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A morte do galo

 

Eles se conheceram nos meandros da vida. O fato de ela ser descasada e ele mal-casado, foi uma mão-na-roda. Olharam-se com olhos de curiosidade e daí surgiu o desejo e a promessa, o assédio e a anuência. E se amaram a partir dali.

Na primeira noite de amor, em casa dela, uma descoberta: a moça, além de bonita e misteriosa, era meio "mãe-de-santo". Como um autêntico peji (santuário do candomblé) o diminuto quarto do aconchegante apartamento estava iluminado por uma centena de velas coloridas, que davam ao ambiente um calor de aventura e um clima de sensualidade.

Ela o recebeu sem roupas, vestindo apenas, ao redor do pescoço o kelê vermelho, a gravata característica de Xangô, seu orixá. O defumador perfumava o ar... A cama, coberta por um lençol de cetim vermelho, toda rodeada de najés, pratos de barro, cheios de amalá, um fervido de quiabo, preferido pelo orixá, revelava a obrigação ainda por cumprir. O amor que aconteceu entre eles foi algo ardente e bizarro, terno e violento. Foi como se os ventos dos desertos de Aruanda se juntassem ao mormaço das planícies das terras iorubás, unindo-os num desvairo arrebatador, soprando a forja onde bate o machado de Xangô.

A partir dali, uma paixão arrebatadora uniu suas vidas, na mística de um encontro como que oriundo de raízes sobrenaturais. Eles se amavam sem parar, como dois eguns (almas penadas) que tivessem voltado à vida para desfrutar do amor que lhes fora negado em outras existências.

Pois a ialorixá sentenciou que a vida dele, com a legítima, entraria em crise. Uma manhã, ele sai para o trabalho e se depara, à frente de sua casa, com um galo preto, degolado e enrolado em fitas vermelhas. Assustado, liga para a namorada, que lhe informa tratar-se de um ebó (despacho) feito por ela. “O galo degolado - diz a moça - é símbolo da extinção da energia física. Daqui para frente, só conseguirás fazer amor comigo. Tua mulher está fazendo trabalhos contra mim... ela não terá você mais...”.

Assustado, ele pensa em retroceder, em abandonar a voluptuosa entidade, mas sente-se irremediavelmente seduzido, atraído por todo aquele ritual, de mistério e carne, que envolve seus encontros. De uma hora para outra a moça adoece, fica mal e morre.

À distância ele acompanha seus funerais, com uma sensação mista de perda, saudade e alívio. Livre do encantamento, ele tenta organizar a vida com a esposa. Sua natureza masculina não responde. Procura outras aventuras e fracassa em todas. Agora ele sabe o significado da morte do galo...

 

(conto premiado em 1992 – Prêmio Esso de Contistas – Rio de Janeiro)



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 26/10/2005
Código do texto: T63921
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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