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O Leitor Guevara

Guevara é capa do livro O Último Leitor do escritor argentino Ricardo Piglia; é uma foto do leitor isolado em cima de uma árvore na Bolívia, em plena luta armada.

O guerrilheiro da década de sessenta surge como o leitor incansável que sonhara ser escritor. ”Naquele tempo eu achava que ser um escritor era o título máximo a que se podia aspirar”, escrevera certa vez a um amigo. O jovem viajante de uma América esquecida imaginou escrever sobre as aventuras de um turista ímpar a procura de um enredo. Antítese do Quixote, que pretendera viver as aventuras lidas, o argentino escolheu viver, experimentar, para depois escrever. E sempre acompanhado dos livros, amigos inseparáveis desde a infância até o triste desenlace de sua execução na selva boliviana.

Ernesto Guevara de la Serna nasceu em Rosário. Prematuro e asmático foi viver numa região serrana para se curar. Por causa dessas limitações, inclinou-se à literatura, tomando contato com Cervantes, Julio Verne, Garcia Lorca. A mãe mantinha ligações com a esquerda e o pai fundou a Ação Argentina. Em 46 mudou-se para Buenos Aires indo estudar medicina. Interrompe os estudos em 52 para viajar pela América Latina, retomando-os em 53 para concluí-los, caindo novamente na estrada para nunca mais voltar à Argentina. Casa-se no Peru, e depois no México, onde ganha o apelido de Che por usar sempre esta expressão quando falava com as outras pessoas. Em 61 esteve no Brasil e foi condecorado com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul pelo então presidente Jânio Quadros, e foi executado na selva boliviana em oito de Outubro de 67 em La Huigera, aos 39 anos.

Guevara amava os livros. O último leitor não escrevia para viver, mas vivia para escrever. A literatura era sua redoma. Preocupava-se com as pessoas simples, o trabalhador, o iletrado, o crente, o enganado. O médico e intelectual abandonou sua poltrona de couro e a comodidade das bibliotecas para lutar pelos deserdados. A inteligência deste despojamento é duvidosa, mas o seu sentimento de solidariedade é inquestionável.

Guevara o médico, o repórter, o leitor, o escritor, o líder, o guerrilheiro. Herói mítico moderno, carrasco do paredão, ministro da economia, andarilho despojado, anarquista, culto, malvestido, anti-religioso, combatente na América e na África, o que não conseguiu cumprir com o sonhado destino redentor em sua amada Pátria.

Ernesto Guevara criou sua própria ficção. Para Piglia, um homem puro, o último leitor, o que num momento de desolação na selva foi capaz de subir numa árvore e alhear-se de tudo com um livro às mãos. O que sempre carregava à cintura o peso - para muitos inútil - da literatura. E um caderno de anotações para consignar o drama que criara para si e os seus leitores.

Literariamente, lembra-nos Hemingway, que também construía vivências para depois escrevê-las. Espiritualmente, todos aqueles - e foram tão poucos - que se comoveram com as injustiças impostas a tantos homens e sentiram em si suas dores, experimentando os sofrimentos dos irmãos e agindo, da forma como puderam ou souberam, para confirmar sua solidariedade. Espíritos que nos acertos ou equívocos tiveram seus nomes inscritos no grande livro que conta a trajetória sofrida do homem na Terra.

A revolução cubana destronou um ditador para erigir outro. Os idealistas daquela época não chegaram a compreender que mudanças de regime e governo não chegarão jamais a resolver os grandes problemas humanos, pois suas soluções dependerão do enfrentamento que o ser humano deverá travar consigo para modificar-se e construir um mundo melhor.

Qualquer melhoramento social dependerá da educação que liberte o indivíduo das amarras dos preconceitos que anulam a inteligência transformando-o num homem-massa facilmente manipulado por qualquer ideologia exótica. Todo assistencialismo é inócuo por ser uma ajuda indiscriminada, muitas vezes por meio da violência, desestimulando os mais capazes com os quais se poderia contar para empreender um grande projeto educacional.

A conquista da liberdade e da independência é uma jornada individual que depois se projetará por toda a sociedade.

Conta-se que em seus últimos momentos, ferido e debilitado, Guevara passou numa escolinha daquela pobre região boliviana onde foi socorrido pela professorinha local; e que suas últimas palavras foram: ”Falta o acento”. Referia-se a uma frase escrita na lousa: ”Yo sé leer”.

Como muito bem escreveu Ricardo Piglia, “morreu com dignidade, como um personagem de um romance de educação perdido na história”.

Nagib Anderáos Neto


Nagib Anderáos Neto
Enviado por Nagib Anderáos Neto em 13/09/2007
Reeditado em 08/04/2013
Código do texto: T650971
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Sobre o autor
Nagib Anderáos Neto
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Nagib Anderáos Neto