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Um liso de "canha"


À porta da igreja da pequena cidade, o jovem padre olhava angustiado a manobra que o enorme caminhão fazia, contornando a praça central.  Era um desses caminhões modernos, branco com listras azuis. Atrás, a vasta carroceria coberta por uma lona, parecia transportar cereais, ou coisa parecida. Ao chegar na ruazinha apertada, em frente ao templo, o motorista, de forma temerária, girou o cavalo para um lado, enquanto o restante da jamanta, tirando um fininho incrível de algumas árvores, foi alinhar-se ao restante, num barulho infernal de freios à vácuo e aceleração de motor. O pesado veículo vinha com as luzes acesas e no pará-choque lia-se a frase: “Paguei quero estradas”. O motorista levou alguns minutos para desvencilhar-se do cinto e depois, meio cambaleante,  desceu. Desceu e entrou na igreja, indo orar na frente de uma imagem de São Cristóvão, no lado esquerdo da nave central. Olhando para a placa do caminhão, o padre constatou que o homem vinha de longe. Aos poucos foi se aproximando do recém-chegado, esperando que ele terminasse suas preces para iniciar o interrogatório, tão ao gosto dos padres de interior. “Quem é o Senhor, perguntou o sacerdote?”  O homem olhou para os lados, como se houvesse mais alguém por ali. Depois respondeu com um sotaque de gringo: “Boa tarde, prete,  eu sou o Giggio, sou de Parai, moro em Canoas e estou indo pra Vacaria, levar uma carga de milho!”.  O padrezinho quis saber: “E por que entrou dentro da cidade?”   O rapaz pigarreou e respondeu: “É por causa dos home, e das lei besta que eles inventaro!”  “Como ?” perguntou o outro. “Como ? O senhor não sabe ?  Agora, além de sê obrigado a usá o cinto e andá de farol aceso, proibiro os bulichero de vendê trago na estrada”.  O jovem presbítero não entendeu. “Sim, mas, e daí ?” O caminhoneiro olhou com uma cara impaciente e disse: “Daí que agora, pra bebê, a gente tem que entrá nas cidade!  Não é porque proibiro que quem toma vai deixá de tomá. E é pior: antes eu tomava um martelinho, só pra regulá a lenta e tirá o pó da garganta. Agora, já que tem de entrá na cidade, dou uma passada na "zona", danço um vanerão com as guria e bebo duas Bock com um liso de canha. Sai mais caro, mas me adivirto mais”.  Estupefato o padre pergunta: “Mas e essa carga, quando deve chegar lá ?”.   Saindo na direção da porta o gringo diz para si: “Catso, esse padre qué sabê demais!”,  e responde: “Tenho que chegar às uma na Vacaria”. Mais estupefato ainda, o curioso sacerdote indaga: “E vai dar tempo?”.  "Sei lá - diz o outro -  coçando a barbicha ruiva, toco cento e quarenta e sai da frente...”. Subiu no caminhão e saiu levantando todo o pó do mundo.  Naquele dia, no sermão da tarde, o padre falou algo como rever certas leis relativas ao trânsito nas estradas.

CRÔNICA PREMIADA


(Artigo publicado em 06/06/1996 no Diário Popular - Pelotas/RS)
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/10/2005
Código do texto: T64389
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão