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A Cinderela dos pés grandes

 

A psicologia e todo um emaranhado de estudos sobre a mente humana, identifica uma patologia ou desajuste de comportamento chamado de “síndrome de Cinderela”, onde, numa de suas várias versões, contempla um determinado complexo de inferioridade, em que a pessoa se deixa abater por uma determinada depressão, considerando-se um “patinho feio” ou a legítima “gata borralheira”.

Para um caso assim, não há Prozac ou fluoxetina que chegue. Em geral, esse tipo de “Cinderela” sonha com um príncipe, um castelo e uma vida do tipo “foram felizes para sempre”, como se tais figuras do imaginário pudessem ser uma constante na vida das pessoas. Qualquer pessoa está sujeita a esse tipo de distúrbio, mas o mais comum de detectar é em mulheres, em geral sonhadoras, mal-amadas, em constantes buscas, com problemas psicológicos insatisfatoriamente resolvidos desde a infância. Uma mulher assim, parece querer sempre se auto-punir, errando constantemente em suas escolhas, e – ciente dessa falha – buscar em novos relacionamentos, uma compensação para sua irrealização.

O homem, nesses casos, se joga na bebida, enquanto a mulher busca paixões e romances tempestuosos, como que no resgate da identidade perdida. Ambos, tanto homem como mulher, tendem à depressão e, não-raro, à esquizofrenia, que pode derivar, em alguns casos, a atos mais radicais ou violentos. Há dias, li em uma revista especializada, a ampliação da “síndrome da Cinderela”, com uma curiosa variação: essa “Cinderela” tinha complexo dos pés grandes.

Tive, em tempos de faculdade, um amigo, que estudava odontologia, que tinha os pés enormes. Os colegas chamavam-no de “pés do Pateta”, pois o rapaz era o cara mais desastrado da escola, semelhante ao personagem de Disney que lhe emprestava o nome.. Onde ele ia, enroscava os enormes pés. Imaginem, num diminuto consultório de dentista, onde eles faziam as aulas práticas, o fulano enganchando os pés nos fios, cadeiras e outros obstáculos. Não havia aula em que o Pateta não causasse um estrago, com suas enormes “lanchas”.

Pois no caso que li, da moça dos pés grandes tinha algumas semelhanças, se não físicas, pelo menos de comportamento. É interessante frisar que pé grande se refere a pés, mesmo, um discreto tamanho 40, sem nenhuma relação com algo que lhe pudesse imputar a pecha de “sapatão”. A mitologia fala em Midas, em homem a cujo toque tudo se transformava em ouro. A mulher em questão, segundo relatos de seu psiquiatra, tinha “pés grandes” (além do sapato grande) no tangente a seus relacionamentos. Desde a infância ela não se afinou com o pai. Detestava fazer visitas e muito menos recebê-las. Não gostava de arrumar a casa e seu aprumo pessoal era discutível. Mas, o que mais evidenciava o desastre de seus “pés grandes” era sua conturbada vida amorosa. Incapaz de uma relação duradoura, ela foi casada, amasiada, em uniões estáveis ou passageiras, teve casos e namorados, às pencas, uns pelo devaneio, outros pelo interesse, a maioria vítima de seus pés grandes. Incapaz de se fazer amar ou de amar com coerência, sua vida, foi um desastre, acumulando fracassos e mágoas, nela e em muitos dos que por sua vida passaram. Qual um Midas às avessas, ela destruía tudo em que tocava...

Através de uma análise rápida, é possível detectar sua incapacidade para um relacionamento, fruto de sua ponderável auto-suficiência, fato que fê-la chegar à idade madura sem um afeto estável ou uma parceria duradoura. Ela afirmava – segundo o periódico – uma certa propensão a enjoar as pessoas. Essa falta de persistência nas relações, levou também alguns parceiros a enjoarem dela, resultando em uma cruel solidão, o que a levou a um total isolamento, tendo que recorrer ao auto-erotismo, pagando, às vezes, por seu prazer ou por uma simples companhia, seja de parentes ou pessoas de outro sexo.

 
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 26/10/2005
Código do texto: T63910
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão