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A namorada e a amante


Num domingo desses, não tinha futebol na capital, e a programação da tevê convencional era a mala de sempre, a via cabo molesta e os pay-per-view inadequados. Resolvi dar uma saída até o shopping, que àquela hora estava botando gente pelo ladrão, cheio de pessoas, entretidas em comprar, olhar vitrinas, comer alguma coisa, ir a um cinema, enfim, como eu, esticar um pouco mais aquele fim de tarde.  Havia pessoas sozinhas, casais, crianças buliçosas, coroas caçadoras e namorados. Muitos namorados. Todos demonstravam estar curtindo uma paixão, trocando afagos e beijos, debochados e descontraídos, alheios aos olhares invejosos e reprovadores dos mais velhos. Os beijos eram chupados, molhados, estalados, e os carinhos ousados e reveladores. Diante de tão rara fauna, eu me permiti levar a uma série de conjeturas, que reparto com os que me lêem. Antigamente namorada era uma coisa, amante era outra. A diferença era notável, sensível e delimitada E havia ainda o intermediário – hoje quase desaparecido – a noiva, que não era mais a namoradinha ingênua mas que via-de-regra, se negava a assumir o papel da amante.. Hoje, com a globalização dos costumes, os juízos tornaram-se mais unívocos, menos ambíguos, e as idéias justapostas, de modo que se torna quase impossível estabelecer uma separação. Ser namorado de alguém era querer bem, levar ao cinema, convidar para um happy-hour, dar presentes, mandar cartões temáticos nas datas certas, passear de mãos dadas, escrever o nome em garatujas, muros ou troncos de árvores, levar ao baile mensal do clube. Namorava-se às quartas, sábados e domingos. Apenas isso. A namorada fechava o olho aos deslizes do namorado, e se fazia de compreensiva quando ele dizia “...mas lá, as outras me dão o que tu não me dás...”. Embora seu desejo fosse virar a mesa, a donzela ficava em casa, tímida e descornada, lamentando sua opção pela virtude, virtude essa que a mãe teimava em preservar. A “outra” era a amante. Enquanto o local de atividade dos namorados era o comportado sofá da sala, apenas atenuado pelo furtivo e rápido portão e a sala de cinema, a relação com a amante se processava – no dizer do parnasiano Afonso Celso – “na alcova sombria e quente”. Para a namorada se dava bombons; para a outra calcinhas vermelhas de renda... Isso hoje mudou. As namoradas converteram-se em debochadas e pragmáticas amantes. Se alguém se referir às “doações” das outras, a namorada logo aduz: “... se ela dá, eu dou o dobro!”. Hoje, dizer que “está namorando alguém...” não esclarece se é namoro mesmo, projeção a um casamento ou apenas “alguém comendo alguém”. Mas a questão namorada-amante vem marcada no subconsciente, criando indeléveis arquétipos psíquicos. Uma boa parte das mulheres, de acordo com sua natureza onírica, prefere ser mais a namorada que a amante. Alguns gostam de ser amante, enquanto outras preferem o dublé de cama e mesa. Mais instintivo, o homem prefere a amante. Assim, é comum se ver  a mulher fazendo concessões de sexo para ter um namorado, aquele que supra seu lado romântico, de fantasia e sonho, enquanto o homem, na busca instintiva, quase irracional do sexo, faz concessões românticas, fazendo-se de namorado. Com o passar do tempo, o homem aprende, tornando-se, por natureza, o namorado dedicado, o romântico, o parceiro pressuroso. Algumas mulheres, depois de anos de relação esquecem-se de ser amantes, achando que isso é coisa do passado, que estão velhas para tais atividades, fugindo da luta, acomodando-se e preferindo não serem incomodadas. Alguns homens, em cujo interior a natureza continua indômita, às vezes, na idade madura sai atrás de aventuras, com a vantagem de que eles agora também sabem ser namorados.





Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/10/2005
Código do texto: T64203
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão