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Filósofos naturais


 
Havendo viajado por vários países cheguei à conclusão que o brasileiro é o povo mais filósofo do mundo. Não é brincadeira; é sério mesmo! Recentemente estive na Grécia, berço originário dos pensadores, onde pude ver um povo sério, pragmático, alegre porém preocupado com as migrações que despejam búlgaros, albaneses e bangladesh em sua bela terra. O grego ri pouco, e o faz à noite, sob o embalo do ouso ou do vinho retsina.

O brasileiro, como filósofo autêntico, é diferente. Ele ri dele próprio e faz piada com sua desgraça. Na verdade, é preciso enxergar, como cabe a um filósofo, a profundidade de uma questão, desde as primeiras causas, até o corolário. Piada, anedota, historieta jocosa, isto é filosofia pura. Era assim que Sócrates fazia rir o povo, subjugado pelos tiranos.

De uns tempos para cá, o “Fantástico” da Rede Globo abriu um espaço, que leva a filosofia através de raciocínios simples ao povo, em conexão de idéias capazes de serem entendidas por todos. Aliás, na extirpação das disciplinas humanistas (filosofia, sociologia, antropologia, psicologia) do Segundo Grau, reside um dos tantos crimes da ditadura que devastou o país, desde 1o. de abril de 1964. Filosofia fazia pensar, e tudo o que um ditador não quer é que o povo pense.

Agora tentam, parcimoniosamente, resgatar essas perdas. A verve do brasileiro, do homem de rua, do engraxate, do operário, é recheada de uma filosofia que faria a alegria dos peripatéticos, componentes da academia. Nada mais socrático que o deboche irreverente sobre as crises nacionais. Nada mais aristotélico que a lógica: Eu trabalho pro patrão enricar; ora, enricando ele não vai mais percisar de mim; logo, eu devo trabalhar menos prele não enricar”. Na grandeza de quem sofre e acha graça dos seus males, vê-se o estoicismo heraclitiano. Ao procurar emprego anos a fio, ficar dias nas filas da Previdência, procurar desesperadamente um leito de hospital para seu filho, o brasileiro vive as “leis do eterno retorno”, provando que as situações, embora cruéis, nunca são as mesmas, afinal, não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Ah essa filosofia tão esquecida, como aliás anda esquecido o mais elementar humanismo!

A filosofia natural, não essa metodologizada pelos “intelectuais” e pelos editores de livros “técnicos”, longe do que se imagina, não nasce nas universidades, onde pedantes, de óculos na ponta do nariz, mal-arrumados e descabelados (para serem reconhecidos como “filósofos”), cabeças cheias de estereótipos. Não nas “academias” ela é apenas aprisionada. A verdadeira filosofia, mais como “arte de pensar” do que “amor ao estudo”, nasce do povo. Era assim na arxaia ellada (Grécia antiga). Filosofia nasce do povo que vive, que pensa, que quer mudar. Nesse contexto, filosofia, longe de infletir na busca dos “primeiros princípios”, é um método que pensa, ensina e faz pensar.

Hoje o entendimento é dificultado porque as pessoas não sabem mais pensar, resolvem os problemas técnicos com calculadora e computador, mas o existenciais vão para o analista. O que falta é a lógica (aristotélica, cartesiana, sei lá) para organizar suas vidas. Aliás, “organizar idéias” é a proposta da filosofia moderna. Já desponta hoje, em países de Primeiro Mundo, a “filosofia clínica”, onde o indivíduo vai ao consultório do filósofo, não para desnudar seu inconsciente, na busca de solução para problemas de comportamento, traumas de infância, complexos de culpa, mas para que o especialista o ajude a colocar as idéias em ordem, a definir alternativas e a escolher caminhos.

Enfim, alguém que o ajude a pensar. Pensar por sua própria cabeça. Luxo que a vida moderna nem sempre nos permite.
 
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 25/10/2005
Código do texto: T63384
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão