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A mão de Alá

 

Pensando já ter visto tudo, o mundo assistiu estupefato, há poucos dias, a fúria da natureza, representada pela devastação do furacão Katryna, que se abateu sobre a região sul dos Estados Unidos, Alabama, Louisiana e parte do Tennessee. As primeiras estatísticas dão conta de cerca de dez mil mortos, quatro mil desaparecidos, quinhentos mil desabrigados, mais de um milhão de casas destruídas, além de um incalculável prejuízo no comércio, nos portos, na agricultura, nos sistemas de água, luz e comunicação, tudo perfazendo um passivo de oitenta bilhões de dólares, além da significativa perda da auto-estima popular, que não sabia que o país era tão vulnerável. A cidade de New Orleans, a bela capital do creole jazz, às margens do romântico Mississipi, vai levar no mínimo um ano para se aprumar. Toda a tragédia apresenta uma reflexão dialética. Do mal sempre se tira um bem. Nem que seja um aprendizado. Pois algumas coisas ficaram claras na tragédia do Katryna. Primeiro, foi desnudada a bunda do grande urso branco norte-americano. A vulnerabilidade da região revela que os EUA não têm toda aquela tecnologia que gostam de arrotar. Depois, como um grande elefante, eles demoraram a sentir onde a abelha picou. Tenho certeza que, se um furacão atingisse o norte do Brasil, no mesmo dia, aviões já estariam lá carregando água, cobertores, remédios, barracas e comida. Lá levaram três dias. A estrutura é lenta? Ou porque as vítimas eram negros? O famoso rapper americano, Kanye West, o “Gabriel Pensador” deles, disse ao vivo, pela NBC, num espetáculo beneficente em favor das vítimas da tragédia: “Bush não se importa com os negros...” . Mais: a tragédia revelou a face cruel da pobreza americana, miséria essa que os filmes de Hollywood e os noticiários politicamente corretos da CNN não mostram. O desastre de New Orleans mostrou uma América pobre, negra e segregada, que se pensava sepultada na década de 40. Por fim, a eclosão do caos, assaltos, estupros, saques ao comércio (a tevê mostrou até policiais fardados participando do butim) é sinal que a ordem não é consciente, mas imposta à força, censurada nas imagens dos grandes veículos da mídia branca. Na hora do “pega” a autoridade perdeu o controle. Aceitando ajuda internacional da Cruz Vermelha e da Comunidade Européia, traduzida pela remessa de medicamentos, alimentos, vacinas, água mineral, material de comunicação, etc., os EUA revelam seu despreparo para eventos dessa ordem. De toda a crise, eu me permiti catalogar três manifestações, de inimigos do regime da Casa Branca. Primeiro foi o presidente Hugo Chavez, da Venezuela. Considerado “alvo número um da CIA”, ele deu um tapa de luva em Bush: ofereceu uma ajuda de 1 milhão de dólares, além de remédios e técnicos. O outro, “el comandante Fidel”, de Cuba, a quem os bloqueios americanos nunca quebraram o ânimo, foi ainda mais sutil: o “barbudo” disponibilizou engenheiros e meteorologistas, lembrando que o furacão Fernand, de maior intensidade que o Katryna, que assolou Cuba em fevereiro de 2005 não ocasionou nenhuma morte, pois as medidas defensivas foram tomadas tempestivamente. Por último, um mulá muçulmano do Afeganistão disse, agora em 4 de setembro, que o Katryna é a “mão de Alá”, e que é apenas o começo da justiça, por tudo aquilo que os americanos têm feito ao mundo árabe. “É para ‘eles’, saberem como é a dor e o temor. Os bombardeios americanos à Líbia, ao Líbano, à Somália, ao Iraque e ao Afeganistão (isto sem falar nas derrotadas campanhas americanas no Sudeste Asiático), foram mais violentos, letais e desalentadores que um previsível furacão. Estava na hora dos americanos conheceram a desgraça em sua terra”. É só de lamentar as vítimas inocentes, coisa que nunca preocupou os americanos em suas campanhas imperialistas.

 
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63375
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão