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Nos botecos da vida

Retomando atrasada às “visitas de médico”, penso em fazer o meu próprio roteiro do Rio de Janeiro. Estão se acumulando as matérias, portanto, começo por uma visita a um botequim.
Os leitores que moram fora do Brasil não entenderão o que seja botequim, então, aqui explico:
Botequim ou boteco é um bar popular. Guardadas as devidas proporções, podemos dizer que seja um pub inglês, sendo que à moda Brasil. A frequência é meio barra pesada – muito bebum e, onde se vê muito bebum, vê-se encrenca. Dependendo do local, é perigoso e com péssimo aspecto. Pode não haver um caixa eletrônico aberto, um guarda para nos proteger, ou uma loja funcionando, mas em qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer esquina, haverá um botequim.
Se a gente quer um cafezinho ou pedir informações, certamente, seremos, as mulheres, assediadas com aquele bafo de goró no cangote e literalmente comidas com os olhos. Mas, não se preocupem: na maioria das vezes, o sujeito está tão impregnado com pinga que o pintinho já mumificou... Porém, há lugares maravilhosos, onde famílias ou amigos se reúnem para passar horas agradáveis, batendo papo, falando de nada ou, dependendo do teor alcoólico, sobre política e coisas mais sérias.... Daí a célebre expressão: conversa de botequim. Se o cara está inspirado, saem até grandes pensamentos e “obras primas” do universo brasileiro - dizemos que é a filosofia de botequim. E existe a variante “psicologia de botequim”, quando ouve-se conselhos e ameniza-se mágoas, embaladas por companheiros embriagados. Foi dos botequins que saíram letras de importantes compositores da MPB, ou roteiros inteiros de peças teatrais – Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Noel Rosa que o digam.
Hoje existem até revistas especializadas nos melhores botequins do Rio de Janeiro.  E a coisa se sofisticou. Se bem que o verdadeiro boteco é aquela lojinha, com as portas abertas para a rua ou com cadeiras na calçada, muito simples, por vezes, sujo, com bebidas baratas (como cerveja e cachaça), e  os petiscos, na maioria, pingando gordura velha... São linguiças saltitantes de tanto óleo; aquele ovo cozido rosa, cheio de corante, uma loucura; o frango a passarinha, torradinho; a azeitona; a morcela; bolinhos de tudo dentro - que eu digo que é bolinho de Epa ("Epa! O que achei aqui dentro?!").
Ai!.. A morcela... Adoro morcela! Dizem que morcela é uma coisa e chouriço é outra. Não sei se é isso, mas morcela é uma linguiça de sangue de porco e chouriço é tipo um salame. Tanto faz:  como tudo. Aliás, comia, porque vou passar a vida agora fazendo dieta pelo tanto que comi de besteira nesta vida – pena que não foi nos botequins da vida...
Morcela é coisa de portuga (mas, aqui no Brasil, a melhor morcela é  a do Estado de Minas Gerais). Uma especiaria trazida pelos imigrantes portugueses. Como eles não tinham mão de obra especializada, lá pela década de... (De quando? Acho que de trinta), uniam-se em guetos, vendiam de tudo (comerciantes natos) e montavam botequins. Os outros estrangeiros tentaram, mas ninguém conseguiu molhar a barriga no balcão que nem os “patrícios”. Isto, infelizmente, está acabando, uma vez que seus descendentes progrediram ou voltaram para Portugal. Aliás, brasileiro está fazendo o mesmo e deixando nossa terra para tentar a vida além-mar – o fenômeno ao inverso. Pena que o brasuca dificilmente irá montar lá um boteco ao nosso estilo, vendendo mocotó ou feijão amigo...
Depois desta viagem histórica, volto ao meu momento cultural:
_ “E aí, Leiloca, tá a fim de comer uma sopa de siri de babar?”.
- “Que?! No meio da semana, e sopa de siri?!”.
- “Po, vai ser legal! E tem um pastel de camarão com catupiry que é divino! É aqui perto de casa, no bairro de Ramos. Já saiu até no jornal”.
Era um amigo me convidando para o manjar dos deuses.
- “Mas, aonde é, cara?”.
- “Num boteco”.
- “Botequim?! Você quer me levar para um boteco?!”
- “E daí? É lugar de família, limpinho e os clientes são quase sempre pacíficos...”.
- “Tá. Então, me diga o endereço e o nome do... vamos dizer... bar”.
- “Sei lá. Eu e minha família vamos lá há anos, mas nunca guardo o nome do  lugar. Dizemos que é o bar do antigo dono: bar do Natal, na rua João Silva, eu acho... É que sempre estou mais pra lá do que pra cá, quando saio de lá...”.
- “Ok, leva a Rebeca, tua filha, senão, não vou”.
- “Craro, Crarice! Ela já está arrumada. É só falar em tia Leila que esta garota se anima... A minha esposa, apesar de ser contra colesterol, vai junto pra dar apoio moral”.
Realmente, foi divino. A sopa é deliciosa; o bolinho de bacalhau, fenomenal; o pastelzinho de camarão, um pecado; a dona, que também serve os pratos, uma simpatia. Tivemos como companhia vários moradores próximos ao local, todos felizes, tranqüilos e tudo correu em paz. Apesar de o bairro não ter lá muito boa fama em questão de segurança, é muito bom lugar, com gente da melhor "catiguria".
Deixamos nossos problemas em casa e a conversa de botequim foi filosoficamente leve, levando para bem longe os acontecimentos que cercavam nossas vidas naquele momento.
Passo, abaixo, a letra da música de Noel Rosa. Se quiserem, eu mando a minha receita de sopa de siri para vocês ou publico no espaço para eróticos, uma vez que é um verdadeiro orgasmo...


Conversa de botequim
(Noel Rosa, Vadico e Francisco Alves)

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada

Fecha a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão

Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Telefone ao menos uma vez para 34-4333
E ordene ao Seu Osório que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom, me empreste algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure essa despesa no cabide ali em frente

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 01/10/2007
Reeditado em 21/02/2009
Código do texto: T675926

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
1086 textos (721342 leituras)
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Leila Marinho Lage

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