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RECORTES DO PENSAMENTO VIVO DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS

RECORTES  DO PENSAMENTO VIVO DE
BARTOLOMEU  CAMPOS  DE  QUEIRÓS*

(artigo publicado na revista PREÁ - N° 4 - Dezembro/2003 - Natal/RN, de autoria de José de Castro**)


“A ciência exata é uma mentira que dura um pouco mais.” (BCC)


No final de 2002, a convite do Núcleo de Educação Infantil – NEI, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, esteve em Natal o escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, que proferiu uma palestra sobre a importância da escola e da literatura para a formação da criança, no auditório da Escola de Música daquela universidade, perante uma platéia atenta, superior a 300 professores.
Bartolomeu Campos de Queirós teve o seu primeiro livro publicado em 1971: O peixe e o pássaro. Depois vieram outros, como Pedro, Onde tem bruxa tem fada, Raul, Estória em três atos, Mário, Ciganos, Correspondência, Indez, Escritura, Diário de Classe, A faca afiada, Cavaleiros das Sete Luas, dentre outros. Todos esses livros, pela sua qualidade, vêm merecendo sucessivas reedições. Seus dois mais recentes lançamentos são: Flora, pela editora Miguilim e Mais com mais dá menos, da Editora RHJ, ambas de Belo Horizonte. Estes livros são em prosa e destinam-se ao público juvenil. Sua obra já foi distinguida com vários prêmios, dentre os quais: Selo de Ouro da FNLIJ, Prêmio Bienal de São Paulo, Prêmio Prefeitura de Belo Horizonte, Jabuti, Diploma de Honra da IBBY de Londres e Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores.
Pela importância do seu trabalho literário foi homenageado por uma editora da Espanha com uma publicação enfocando seus livros, seu pensamento e sua visão de mundo. E também mereceu uma publicação dentro da série “Escritores Mineiros”, versando sobre a sua obra literária.
Bartolomeu Campos de Queirós configura-se hoje como um dos mais importantes autores da moderna literatura brasileira. Traz a singularidade daquele escritor que fala diretamente à alma e ao coração. Tem viajado por todo o Brasil levando mensagens  significativas para a formação de leitores prazerosos e autênticos.
Resumidamente, eis algumas das reflexões feitas pelo escritor naquela manhã.
No passado, aprendizagem era sinônimo de transferência. Hoje, a educação significa repetição e cada vez mais se distancia da inventividade. Eu me lembro de ter participado de um grupo de professores em Minas, os professores inventores. É a dimensão que está faltando na escola de hoje.  A escola tem que estar em sintonia com a vida. Essa vida que é tão preciosa, porque é frágil, é efêmera diante da eternidade. A escola tem uma responsabilidade muito grande para com a educação da criança, porque se a trama não for bem feita logo na infância o tecido do futuro será bambo, frouxo.
A criança está num lugar em que o adulto não pode estar. Aí o adulto sente a criança como uma ameaça. Essa é a razão que o leva a querer o seu amadurecimento precoce. Assim, a “boa” escola acaba sendo aquela que assalta a criança mais cedo. E o “bom” professor é aquele que rouba a sua infância.
A vida, além de preciosa, é um processo de subtração: cada dia a mais é um dia a menos. E a criança, inegavelmente, é mais do que nós adultos, ela tem mais tempo a ser vivido. Não temos o direito de apressar essa conta de menos. Ao contrário, a escola precisa ajudar a espichar o tempo da criança e ajudá-la a desfrutar ao máximo o sabor de cada dia. Por isso temos de ter muito cuidado com o uso da palavra. A palavra é uma coisa muito séria. Na psicanálise, inclusive, há um tipo de terapia, um processo de cura através da palavra. Cristo nasceu porque Nossa Senhora ficou grávida da palavra de um anjo.
É importante a gente perceber que durante os nove meses em que estivemos no útero materno todos nós conhecemos o paraíso. O útero de cada mãe se assemelha ao paraíso. Quando nascemos, ganhamos o abandono. Daí que viver é uma tentativa de recuperar o paraíso perdido. E isso é o que nos aproxima uns dos outros. A criança aprende não é para ter sucesso na vida: ela aprende é para ser mais amada pelo professor, para ser mais querida. É como se fosse uma forma de compensação pela perda do paraíso. Aprendizagem é uma tentativa de recuperação de carinho, de aconchego, de amor. O mais doloroso é que a gente nasce sem escolha. Não me foi perguntado absolutamente nada. Eu poderia ser você. Eu poderia ser qualquer criança que está diante de mim.
Temos que compreender que ensinar não é educar. Que a vida é o espaço da dúvida. A verdade, toda a forma de verdade, é uma procura nossa. A nossa vida se tece na dúvida. A educação é feita de trocas de dúvidas e isso a torna mais emocionante.
Precisamos ter mais humildade diante da vida, pois o próprio lugar onde vivemos é humilde: não tem luz própria e precisa, para se iluminar, de uma estrela de quinta grandeza. Um poeta diria: “a terra não tem nem luz própria”...”
A vida é verbo. Passado, presente e futuro. A vida é cheia de enigmas. Quem colocou a água dentro do coco? A vida é uma grande fantasia. A criança vive de fantasia, portanto, vive de realidade. A tarefa do professor é confirmar a presença dessa criança no mundo.
Há um risco no processo educacional: o de considerar que a criança boa é aquela que atende ao desejo do professor. Ao proceder-se assim, perde-se o essencial da dignidade da pessoa humana: o homem pode pensar o seu próprio destino, pode escolher, pode ter opinião própria. Pode ser diferente e ter desejos diversos do meu. Na verdade, a escola é um espaço intermediário: é onde o aluno me conta de onde ele vem e me diz para onde vai. Cabe ao professor escutá-lo. Essa é uma das formas de se valorizar a cultura de cada um, pois a cultura está onde o sujeito está. Portanto, a boa escola é aquela que antes de ler o alfabeto lê bem a comunidade à sua volta.
Temos que perceber que a vida ocorre independentemente da escola. Há três coisas que a gente aprende sozinho: a tecnologia, a prudência e a arte. Tecnologia: todos sabem cavar um poço para buscar água. Prudência: todos sabem o que é dor e prazer. Arte: todo o mundo gosta do que é bonito.
A minha primeira cartilha foi o olhar do meu pai. Às vezes é o olhar do professor que está trabalhando contra. O olhar inaugura a aprendizagem. Eu só me vejo no olhar de vocês. A minha felicidade está no olhar de vocês.
É tarefa da escola redimensionar o que a vida já deu. Escola é o lugar da escuta. É preciso que se compreenda a diferença entre ouvir e escutar. Ouvir é um fenômeno fisiológico. Escutar pressupõe tentar adivinhar o que está obscuro.
Podemos estabelecer uma analogia com esse processo da escuta através dos conceitos da psicanálise: ego, o que eu conheço de mim; id, o que eu não conheço (vem pela arte); superego, o que gostaria de ser. O ego é o campo da dor, da alegria, da indiferença, dos medos. O eu é feito de pedaços do outro. Tudo é do outro. Escutar é permitir a presença do outro. O aluno que eu escuto vem morar em mim. A presença do outro me completa.
A escola tem uma grande responsabilidade para com a cultura, entendida como a capacidade de alterar a natureza dada. Esse processo de transformação precisa ser feito com dignidade. No grego arcaico, a palavra “pedagogo” significa “parteiro, aquele que ajuda o outro a vir à luz”. E essa ajuda pode vir através da arte. A arte hoje é o grande motor da educação, pois a arte vai além do concreto. A literatura é uma oportunidade de expressar um desejo que eu não conheço. A literatura infantil é aquela que você não dá conta de guardar só para si, que você tem o prazer e a urgência de dividir com o outro.
Infelizmente, o que acontece é que a escola tenta fazer da arte um instrumento pedagógico. Reduz a arte. A escola, ao agir assim, está sendo servil à ideologia. A arte foi feita para grandes vôos e não para servir a qualquer forma de ideologia. A arte é para todos.
Um outro erro da escola é querer extrair da criança, expropriá-la fora do tempo. Não devemos cobrar. Vamos deixar que a poesia guardada na memória da criança volte à tona mais tarde. Num processo natural. É duro, mas temos que reconhecer que a gente, muitas vezes, não entende a criança. Vamos deixá-la contar, deixá-la expressar-se livremente. Isso é reconhecer o aluno como sujeito. Não vamos impor nada. É a criança que tem que dizer o que acha do objeto-livro. Ela tem que ter a liberdade de escolha.
A escola, assim como o homem, precisa saber das coisas de cor, do coração, saber com o coração. Essa é a grande sabedoria. A escola precisa estabelecer uma relação de acolhimento e de reciprocidade com a criança. Do mesmo jeito que a criança gosta de ouvir uma história não pela história em si, mas pelo tempo que você se dá para ela. O importante é a relação de cumplicidade que se estabelece. O importante é o contato, a presença, a proximidade, o estar perto. A história que se lê e que se conta torna-se uma relação afetiva com a criança.
Terminada a sua fala Bartolomeu Campos de Queirós respondeu a inúmeras perguntas da platéia acerca de sua vida e de seus livros. Com simplicidade e profundeza de palavras Bartolomeu fez algumas confidências acerca de sua infância: perdeu a mãe aos seis anos de idade. Ela estava com 33 anos. Teve uma irmã que também faleceu aos 33 anos, deixando seis filhos que o escritor ajudou a criar. O número 33, o número 6: são coincidências, avisos, sincronicidades? Qual o significado de tudo isso? A dúvida ficou no ar.
Ao criar os seis filhos de sua irmã, Bartolomeu foi pai verdadeiro sem nunca ter sido pai biológico. Talvez daí venha o seu conceito de que todo o pai é adotivo. Como o pai adota o filho? Responde Bartolomeu: através da roupa, da comida, adoçando a vida do filho. Aí vem a constatação dolorosa: há muitos pais pobres, os quais não podem adotar os filhos que têm. Por essa razão a escola de hoje é uma “escola de órfãos”. Existem muitos filhos que não conheceram a alegria de se verem adotados pelos próprios pais. O seu livro Ciganos pode-se inscrever dentro desse grande dilema e dificuldade que uma criança vivencia para ser adotada.
Sobre seu primeiro livro, O peixe e o pássaro, confessou o seu fascínio por esses animais: eles não deixam rastro. Sua trajetória é livre de sinalizações e de convenções. O pássaro risca livremente o céu e o peixe não tem estradas. Por isso  eles têm mais leveza que o homem e sua liberdade é maior.
Falou sobre o livro Correspondência, o qual nasceu como encomenda. O ex-presidente Tancredo Neves era seu vizinho e queria um livro que falasse sobre a Constituição. Bartolomeu aceitou o convite e escreveu o livro que, confessa, lhe deu um grande prazer. É um livro sobre adormecer e acordar palavras. Fala das coisas que falam ao coração. De cor = de coração. Corresponder significa escrever com o coração. O livro foi pensado como uma correspondência entre quatro amigos, como  uma alegoria sobre a “boa nova” pregada pelos quatro evangelistas. Quatro eram as mulheres da Bíblia, quatro eram os evangelistas, quatro os amigos que se correspondiam.
  Bartolomeu Campos de Queirós deixou a platéia magnetizada e embebida na suavidade e simplicidade dos conceitos passados, de quem não quer ensinar nada, mas que ilumina mentes e corações:

“Escutar é mais importante do que falar. Ler é superior ao ato de escrever.
“Nascer é receber a condenação de ser leitor. Para sempre.”
“A minha primeira cartilha foi o olhar do meu pai.”
“O aluno que eu escuto vem morar em mim”
“A literatura infantil é aquela que você não dá conta de guardar só para si, que você tem o prazer e a urgência de dividir com o outro.”
“A minha felicidade está no olhar de vocês.”

Ainda bem que permanece Bartolomeu Campos de Queirós dividindo conosco sua literatura cristalina, iluminando o nosso caminho de eternos condenados à leitura do mundo.  Escuta-se Bartolomeu com olhos, ouvidos, alma e coração.


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 * Bartolomeu Campos de Queirós é um escritor mineiro, autor de vários livros premiados, tais como: CIGANOS, INDEZ, CAVALEIRO DAS SETE LUAS, CORAÇÃO NÃO TOMA SOL, LER ESCREVER E FAZER CONTA DE CABEÇA, O OLHO DE VIDRO DO MEU AVÔ...

**José de Castro, jornalista profissional, escritor, autor de “A marreca de Rebeca e outros poemas”, (Paulus Editora); "Poemares" (Ed. Dimensão) e "A cozinha da Maria-Farinha" (Ed. Paulinas), dentre outros livros dedicados ao público infantil, todos eles em linguagem poética.
José de Castro
Enviado por José de Castro em 16/09/2007
Reeditado em 16/01/2012
Código do texto: T655539

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