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ANJO CAÍDO

Hoje vivi uma experiência estranha. Caminhava pela Avenida Paulista, com destino à Faculdade, em sequência a minha pós-graduação e me deparei com um ser. É apenas assim que posso definí-lo. Caminhava titubeante, maltrapilho como tantos outros que perambulam por esta grande Metrópole. Seus olhos expressavam a dor, a insegurança, a solidão, o desafeto e angústia que jamais vi. Deveras, me deixou impressionado.
Me pedia um trocado e, apesar de não ser meu hábito, não pude negar. Senti, porém que precisava de um amigo, de um contato, de uma simples palavra, do que de dinheiro.
- Tome, meu amigo, que Deus te proteja! – Exclamei, algo relutante.
- Fácil “procê” acreditar em Deus...taí de barriga cheia, de roupa nova, “cheroso” e tudo o mais...Respondeu automaticamente, de modo assertivo e jocoso, o rapaz.
Nesse pequeno contato pude observar seus ocultos olhos me inquirindo e fulminando minha alma. Ali, parado, eu já não sabia mais o que pensar, nem o que fazer.
- Apesar de tudo, meu caro, eu creio na existência de Deus mas eu acho que Ele tirou férias de mim...ou eu, tirei férias Dele...”dexa” eu comer um pão com esta tua moeda “divina”. Completou o maltrapilho sarcasticamente.
Virou suas costas e saiu, cambaleante, em direção ao Metrô Brigadeiro. Sua caminhada foi lenta, pausada e indecisa, não sabia se ia para direita ou esquerda, se olhava ou fechava os olhos.
Eu, bem...após algum tempo, continuei meu caminho, externamente seguro porém, internamente, todo bagunçado.
O rapaz é mais um retrato de nossa sociedade em plena decadência, na qual as pessoas não se olham, não sentem amor pelo próximo e na qual a ética e os princípios morais distam qüilometros da coletividade. Fomo criados pessoas, seres também, totalmente voltados para o individualismo e para o consumo desmedido. E se não consumimos, sentimo-nos doentes.
Essa pulsão por consumo de bens, deveria ser sublimada para uma compulsão em compartilhar, colaborar, compreender e co-criar um mundo novo, uma ordem social mais participativa, coletivamente falando.
Somos carrancudos, transitamos ofegantes pelas ruas da cidade e nossos olhos somente buscam satisfação para nossos egos
Quando estamos sós, não conseguimos silenciar nossos reais sentimentos e deixamos escapar a oportunidade diária de crescer e contribuir para uma dinâmica existencial mais coerente para nosso viver.
Bem, quanto ao maltrapilho, deixou-me pelo menos uma impressão: é um anjo caído, perdido neste mundo sem norte. Acredito que, como ele, todos nós tiramos férias de Deus, ou pelo menos tiramos férias das atitudes mais participativa pois nos distanciamos a passos largos de suas premissas divinas: o amor, a fé, a harmonia e o compartilhamento.
Paulo Araújo de Lima
Enviado por Paulo Araújo de Lima em 04/09/2007
Reeditado em 05/09/2007
Código do texto: T638919
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Araújo de Lima
São Paulo - São Paulo - Brasil, 53 anos
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Paulo Araújo de Lima