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Com licença, doutor

 

Há dias, a mídia nacional veiculou um fato ocorrido em São Gonçalo, na Baixada Fluminense, onde um Juiz de Direito exigia, pela via judicial, que o porteiro de seu prédio o chamasse de “Doutor fulano”. O caso seria risível e histriônico, se não fosse ridículo. Tem gente que agrega títulos honoríficos ou universitários ao nome, como se esse, sem o título fosse pobre e desvalorizado. Assim como o juiz exigiu ser chamado de doutor, certa vez vi um militar reclamar o posto antes do nome, bem como um religioso obrigar que o chamassem de padre, mesmo na intimidade. Os três fatos são semelhantes. É claro, ninguém vai chegar num tribunal, unidade militar ou igreja e perguntar pelo Zé. Ambientes formais obrigam o tratamento formal. O inverso ocorre no informal. Jogávamos futsal e eu gritei para o goleiro: “Olha o João! tá desmarcado!”. Quando a bola saiu, o cara chegou perto de mim e disse: “João não! Major João”. Já foi mandado à pqp, solenemente. Pois o Doutor Juiz do Rio queria ser homenageado até no playground do prédio. Isto é pobreza de espírito. Há uns vinte anos atrás, a Caixa – não sei se bem ou mal- padronizou suas correspondências. Naquele tempo, os ofícios eram simplificados. Certa feita, num desses interiores ínvios, a secretária, fornecendo informações solicitadas pelo fórum, abriu a correspondência com “Senhor Juiz”. Dali a pouco um aspone veio correndo dizendo que o magistrado não aceitava aquilo, que deveria ser “Meritíssimo (ou Excelentíssimo) Senhor Juiz”. Eu disse ao mandalete que era assim e pronto. Mas tem gente que adora o doutorismo, como se isto mudasse alguma coisa. No Brasil, antes, só médicos e advogados eram chamados de “doutor”; hoje qualquer bacharel, dentista, contador e pedagogo avoca o título. Quando morei em Pelotas, o porteiro do prédio pediu meu nome para colocar naquelas placas com o nome dos moradores. Dei-lhe um cartão meu. Quando voltei à noite, lá estava meu nome, antecedido por um solene “Dr.”. Questionado, o homem me disse: “É ordem do síndico! Por causa do gabarito do prédio, aqui todos devem ser chamados de doutor”. Quem gosta de cartaz é cinema, mesmo assim a maioria está fechando... Tive um conhecido (hoje falecido), que faziam com que a empregada, ao atender o telefone dissesse: “Aqui é a secretária do doutor beltrano”. Nesse contexto, uma pessoa que adora um “doutor”, numa festa, apresentou-me o namorado da filha como: “Este é o namorado da coisinha, ‘doutor fulano’”. Será que ele foi registrado como “doutor”? Na Caixa tive problemas com um bacharel em Direito, que queria que aparecesse nos extratos de conta, o “doutor” antes do nome. Afinal, estará perguntando o leitor: quem é doutor, então? Em princípio, quem fez doutorado em alguma coisa. No Brasil, como na Índia, usam o “doutor” mais como status do que capacidade. Em doutorados, a Índia tem o maior índice deles, per capita. Incluíram o país no clube nuclear, mas não o tiraram do Terceiro Mundo. No nordeste todo mundo é chamado de doutor. Há quem prefira ir nesse ou naquele restaurante, onde os garçons chamam os clientes: “E aí, doutor, o que vai ser?”. Primeiro, strictu sensu doutor é que após uma graduação universitária, faz um doutorado. Sendo assim, pouquíssimos são doutores, mesmo. O cúmulo mesmo, vi em um religioso, cuja apresentação em um livro era “Professor Doutor Dom Frei Fulano de tal”. Até pode ser tudo isto; mas é pedantismo. No passado, foi dito, só médico e advogado eram doutores. Tanto que, nossas avós não levavam os filhos ao médico, mas ao “doutor”. Depois, engenheiros e economistas arrogaram a si o título a suas atividades. Hoje, qualquer bacharel se intitula “doutor”, embora seu  desempenho fique abaixo da crítica.

 
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63377
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão