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Flor do córrego


Instado pelas más companhias e pela súbita ascensão social, o sujeito arrumou uma amante. Gozado como a obscuridade é fiel, e o sucesso predispõe a aventuras.  Pois o cara, de repente, apareceu com uma mulher nova. Morena, olhos verdes, alta e liberal, exatamente o inverso da pobre esposa, traída porém virtuosa. Na imaturidade tardia de seus quarenta anos, ele começou a dar presentes à outra, desfilando por restaurantes da moda, fazendo pequenas viagens, enquanto a mulher legítima cuidava da casa e dos filhos, alheia e alienada a todo esse processo. Chegou o Natal e o “herói” se mandou às compras. Um colega de trabalho, mais experiente deu-lhe dois conselhos.  Primeiro, já que ele tinha que dar presentes para a mãe, para a esposa e para a amante, se ele fosse  obsequiá-las com perfume, que desse a mesma marca às três, para evitar aparecer com cheiro diferente. Como defesa do argumento, o amigo invocava situações passadas em que, chegando em casa com perfume desconhecido, foi interrogado pela mulher até a exaustão.  Assim não: “Que cheiro é esse?  É do teu perfume, meu amor!”  Ou, no máximo,  “é da velha...”. Depois, o segundo conselho: que evitasse dar cartões, pois representavam um perigo. Uma vacilação e a situação desandava. Marinheiro de primeira viagem, ele seguiu o conselho do amigo. Foi a uma loja especializada e comprou três vidros de extrato. Sim, extrato, porque colônia é coisa vulgar. Perguntou à balconista qual o melhor, o mais caro, o mais sofisticado, e recebeu da moça a indicação: “Fleur de Rocaille” ou “Flor do Córrego”. E lá se foram os três vidros, destinados à mãe, à esposa e à paixão. Se ele seguiu a dica do amigo quanto aos perfumes, esqueceu-se de observar quanto aos cartões. Afinal, ele estava feliz, e queria desejar a cada uma delas, a seu modo,  um bom Natal. Para a mãe ele escreveu: “Quem vê suas rugas não vê seu coração. Apesar de sua idade, admiro sua determinação e amor pela vida. Feliz Natal!”. Para a esposa ele fez um cartão bonito: “Tudo que tenho na vida devo a você. Nesses doze anos que estamos juntos, você me deu tudo: vida, amor, filhos, paz. Para mim só precisava existir você como mulher”.  Para a amante precisava ser uma coisa arrebatadora: “Mulher, nesses três meses que dura nosso amor, nunca me senti tão amado e deslumbrado. Você é a emoção que faltava em minha vida vazia”. A festa de Natal foi na casa do primo Edgar, onde, por ser colega de trabalho, a “outra” também, foi. Em momentos diferentes, furtivamente, ele deu o presente e o cartão a cada uma das três mulheres. Em seguida notou que algo estava errado. Todas as três olhavam para ele com caras de ódio. Acontece que ao dar-lhes o sofisticado “Flor do Córrego”, ele trocou os cartões. Para a mãe, deu o da esposa, para a esposa deu o da amante, e para esta o destinado à velha. Ao lerem os textos, as três “rodaram a baiana”.
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/10/2005
Código do texto: T64381
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
981 textos (321384 leituras)
10 e-livros (3489 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão