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Condenados a pensar

 
 
Jean-Paul Sartre († 1980) afirmou que somos “condenados à liberdade”. Muitos pensadores vêem a liberdade humana como uma arma perigosa colocada nas mãos de uma criança, tudo infletindo para a idéia de que o ser humano, em sua grande parte, não é apto a desenvolver tal capacidade, pois essa concessão sempre resulta em risco. Mas isto nada tem a ver com o assunto que quero abordar aqui. Pretendo falar naquilo que é a “arte de pensar”, desenvolvida pelos intelectuais, aqueles que no dizer do poeta Joaquim Monks estão “condenados a pensar”. O povão sempre espera que o intelectual pense por ele, para logo depois, mesmo sem compreender coisa nenhuma, dizer: “eu não concordo... ele quer é aparecer...saber mais que os outros”. Quando Winston Churchill, fez seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, perguntou a um parlamentar amigo, o que tinha achado de sua fala, o velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado mais na sombra, gaguejado um pouco. Com a inteligência demonstrada, você conquistou, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta". Isto atesta que os medíocres têm um indisfarçável medo da Inteligência. Qual o intelectual que já não foi repudiado, na trabalho, na escola, nas igrejas, na sociedade? Há uma famosa trova de Rui Barbosa: “Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma Ciência”. Os medíocres, obstinados na conquista de posições, ocupam os espaços deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar. É o boicote dos bisonhos. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos. Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do "Elogio da Loucura", de Erasmo, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir-se de burra se quiser vencer na vida. É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social, política ou mesmo eclesial. Ninguém admite que você saiba mais que ele... Assim como um grupo de senhoras burguesas boicota, automaticamente, a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um mais talentoso que os possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações; sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com um pé nas costas. Na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante. Infelizmente, temos que viver sob essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. Sábio é o conselho de Nelson Rodrigues: “Não reveles que és inteligente! Finge-te de idiota, e terás o céu e a terra. A massa odeia os sábios”. Tenho uma amiga, uma filósofa mineira, economiária aposentada, que costuma dizer que, mais que a beleza e o dinheiro, as pessoas invejam a sabedoria. Beleza, por dependente do enfoque, se adquire, desta ou daquela forma. dinheiro, então, nem se fala. Sabedoria, no entanto, não se compra. Ela diz que  “as pessoas odeiam os inteligentes, boicotam quem pensa, e caluniam quem sabe mais que elas”. Por isto, todo aquele que tem uma cabeça acima da média, está condenado a pensar, pois sempre vai ser alvo da inveja dos bisonhos.


 
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63381
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão