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A medida da fé

O médico foi categórico: o caso era grave e a cirurgia seria inevitável. Urgente. A enfermeira me recebeu na porta do centro cirúrgico e me conduziu na cadeira de rodas até em frente à sala de cirurgia e me deixou esperando, enquanto a equipe terminava os preparativos.
Eu me senti só. Era um sentimento forte de abandono. Talvez, um pouco do que Jesus sentiu naquela cruz quando exclamou: "meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?". Nos dias que antecederam, a minha enfermidade se manifestara muito forte e os médicos não chegavam ao diagnóstico correto. Enquanto eu sofria, rejeitava aquela enfermidade e a repreendia com todas as minhas forças. Mas eu estava lá, prestes a ser levado para a mesa de cirúrgia. Comecei a pensar, então, sobre a medida da minha fé. Teria sido a minha fé insuficiente para evitar aquele momento? Senti-me como Jó: "aquilo que eu temia me sobreveio". Cri, mas os sinais não me seguiram, não se manifestaram. Vi a minha condição retratada nas palavras de Elifaz, amigo de Jó: "ensinava a muitos, fortalecia os fracos, sustentava os que cambaleavam e não podia agora suportar o próprio sofrimento". Pedi perdão a Deus e disse: vacilei na fé e não fui vigiliante, faltou-me a prudência e não ouvi a tua voz. Não fui capaz de evitar aquele instante. Não senti medo. Senti vergonha. Não fiquei com raiva de Deus, pois eu era o único responsável por aquele fim. Novamente veio a pergunta: qual é a medida da minha fé? Outra vez a resposta não veio. Pedi a Deus que estivesse comigo, certo de seu perdão, e lhe entreguei o meu espírito. Tenho certeza que o Espírito Santo intercedeu por mim "com gemidos inexprimíveis", e eu orei ao Senhor: "Pai, se possível, passa de mim esse cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres".
Aplicaram-me a anestesia, colocaram-me o soro, ligaram-me aos equipamentos: a minha pressão arterial e o meu batimento cardíaco figuravam no monitor ao lado. Fiquei apreensivo, esperando o momento de abrirem o corte na minha barriga. Adormeci ao som do hino "Tu és fiel Senhor" que eu busquei na minha memória. De vez em quando eu ouvia um pouco da conversa, porém, sem entender nada. Não tinha idéia de quanto tempo eu estava ali, mas imaginava que uma apendicite só levaria pouco mais de meia hora. Soube mais tarde, que o meu caso fora muito complicado e a cirúrgia durara muito mais do que isso.
Fui despertado depois de um tempo por uma voz que disse: pronto, agora é com vocês. E ausentou-se da sala. Olhei e percebi que ninguém havia saído dali. Senti-me alegre, aliviado e confortado, pois o Espírito testificou no meu coração que o anjo do Senhor estivera ali comigo. Em seguida, a anestesista me perguntou: está tudo bem? Eu acenei com a cabeça positivamente. Ela disse, eles já estão fechando, já vai acabar.
Da mesa de cirúrgia para a UTI. Foram dois dias. A minha pressão arterial e o meu batimento cardíaco e a minha taxa de glicose no sangue continuavam preocupando os médicos. Os meus movimentos eram restritos, mas eu podia mexer as pernas e me virar um pouco para os lados. A maior parte do tempo eu ficava de barriga para cima, olhando para o alto, naquela cama estreita, a cerca de um metro do chão. Um vidro me separava da mulher em coma na sala ao lado. A minha ficha de evolução relatava: paciente lúcido e orientado. Versículos da bíblia passavam diante dos meus olhos e o meu pensamento girava em torno da pergunta; qual é a medida da minha fé? Em toda a minha vida sempre resisti aos médicos e me orgulhava do fato de contar nos dedos de uma só mão quantas vezes eu havia consultado um. Minha esposa dizia que eu tinha o dom de cura, porque muitas vezes eu orei por pessoas enfermas e elas foram curadas. Contudo, eu sempre refutei a idéia, por acreditar no exercício da autoridade que Jesus nos deu: "os sinais seguirão os que crerem(...) em meu nome porão as mãos sobre os enfermos e eles serão curados". Sempre que algum sintoma de enfermidade se manifestava em mim, eu me apoiava nas palavras de Isaías 53.3-4: ele tomou sobre si as dores(...) e pelas suas pisaduras fomos sarados.
O diabetes fora um complicador a mais no momento da cirúrgia. A descoberta era recente e eu estava disposto a não aceitar a enfermidade. Um irmão na fé me perguntou se simplesmente eu iria aceitá-la ou clamar contra ela? Eu me aborreci com a pergunta e senti vergonha. Assim como aconteceu com Jó, pessoas insinuaram que a minha doença era consequência de pecado. Confortei-me ao trazer à minha memória a doença de Ezequias, a sua cura maravilhosa, o remédio usado, e o sinal. 
Só depois de deixar o hospital, é que eu fui me dando conta do que havia acontecido comigo. O relato dos que acompanharam o meu sofrimento, a leitura mais atenta dos laudos dos exames e do meu prontuário me fizeram perceber "o vale da sombra da morte" que eu acabara de passar. Era visivel a expressão de perplexidade dos médicos quando vinham me visitar. Eles diziam sempre: rapaz, você esta vivo! Quando eu voltei para a primeira consulta de acompanhamento, na semana seguinte, o médico que procedeu a cirurgia observou que eu tinha "de Cristo" no nome, e brincou comigo: ah! Você tem parente lá em cima, não é a toa que escapou. E passou a me chamar de "parente".
De observar expressões proferidas por Jesus: "homens de pouca fé", "vossa pouca fé" e "nem mesmo em Israel vi tamanha fé, não julgo apropriado afirmar que a fé não tem medida. Considerei as palavras do pregador: "tudo sucede igualmente a todos". Muitos dos apostolos que curavam enfermos e expulsavam demônios lutaram contra enfermidades. Paulo rogou a Deus, por três vezes, que lhe tirasse o espinho na carne, e o Senhor lhe replicou: a minha graça te basta. Creio que não importa saber o tamanho da fé. É preciso apenas crer, "porque as obras do justo e dos sábios estão na mão de Deus". "Temer a Deus e guardar os seus mandamentos é dever de todo homem". É preciso confiar no Senhor e não duvidar nunca, pois tal como Jó, que declarou só que conhecia Deus de ouvir falar, eu tinha dificuldade de entender porque passara por tudo aquilo. Se eu conhecia o Deus que cura, por que a minha oração não fora ouvida? No entanto, quando li o laudo do exame do pedaço de intestino que foi tirado de mim, e de ler na ficha de alta do hospital o motivo da alta: decisão médica, diagnóstico: curado, só uma coisa me importou saber: eu fui curado pelo Deus que eu conheço.

 
 
Fundamentos bíblicos:
Deuteronômio 8.3 / Eclesiastes 9.2 / Eclesiastes12.13 / Eclesiastes 9.1 /II Coríntios 12.7-9 / II Reis 20.7-9 / Isaías 53.3-4 / Jó 3.25 / Jó 4.3-4 / Jó 5.17-27 / Jó 42.5-6 / Lamentações de Jeremias 3.21-26, 29 / Marcos 11.22-24 / Marcos 16.15-18 / Marcos 4.40 / Mateus 14.31 / Mateus 17.20 / Mateus 26.39 / Mateus 27.14 / Mateus 27.46 / Mateus 6.30 / Mateus 8.10 / Mateus 8.26 / Lucas 7.9 / Romanos 8.26
 



Este texto faz parte da coletânea Alma Nua de Ivo Crifar, pela editora Baraúna.
Ivo Crifar
Enviado por Ivo Crifar em 03/10/2007
Reeditado em 13/05/2017
Código do texto: T679200
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ivo Crifar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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