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Valei-nos Santa Luzia

A justiça brasileira é a única portadora de deficiência visual que não aprendeu a desenvolver os outros órgãos dos sentidos. Sabe-se que, a natureza, na sua infinita sabedoria, quando priva um ser de um dos sentidos, desenvolve os outros. Parece ser uma espécie de compensação por aquilo que foi retirado da criatura. A história nos mostra uma infinidade de casos nos quais, com a perda da visão, o deficiente desenvolveu a audição, por exemplo.
Foi assim com os cantores Steve Wonder e Ray Charles, que privados da sua capacidade de enxergar, desenvolveram a audição ao ponto de se tornarem músicos excelentes. Beetowen perdeu a audição, mas aguçou sua percepção de tal forma, que sua limitação auditiva não o impediu de continuar produzindo melodias que atravessam séculos.
No final do ano passado, a população de Natal pode assistir a um verdadeiro espetáculo de superação dos limites, quando a pintora paulista Nalu Daum, mostrou sua técnica de pintura com os pés. Ela nasceu com os braços atrofiados, vítima de talidomida, mas sua capacidade de superação levou-a a desenvolver sua arte usando os membros inferiores.
A ficção também está cheia de casos onde a ausência de um dos órgãos dos sentidos remete o indivíduo ao desenvolvimento de outro, a fim de suprir aquele que falta. No filme O Demolidor, o advogado Matthew Murdock, vivido pelo ator Ben Affleck, perde a visão ainda criança, mas consegue desenvolver sua audição, seu tato e sua percepção de tal maneira, que é capaz de se desviar de uma bala. É ficção, claro.
Os filmes de artes marciais também mostram que, qualquer indivíduo é capaz de proezas fantásticas, desde que tenha treinamento, disciplina e força de vontade. Dentre os exercícios praticados pelos adeptos das artes marciais está aquele no qual o discípulo fica privado da visão, treinando com uma venda nos olhos.
Tais exemplos servem apenas para mostrar que a nossa justiça além de não ter visão, parece também não ter audição, tato, olfato, portanto, não dispõe da percepção necessária para fazer aquilo que é sua responsabilidade: justiça.
Diante de tal constatação conclamo a população para se unir em torno de uma campanha que permita se fazer uma cirurgia, um transplante de córnea, qualquer coisa que possa devolver a visão da justiça, porque sem esse importante órgão dos sentidos ela fica incapacitada de desempenhar de forma satisfatória o seu trabalho.
Prova disso é que grandes criminosos ficam fora das prisões, enquanto falta espaço para os ladrões de galinha. Com relação aos crimes ambientais, considero de extrema importância a preservação de nossa fauna, de nossa flora, do meio ambiente, enfim. Mas não consigo entender o porquê a vida de um pássaro é mais importante do que a vida de um ser humano.
Os noticiários estão cheios de reportagens mostrando pessoas sendo presas, de forma inafiançável, porque abateram uma ave, muitas vezes, para saciar a fome das crianças que têm em casa. Não quero defender o extermínio de aves, mas o fato é que o mesmo não ocorre com os exterminadores de pessoas.
Recentemente um homem foi preso em São Paulo porque estava pescando para alimentar-se, junto com a esposa grávida. Ocorre que, o local da pescaria era uma área de preservação ambiental. Ele foi preso, ficou incomunicável por ter praticado um crime inafiançável, a esposa perdeu a criança que esperava e os peixes foram parar no lixo.
Enquanto isso, o jornalista Pimenta Neves assassinou a namorada, confessou o crime e não foi preso. Se a vida de um ser humano vale pouco, a vida de uma mulher parece valer menos ainda. Este caso envolvendo o jornalista é exemplar. Há poucos dias, em Parnamirim, um homem foi denunciado por jogar sopa quente, no corpo de uma mulher, provocando queimaduras gravíssimas, mas o criminoso permanece livre. Não se sabe o motivo pelo qual ele não foi preso em flagrante. Vai esperar por uma decisão judicial marcada para daqui a quatro meses.
Aliás, bater, atentar contra ou matar mulheres parece ser a coisa mais natural do mundo. Existem até músicas nas paradas de sucesso, que incentivam tal prática. Alguns dos agressores costumam dizer: “Não bati nela. Bati no seu atrevimento”, e a desculpa é aceita até mesmo por algumas mulheres.
O juiz Nicolau dos Santos Neto, famoso por desviar dinheiro público em São Paulo, tem direito a prisão domiciliar, gerando mais gastos para o contribuinte brasileiro. O ex-deputado federal Sérgio Naya, responsável por deixar várias famílias desabrigadas no Rio de Janeiro, está livre.
O pior de tudo é que agora se descobriu uma forma de livrar mais cedo, os que praticam crimes hediondos. Basta cumprir um terço da pena e o sujeito está fora da cadeia. Dentro de poucos dias aquele estudante que metralhou uma infinidade de pessoas dentro de um cinema, em São Paulo, vai ser libertado. Já cumpriu seis anos de prisão, tem bom comportamento, então solta o coitadinho.
A desculpa que se ouve, é a de que as leis estão ultrapassadas. Eu, nada entendo de leis, mas também não entendo por que motivo não se atualiza as leis? Ora, quando um objeto não atende mais as nossas necessidades, ele é descartado e logo outro mais moderno o substitui. É assim com os automóveis, computadores, televisores, etc, etc.
Então, se as leis utilizadas não atendem as nossas reais necessidades, que estas sejam renovadas. Nosso povo precisa pressionar nossos legisladores para que tomem providências nesse sentido. Afinal, já estamos cansados de conviver com injustiças e ver que os rigores da lei são aplicados somente àqueles que não dispõem de recursos para pagar advogados, enquanto aos ricos e poderosos se aplicam as jurisprudências.
Algo precisa ser feito com urgência. Do contrário, só nos resta rezar muitos terços, missas em ação de graças, novenas e trezenas, como diz o “filósofo” Falcão, para que Santa Luzia proteja nossos olhos e não nos deixe ficar relegados à cegueira em que vive a nossa justiça.
Nadja Lira
Enviado por Nadja Lira em 15/09/2007
Código do texto: T654011

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Sobre a autora
Nadja Lira
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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Nadja Lira