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Até que a morte nos separe...



Ontem vi um casal atravessar a rua. Eram dois velhos, ligeiramente encurvados, passo vacilante e olhar cuidadoso. Suas roupas não tinham o apuro da moda e seus gestos não denotavam vigor. Não sei por que, comecei a divagar sobre os dois. O que poderia estar rondando suas cabeças naquela hora?  Que temores o intenso tráfego estaria causando a seus corações idosos?  Quais suas reações ante um mundo em permanente e incontrolável mutação?  Quais seus pontos de vista sobre a moda, sobre a ética e sobre a moral?  Estabeleci uma regressão e cheguei a vê-los, quarenta ou cinqüenta anos atrás. Ele, atleta, robusto, cheio de energia, solícito e cavalheiro. Ela, feminina e brejeira, frágil e vaidosa. A vida, às vezes boa às vezes má, os envolveu em seu torvelinho de acasos e contradições, trazendo-os após muitos anos, a essa velhice digna, calma e solidária. Como é bonito ver duas pessoas que envelheceram juntas! Como é belo testemunhar neles a plenificação do amor...  E lá se vão eles, mão na mão, caminhar cansado, mas olhos vivos de quem viveu bem a vida.  A mão na mão é mais um símbolo do que efetivamente um amparo; é mais um sinal de unidade afetiva do que uma garantia de segurança física. Ele, atento aos carros que passavam, procurava guiá-la. Ela, confiante, deixava-se conduzir por ele. Ah! Que belo quadro de vida e de amor eu pude ver ali...  Já foi forte a mão que a amparava... Quantas vezes deve ter sido usada, qual uma lança de um cavaleiro andante, para defender sua bela eleita... Ela, naquele vestido escuro e naquelas meias grossas, que hoje encobrem flacidez e varizes, por certo no passado revelaram as curvas de um corpo jovem e provocante.  Como terão se amado na juventude... Quantas vezes o ciúme deve ter temperado aquele romance entre um homem forte e uma mulher bonita.  Mas agora tudo é passado.  O presente está aí, na minha frente: dois velhos trêmulos, mão na mão, quais pombos amedrontados, a atravessar uma movimentada avenida.  A vida levou quase tudo o que eles tinham. Levou a juventude, mas deu-lhes a experiência; levou os sonhos mas materializou seus devaneios através dos filhos e dos netos;  levou o fogo dos anos mas deixou a serenidade de uma velhice digna;  levou delgadas silhuetas, deixou rugas, gordura e cabelos brancos, mas deu-lhes o respeito dos jovens, o amor dos filhos e a admiração dos amigos... Ah! Esse tempo implacável que investe até contra a dureza do mármore!  O tempo levou ou modificou quase tudo, só não conseguiu lograr sucesso contra o amor, pois esse jamais passa.  Por isso, caro leitor, quando andar pela rua e deparar-se com um casal de velhos à sua frente, não os encare como quem “já era”, nem como alguém que, com seu passo trôpego, está a obstruir a calçada.  Faça uma parada, perca um pouco de tempo e contemple-os. Como um peregrino cansado que pára diante de uma igreja, persigne-se diante desses dois, como se fossem seus próprios pais, como se encarnassem, na mais  rica concepção, o mais revelador do amor humano, traduzido não em gestos paixão a uma pessoa jovem e útil, mas consolidada pela vivência profunda, e enraizado por toda uma vida de dedicação e afeto. Não os tome por estorvo nem os chame de ultrapassados. Ultrapassados somos nós, que não sabemos mais amar. Veja-os como um monumento ao amor, um amor tão raro nos dias de hoje, isento de percepções materiais.  Olhe seus gestos, fotografe suas atitudes e veja quanta entrega brota deles.  Será que nossos jovens, daqui a quarenta ou cinqüenta anos, ainda saberão amar assim?  Por isso, não apresse seu passo; curta este momento. Você está diante de algo raro e em extinção: você está na antecâmara do paraíso; você está diante do amor.  Ali se vão os dois velhos entre as pessoas da rua, por certo temendo a morte.  Não a morte em si, mas a separação deles e a solidão do sobrevivente.  Só a morte, por sua característica de fato inevitável, é que poderá separá-los. Mas eles, por certo, já “tramaram” alguma coisa para neutralizá-la, algum encontro furtivo na outra vida, para viverem eternamente seu amor, sem mais ameaças, sem mais sobressaltos... E lá se foram eles. Já não os avisto mais.  Extasiado aqui, tenho retida sua imagem, mão na mão, dizendo com a vida, unidos, até que a morte nos separe...

(texto extraído do livro "A casa sobre a rocha" do autor - Ed. Vozes, 1999).

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/10/2005
Código do texto: T64386
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão