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O último café

A degustação de café faz parte do acervo de prazer, não só dos brasileiros, como da maioria dos povos sul-americanos. Os europeus, exceto os gregos, embora tomem café, são contra o preto, pois inventam que faz mal para isso ou para aquilo. Que fiquem com seus chiliques! Não sabem o que estão perdendo... Na Grécia e na Itália se toma bons café...

Enquanto isto, as grandes cidades, vão acrescentando a seu cabedal de gastronomia, os cafés, assim como se encontrava em Buenos Aires, desde a década de 50. Em Porto Alegre, Pelotas, Canoas, Novo Hamburgo e outros, a cada dia surgem novos cafés, com mesinhas para sentar, pratos típicos, sanduíche, pão de queijo ou empanadas, para o complemento.

Além disto, a oferta não se limita ao “pretinho” ou “expresso”, mas é sofisticada a uma ponderável variedade, como o capuccino, o cortado e outras variações, puro, com leite ou mistura.

O cultivo do café, se iniciou na Arábia, em torno do século VI de nossa era. O consumo da infusão cresceu na Europa durante o século XVII, o que estimulou os holandeses a cultivá-lo em suas colônias. Em 1714, os franceses conseguiram levar uma muda de café para a ilha da Martinica; esta única planta foi a origem dos extensos cafezais da América Latina. No Brasil, o café foi introduzido em 1727 por Francisco de Melo Palheta, um militar que fora enviado à Guiana Francesa para resolver problemas diplomáticos com o governador francês D’Orvilliers.

Lá, ganhou mudas da planta. Por volta de 1760 0 café chegou à cidade do Rio de Janeiro, em cujos arredores começou a ser cultivado em fazendas pertencentes aos frades capuchinhos. Daí expandiu-se para o vale do Paraíba, onde a riqueza que gerou fez surgir, no século XIX, uma nova e opulenta aristocracia rural, a dos “barões do café”. Em seguida chegou ao estado de São Paulo, onde foram fundadas novas cidades em torno das áreas de cultivo, atraiu os imigrantes italianos, provocou a expansão de vias férreas e tornou o porto de Santos o maior do Brasil.

Naquela madrugada fria, depois do amor, ela levantou, suada pela atividade, tonta de prazer, cabelo em desalinho, olheiras profundas, seios inchados, colocou o penhoar e foi à cozinha fazer um café para os dois.

O inconfundível odor do “café passado” inundou o apartamento, mesclando-se ao cheiro do amor e ao perfume que ela usava. Como o corpo cansado e o espírito agitado, ela se achegou à cama, onde ele ficara para, com um sorriso maroto nos lábios e um brilho invulgar nos olhos, e serviu-lhe o café recém preparado. As conversas giraram em torno do sabor do café, daquele momento de magia e dos desvarios da paixão que ainda pretendia viver... Era frio, ventava e eles ficaram ali um bom tempo, tomando café e conversando.

Como fazem os amantes, ela sorveu um último gole de café de sua xícara e serviu-lhe na boca, através de um beijo, como costumava fazer. No dia seguinte, a maré caprichosa do destino se voltou contra eles.

Inexplicavalmente abriu-se o chão, surgiram paredes, levantaram-se obstáculos, e eles se separaram. Nunca mais se viram nem se falaram... Mas ficou a lembrança, especialmente do perfume do café passado e do gosto da bebida mesclado aos beijos. Qual o dramático tango de Stampani (“El ultimo café”), o café tornou-se para eles um fio condutor de nostalgia e saudade. Sempre que bebem café, um lembra do outro, recorda os beijos, o gosto da boca e tudo que existiu entre eles.

Naquela madrugada, em que o calor dos corpos fazia o contraponto com o gélido da temperatura, o café, coisa tão simples, banal até, serviu de alento para a continuidade dos atos de amor, até o amanhecer... Hoje o café é apenas um ícone para as lembranças. Mal sabiam eles, que naquela madrugada, entre tantos pontos finais, aquele seria o último café.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 27/10/2005
Código do texto: T64392
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão