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Crítico



Sabe aquela sensação incômoda de estar fora do lugar e da hora que as vezes invade qualquer um de nós ?
Dizem que são fantasias.
Incrível... não as percebo como fantasias.
Sinto aquele desconforto, frequente , contínuo, ininterrupto,...
A indiferença das pessoas, a falta de palavras , a cabeça fazendo força pra não ficar vazia e ao mesmo tempo cheia sem poder se abrir.
Mas tudo isso são fantasias minhas... reflexos de um mundo interior conturbado que já transborda para fora das minhas fronteiras de carne.
Começam a expor ao mundo o meu ser.
As conexões estão cada vez mais confusas, as coisas se embaralhando... quero dizer uma coisa e digo outra .
Ou os outros entendem o que digo diferente do que eu disse?
Qual será o mistério que envolve o meu mal estar com essa condição indefinida de observador ?
Qual será a idéia que aquele a quem observo têm da minha função de observador ?
Será que a observação calada de todos estes anos não se exprime agora por meio do que chamam neurastenia.
Me chamam neurastênico por observar e critícar as coisas.
Mas claro, quem sou eu para observar e criticar a enebriante obra divina , o homem.
Teria eu que deixar de ser um homem para falar ?
Para observar e criticar o meu próximo teria eu que diferenciar-me, distanciar-me por completo do comum dos mortais? Virar um semi-Deus, uma entidade ?
Renunciar ao Ego?
Me auto iludir com minha improvável superioridade ?
Ou devo observar, refletir e guardar , acumular, como tenho feito todos estes anos ?
Os canais se  confundem as fronteiras intra mundos se rompem agora porque o caldeirão está cheio...
O caldeirão encheu e não cabe mais nada dentro.
Vou então virar um bárbaro e correr o mundo criticando abertamente tudo o que eu vir de errado.
Serei taxado de neurastênico pelos bonzinhos, louco pelos céticos e perigoso pelos donos da situação.
O que o inconformismo e a esperança podem fazer com a cabeça de um homem....
Reduzi-la a pasta de aperitivo.
Deixar falar e te fazer engolir tudo o que disse, esse é o jogo da minoria que nos domina e é o jogo que aceitamos jogar durante toda a nossa vida.
Ame-o ou deixe-o, conforme-se, arrependa-se, desculpe-se, tolere, entenda, acolha.
Nada disso, é claro, se aplica a nenhum de nós, apenas aos outros.
Hipocrisia é o câncer humano, é a deterioração endógena da nossa espécie.
O cancro que come almas e deforma consciências.
Hipocrisia é o que nos mantem presos aqui; é o que me mantem preso aqui.
Quero sair da casca pra dar uma volta.
Quem vem comigo ?
Quem têm coragem de sair da casca em vida e tornar o mundo um lugar insuportável hoje, para que possa ser melhor amanhã ?
Quem quer deixar de ser hipócrita e virar proscrito para ir de encontro a salvação ?
Quem quer cuspir na cara dos nossos cérebros ?
Não conheço meus companheiros de viagem, mas sei que estão por aí, parados ou andando...
esperando ou correndo atrás desse bonde, desse trem doido.
Estar só é estar como todos estamos.
Estamos sós por obra de nossa fraqueza e de nossa hipocrisia., do aceite dessa hipocrisia como forma de vida.
Mas isso são apenas fantasias, na verdade a vida é como é e nós temos que nos enquadrar ...não é ?
Não quero mais isso.
Não quero me arrepender do que não fiz, de têr que chorar baixo , no escuro, trancado no quarto.
Quero chorar alto, berrar no meio da rua, contagiar os passantes com a minha angústia, a minha dor...
Libertar o resto do divino que ainda resta nessa carcaça.
Que ele encontre a luz, mesmo que dissociado de mim.
Que o divino encontre o divino.
Que o homem seja mais puro e mais homem.
Que chore e não bata, que discuta e não faça calar, que grite se preciso, mas não mate.
Que veja o que ele é realmente .
O que todos nós somos...
Um só com o todo.
Da mesma carne e do mesmo sangue, da mesma saliva e do mesmo suor, da mesma lágrima e da mesma pureza daquele sorriso que ainda soltamos de vez em quando.
E que ao descobrir isso ele caia de joelhos e agradeça a revelação conseguida, e não, dada.
Deixa o teu caldeirão de mágoas virar e derrama sobre o mundo a lava espessa do que pensas.
Que me importa que te chamem neurastênico e louco.
Se me chamam perigoso, fico feliz.
Ser perigoso neste mundo é um elogio.
Significa que estou vendo o que os outros não querem vêr.
Significa que estou dizendo o que os outros não querem dizer.
Estou me libertando, nem que isso custe a condenação entre os meus.
Liberta a tí mesmo que outros te seguirão.
Liberta ao próximo que estarás libertando a ti mesmo.
Não pare de falar , não deixe que te calem, mostra que tua vida tem um sentido.

Observo, analiso , critico para o bem, mesmo que mal me entendam, por qualquer outra razão.
Elevemo-nos a condição humana, a de cidadãos, a de irmãos.
Vamos passar um dia bonito, juntos, e passear fora da casca, fora da prisão.
Vamos viver bem e juntos.
E Ele virá e dará sua benção a cada um de nós pelo que fomos.
E Ele virá e nós nos amaldiçoaremos pelo que não fomos.
Vamos ser o que pensamos, viver o que somos.
Tudo tende para a virtude e não para o vício como nos ensinaram.
Estou pagando pra ver; o preço é minha condenação de uma forma ou de outra.
Não perderei nada, qualquer que seja minha opção.
Isso aqui é só um passeio, não é uma guerra.
É ?
Márcio José
Enviado por Márcio José em 31/10/2005
Código do texto: T65802
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Sobre o autor
Márcio José
Curitiba - Paraná - Brasil, 48 anos
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Márcio José