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EDUCAÇÃO COMEÇA EM CASA

Eu participava de uma Jornada Pedagógica em que um dos palestrantes exaltava a importância da família na formação de bons costumes, do caráter e na aprendizagem das crianças. Para ilustrar melhor o que dizia, o palestrante relatou a prática adotada por uma professora, que costumava ensinar a seus alunos a importância de respeitar os mais velhos, de dizer obrigado, por favor, com licença, enfim cultivar hábitos de boa educação e de boa convivência social. Os alunos assimilavam direitinho os ensinamentos da professora e colocavam em prática tudo o que estavam aprendendo.
Certo dia, um dos alunos chegou à escola cheio de hematomas, deixando a professora bastante preocupada. Ela procurou conversar com o aluno, mas por mais persuasiva que fosse nada conseguiu arrancar da criança. Ela, então, levou o caso ao conhecimento da coordenação e da direção da escola.
A coordenadora e a diretora conversaram com o menino, que se trancava como uma ostra e nada revelava sobre as manchas espalhadas por seu corpo. Só restava uma alternativa: chamar os pais para tentar descobrir o que havia acontecido com o garoto. Foi o que fizeram.
O pai do menino atendeu prontamente ao chamado e chegou à escola explicando sem qualquer cerimônia, que os hematomas espalhados pelo corpo da criança eram resultado de uma surra que ele havia dado.  Que falta tão grave o menino cometera para ser espancado daquele jeito? Era o que se perguntavam atônitas todas as professoras presentes à reunião.
De maneira bem simples, o pai do garoto explicou que havia batido no filho porque não queria ser pai de uma “bicha”. E para completar a história macabra disse: “Todos os dias quando eu chego a casa, este menino está me esperando no portão e ao me ver, diz: boa noite, papai. Como foi o seu dia?”
Completamente estarrecidas, as professoras ouviam o pai relatando que, durante o jantar a “veadagem” do menino continuava. “Tudo o que ele quer, pede, por favor. Pai me passe o pão, por favor! E para completar, quando acaba o jantar e vai sair da mesa, pede licença e leva o prato para a pia da cozinha. Como eu não quero ser pai de “veado”, dei-lhe uma boa surra para ele aprender a ser homem”.
O palestrante reconheceu que o desfecho da história parecia uma piada, mas não era. Desafortunadamente tratava-se de um fato real com personagens reais e esta história jamais saiu da minha cabeça.
Os anos se passaram e estou na sala de aula ensinando aos meus alunos as regras de boa convivência e de boa educação. Digo aos meus alunos que existem algumas palavras mágicas que facilitam a nossa vida: com licença, obrigada, por favor. Ensino também que a gente não deve desobedecer aos mais velhos, evitar falar palavrões e que quando estiver num ônibus, devemos ceder nossos lugares para as gestantes e idosos.
Depois da aula fico um bom tempo esperando pelo ônibus da linha 50, quando vejo um dos meus alunos sendo arrastado pela orelha por sua própria mãe. A mulher estava uma fera. Fala alto, gesticula e promete uma surra assim que cheguem a casa. Eu respiro fundo e pergunto que falta o garoto praticou.
A mãe conta que faz um grande sacrifício para comprar passes para o menino e ele ainda não aprendeu a andar de ônibus. “Não pode ver uma mulher grávida ou um idoso, que trata de dar o lugar onde está sentado”.  E continuou: “Ele precisa aprender que é uma criança e tem que ser respeitado como tal”.
Ela subiu para o ônibus e eu fiquei me perguntando: Com famílias iguais a esta, será que tem jeito para a Educação deste País?
Nadja Lira
Enviado por Nadja Lira em 18/09/2007
Código do texto: T657501

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Sobre a autora
Nadja Lira
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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Nadja Lira