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Sapatinhos vermelhos


A tarde tinha sido magnífica.
Afinal era dia do aniversário do “seu” Osório. Discretamente ele disse à secretaria que ia aos bancos negociar alguns descontos, e “tchum”, lá se foi ele com a “gatinha”, passar a tarde “em brancos lençóis”.

Chegou em casa lá pelas nove horas da noite, com o corpo moído como se tivesse jogado futebol americano, mas faceiro como ganso novo em beira de taipa.

Uma surpresa o esperava. A família queria comemorar o seu “niver”. Lá se foram a um restaurante. De contrapeso ia a sogra. Aturdido e distante, durante a refeição Osório pouco falou. Ainda lembrava a tarde que passara com a outra: que olhos! que cabelos! que voz! E como ela veste bem! Aquela saia de “nobuk” beje, a meia rosa leitosa, o sapato, sapato não, sapatinho, salto bem alto, vermelho, que elegância!

A mulher puxou conversa e ele respondeu monossilabicamente, divagando sobre encontros furtivos e paixões reprimidas. O filho derrubou um prato e ele nem se deu por conta, absorto que estava, recordando minuto-a-minuto a tarde de luxúria e encantamento que vivera. Ele não recordava ter passado um aniversário assim… haveria outros… muitos mais… Lembrava o perfume da parceira e as músicas que ouviram no FM “Sentimental eu sou, eu sou demais…”

Solícita, a sogra propôs um brinde. Distraído ele perguntou: “ A quem? Por que?” Constrangido ele ergueu o copo de cerveja. A tarde bebera champanhe.

Finalmente o jantar acabou, e “seu” Osório não via a hora de se jogar na cama e dormir. Na volta, todos no carro, mulher ao lado, filhos e sogra no banco de trás e ele dirigindo. E relembrando a tarde… Lá pelas tantas, distraído, ele deixa cair a mão entre o banco e a porta e tem uma surpresa: encontra um sapato. Ergue-o discretamente e tem um sobressalto. Era um pé do sapatinho vermelho da deusa. Mas como ela foi esquecer um par de sapato no carro? Como desceu com um pé só?

Enquanto levantava essas questões, ia acariciando o sapatinho. Ah! Que delicadeza! Só ela podia ter um pezinho de Cinderela que coubesse naquele sapatinho… e que perfume… o perfume do pezinho dela…

A situação começou a ficar tensa. E se a mulher descobre aquele sapato ali? Como justificar? É…é…do Paulão que esqueceu…não, não ia colar. E se a sogra achasse? Pior ainda! As sogras sempre acham que os genros são safados e tem amantes. Isso sem esquecer as crianças. Parece que elas tem parte com o capeta. Descobrem qualquer coisa em segundos…

Resolutamente tossiu alto, mostrou alguma coisa do lado direito. Quando todos olharam, jogou fora o sapato pela janela esquerda. Puxa, que alívio, dessa escapei, pensou. Quando chegaram em casa a sogra não conseguia encontrar o sapato que tirara dentro do carro, assim que saíram do restaurante.

Depois de uma exaustiva busca, lá se foi a velha, com um pé só de um sapato vermelho.

(crônica premiada em 1994)


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 02/11/2005
Código do texto: T66359
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (321917 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão