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CHE GUEVARA - O HOMEM E O MITO

Descobriram que Che Guevara foi gente. Proclamado tanto tempo como louco, como visionário, como santo, agora descobriram que ele foi gente. E ao descobrir que foi gente, estão esquecendo que o mundo cria e projeta aquilo que lhe convém. Podemos até atribuir a aura mitológica à máquina da propaganda marxista. Mas o buraco é mais embaixo.

Desde muito antes que o marxismo existisse, os homens já tinham Che. Criamos símbolos e precisamos deles para viver. Precisamos do mito, da fantasia, dos nossos Ulisses com os seus cavalos de pau, adaptados aos tempos em que vivemos. A simples lembrança de que, em algum lugar, existe um livre pensador valente, que afronta os poderosos, que vence os gigantes, que derruba Golias, que aniquila invasores, que contraria o sistema, que defende as idéias de igualitarismo que não conseguimos exteriorizar, mas que estão latentes dentro de nós, faz nascer o mito.

O mito é construído pelo sentimento coletivo de que estamos todos subindo um rio caudaloso, nadando contra a correnteza, resistindo à morte, embora estejamos apenas assentados à sua margem, observando-o passar com a bandeira de um mundo ideal. Os sonhos humanísticos são os melhores sonhos, os mais nobres. Mas eles podem ser como esse rio furioso pedindo passagem dentro de nossa geografia interior, buscando espaço para instalar a sua topografia a qualquer preço. Esses sonhos custam caro, e cedo descobrimos que não temos a moeda de compra. A moeda de compra de um mundo ideal não se faz com conhecimento empírico. Não é porque observamos que existe a injustiça que conseguimos implantar a justiça. Somos amadores quando se trata de estabelecer parâmetros para a nossa constituição de justiça social. Somos como a criança cuja mãe pede para compartilhar um brinquedo com o amigo e ela aceita, mas depois, vendo-se privada da posse vai lá e toma. Relativizamos o absoluto, adaptamos às nossas conveniências, legislamos em causa própria. Cedo descobrimos que defender essa justiça pode ser tão perigoso e tão fatal quanto nadar contra a correnteza de um rio furioso dentro de nós. O inimigo dorme ao lado. Então nos sentimos impotentes.

Che representou para os jovens de sua geração, a vitória contra a fraqueza existencial, o símbolo da resistência subjetiva, a possibilidade representativa de engajar-se em causas nobres, de esquivar-se à inércia dos que não fazem história. Agora se sabe que Che foi tudo, além disso ou menos do que isso, dependendo da órbita da visão.

Che foi homem e como todo homem, teve um lado escuro que só agora está vindo à tona. A quem interessa resgatar em sua biografia o mais sombrio dessa humanidade, é a pergunta que eu me faço agora, como sempre me perguntei a quem podia interessar o glamour e a fantasia com que enfeitaram a sua biografia de guerrilheiro.

Che não foi um homem comum, nem no claro e nem no escuro. O lado claro se manifestou na renúncia individual, na disposição de abdicar da própria vida. Convenhamos que ninguém estuda medicina durante 6 longos anos para não exercer essa função. Algo aconteceu no meio do caminho da vida desse jovem, que o impulsionou a abandonar os seus próprios ideais.

Ontem, meu marido recebeu um convite para uma festa em homenagem ao Dia do Médico. E no verso do convite, feito dobradura, apareciam as palavras: “ Vestibular, Passar pela Faculdade, Provas, Plantões, Residência. Você achou que depois de todo esse esforço, iríamos deixar essa data passar em branco?” Pois aqui, creio, cabe a analogia. Che deixou a vida passar em branco. Comprou, mas não aproveitou. Pagou o preço e jogou fora. Cumpriu a prova mas não recebeu o prêmio. Venceu a maratona mas não pegou a medalha. O lado acadêmico, altruísta, nobre, o conhecimento científico adquirido para salvar vidas, passou em branco. Em algum lugar do caminho, Che perdeu o sonho individual para ganhar o coletivo.

Ocorre que os sonhos coletivos são perigosos porque o coletivo traz consigo uma carga atávica de bestialidade que emerge do individual. O inconsciente coletivo tem uma tendência para a bestialidade, para a baderna. Todo homem, individualmente, tem dentro de si tanto o bem quanto o mal. Somos uma vaso para conter um tesouro, mas de vez em quando emerge a fera. De vez em quando, confinamos o tesouro a um cantinho escuro do nosso coração e deixamos que a fera se instale tranquilamente em grandes espaços.

Quando se toma para si a missão de mudar o mundo, e de realizar os sonhos da coletividade, também se toma parte da bestialidade que existe no individual. Camadas e porções vão se sobrepondo, cauterizadas, sobre a alma, enquanto “um abismo chama outro abismo.” O mito não resiste ao comando exterior da voz que clama do abismo. Ele faz qualquer coisa para continuar sendo mito, para continuar sendo símbolo de credibilidade corajosa, para continuar sendo “deus”. Ele mata sem piedade. Ele mata sem necessidade. Ele mata porque “está vivo e sedento de sangue” ( Segundo a revista Veja, foram palavra de Che em carta à esposa). Ele mata porque “nossa luta é uma luta até a morte” ( da mesma fonte). Ele mata porque “o ódio intransigente ao inimigo converte o combatente em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados tem de ser assim” ( idem). Ele mata porque é o representante da bestialidade de toda a raça humana acumulada.

Mas Che matou por algo mais. Ele matou e se deixou matar porque em algum lugar do caminho, o tesouro se perdeu e a fera se instalou de maneira amplificada dentro dele. A fera ocupou o trono do seu coração. Essa fera ronda os homens. Ela existe desde o jardim do Éden e o objetivo dessa força, cuja capacidade de persuasão não se pode subestimar, é “roubar, matar e destruir.” Não podemos imaginar os artifícios que ela usa para nos seduzir. Mas um deles, certamente é a glória dos homens. A glória dos homens constrói pacientemente um Che, fazendo-o crer que é imprescindível para a libertação da humanidade, sugerindo que os fins justificam os meios.

Che deixou um rastro de destruição e depois foi destruído. Mas a humanidade contemporânea não pode eximir-se totalmente dessa culpa. Até porque ela continua matando Che. Continuamos matando Che sempre que o imortalizamos em tatuagens, e estampas de biquínis. Continuamos matando Che quando estampamos o pôster na parede e quando repetimos como num mantra “Há que endurecer-se mas sem jamais perder a ternura.” Continuamos matando Che quando sentimos ternura diante da estampa de bom moço. A mídia fez de Che um lindo garoto propaganda que defendia a soberania de sua Pátria e lutava pelos povos subdesenvolvidos. Agora querem reverter a propaganda contra o garoto. Querem que compremos o “cheiro de rim fervido” pela falta de banho. Essa é a fragrância cheguevariana do momento. Experimente e leve pra casa, é grátis.

Quero que você reflita que esse fedor é nada perto da podridão acumulada pelos séculos dos séculos. Quero que você coloque em prática a “vigilância epistêmica” que Stephen Kenitz, cronista da mesma revista, recomenda. “Vigilância epistêmica” é para mim um termo novo, mas segundo Kenitz é “a preocupação que todos nós devíamos ter com tudo o que lemos, ouvimos e aprendemos de outros seres humanos, para não sermos enganados.” Apliquemos a tal “vigilância epistêmica” ao que se diz de Che, até porque fica muito difícil mensurar o subjetivo de um personagem que já morreu, baseando-se na aura e na “des-aura” que se controi em torno da sua história.

Ninguém é tão bom quanto se pensa, nem tão ruim quanto se imagina. Entre a imaginação e a realidade existem as pertinências subjetivas à personalidade humana, características tão íntimas, que só Deus conhece. Coração continua sendo terra que ninguém pisa, a não ser o próprio Deus.

Che não foi um inocente útil, foi um culpado inútil. Todo ser pensante que exerce a sua capacidade de interpretação filosófica, já viu isso há muito tempo. Sempre soubemos que, como guerrilheiro, ele foi homem endurecido e sem ternura. Antes que os seus atos de bestialidade fossem divulgados, já sabíamos que não há guerrilheiro sem guerra e sem os atos de selvageria que acompanham essa guerra. Mas hoje devemos saber que Che precisa morrer. Deixemos o homem em paz, permitindo que morra o mito. E que essa morte nos ensine alguma coisa mais profunda e eterna do que as verdades e mentiras da sua história.
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 02/10/2007
Reeditado em 02/10/2007
Código do texto: T677188

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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