Cumpriu-se a profecia do amigo. Como nenhuma quis ir ao cemitério para dar de cara com a outra,  o marido acabou sepultado por estranhos.

 

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63367
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão