Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A educação como cuidado de si

Sete Princípios Para a Conquista da
Cidadania e da Realização Pessoal*

Wilson Correia**
Camila Queiroz Capuzzo***


Introdução
Desde a Antigüidade grega a educação permeia os debates entre pensadores, filósofos e discussões feitas por diversos sujeitos sociais. Também tem sido caracterizada como uma prática social. Nesse sentido, vale o registro dos modelos de homem e mulher que em cada período histórico se torna prevalente como finalidade da educação.
Os gregos antigos, por exemplo, visavam à formação do homem sábio, sobretudo os aristocratas influenciados por Sócrates, Platão e Aristóteles. Durante a Idade Média, em plena hegemonia do teocentrismo católico, buscava-se formar o santo.
Na Modernidade esses ideais formativos cedem lugar a finalidades mais pragmáticas. Formar o homem prático, interventor na natureza por meio do uso do saber tecnocientífico e formar o homem empreendedor passam a ser as finalidades da educação escolar, devidamente massificada para atender às urgências das sociedades burguesas.
Em nossos dias parece prevalecer a idéia de que a educação deve se ocupar da formação para a cidadania liberal e preparar para a inserção no mercado de trabalho, sendo que, de modo geral, nessa proposta o cidadão é identificado com o consumidor.
Ao prever a inserção no mundo do trabalho e na sociedade de consumo, a educação parte de um segundo momento, pois, nesse caso, o humano ficou para trás. A pressuposição é a de que formação humana acontece fora ou antes, lógica e cronologicamente, de a pessoa freqüentar a escola.
Em face disso, o presente artigo aborda um assunto que nem sempre está na ordem do dia: a educação como cuidado de si. A pergunta que nos instiga é: como fazer um percurso educativo em que a busca da realização pessoal e da vivência da cidadania possam brotar do autocuidado, do cuidado de si?

A cidadania e a realização pessoal
Inicialmente, não entendemos a cidadania como sinônimo de inserção na sociedade de consumo. Para além do ato de comprar, negociar, vender e consumir, o ser humano depara em sua vida concreta com questões de ordem política. Com questões que dizem respeito à organização pessoal e coletiva no espaço da pólis, da cidade.
Nesse sentido, ser cidadão pressupõe a participação ativa na elaboração de projetos de vida em sociedade, bem como a intervenção efetiva na gestão da história particular e da comunidade de que o indivíduo faz parte.
Mas essa cidadania, contudo, não está dissociada dos assuntos que dizem respeito à formação pessoal. Na base de uma vivência cidadã encontra-se um ser humano, o qual apresenta necessidades, sonhos, desejos e demandas de ordem material (relativas à manutenção do corpo biológico), social (relacionadas às relações e vínculos com os semelhantes) mental (ligadas a pensamentos e sentimentos) e espiritual (que expressam a incompletude da pessoa humana, projetada ao infinito).
Ora, uma educação que busque fazer aprender modos de autocuidado, de cuidado de si, deve ser aquela que prima por oferecer recursos teóricos e metodológicos sobre como a pessoa pode satisfazer necessidades e realizar sonhos e desejos, de maneira a manter-se íntegra e na autenticidade que a dimensão existencial de sua presença no tempo e no espaço requer.
Mas, cá entre nós, a educação global, que vai do nascimento à morte, e a educação formal, realizada na instituição escolar, elas se ocupam em desenvolver projetos formativos que almejem tais finalidades? Elas possibilitam aos indivíduos uma formação de si que seja a base da construção de um estilo existencial conciliador da concilie vida particular e da vida social?
A bem da verdade, se formos analisar detidamente as finalidades da educação oficial em vigor em nosso país, nossa resposta a essas indagações serão pela negativa: não, preocupando-se em formar para a inserção política pelo caminho da cidadania na sociedade liberal, voltada para a formação do trabalhador, compreendendo que o limite de um estilo existencial para ambos tem no consumismo o seu teto máximo, a educação formal que desenvolvemos no Brasil não manifesta preocupação com a educação como cuidado de si.
Se efetivada essa constatação, então podemos dizer que nos encontramos diante de um enorme desafio.


Sete princípios para a educação como cuidado de si

1. Elaboração de um projeto de vida
Geralmente, inserimo-nos em processos educativos, na escola e fora dela, mas nem sempre nos perguntamos sobre o para quê dessa inserção. O fato de que somos nós os primeiros responsáveis pelo que somos e pelo que podemos ser nunca é trabalhado como matéria de formação. Fala-se de tudo, mas o primeiro interessado em tudo isso se torna um ilustre ausente de todas as considerações escolares, acadêmicas ou universitárias.
É como diz Paulo Mendes Campos em uma de suas crônicas: “Nos bancos da escola me ensinaram muitas coisas. Mas não me disseram coisas essenciais à minha condição humana: o homem não fazia parte do programa”. Não é esse um paradoxo irremediável? Ao que parece, sim.
No entanto, não é apenas os saberes que não se integram ou se conectam às pessoas. As pessoas também se estranham em si mesmas. Passariam longe dessa auto-alienação imposta heteronimamente se aos estudantes fosse ensinada a elaboração de um projeto de vida. Não um projeto como sinônimo de camisa-de-força e prisão, mas um norteamento geral sobre o que fazer de si, no sentido do alcance de um estilo existencial interessante e pelo qual valesse a pena viver.
Um projeto de vida, com propósitos claros e bem demarcados, antes de servir para amarrar e bitolar, poderia servir de base à vivência da liberdade e à conquista da realização pessoal.

2. Apropriação do autovalor
Em um teste que feito ultimamente com as pessoas que freqüentam nossos cursos, pedimos a elas que dentre os nomes das seis pessoas mais importantes de suas vidas elas circulem apenas três. Desses três, sugerimos que eliminem dois, de modo a ficar apenas o nome de uma daquelas seis pessoas  iniciais.
O processamento do teste tem sido revelador: mostra que, em geral, a pessoa não se inclui na lista das seis pessoas mais importantes da própria vida. Sempre fica um nome que não o dela própria. Pode? Ficamos intrigados e começamos a conversar.
Uma das coisas que falamos é nessa ocasião é: para que as pessoas estejam em nossas vidas nós não precisamos sumir do mapa. Em seguida, assinalamos que “se eu não fico, ninguém fica”. É a parte mais crucial, porque as pessoas resistem a compreender que, num certo sentido lógico e até ontológico, sem que “eu exista, o outro não pode existir”. No final, a maioria parece entender a mensagem.
De quebra, esse teste tem servido para que as pessoas se exercitem no estabelecimento de prioridades em suas vidas e para que pratiquem a elaboração de escolhas conseqüentes sobre aquilo que almejam para si e para o seu entorno humano, social, afetivo, cultural e profissional.
Quando descobrem seu autovalor e tomam consciência do quão importante é estabelecer prioridades e fazer escolhas, então elas são impelidas a estabelecer limites entre si mesmas e os outros, a demarcar com clareza o que é de responsabilidade de cada um. Isso, penso, é o fundamento de uma relação de reciprocidade e de troca para o autodesenvolvimento e para o crescimento do outro, de modo a buscarem, no companheirismo, a realização pessoal e compartilhada.
Então, quando é que a educação formal teve espaço para propor algo dessa natureza? Na verdade, talvez isso nem seja de sua alçada. Por isso é importante assinalar que a educação como cuidado de si deve ser o lastro de todo projeto de realização pessoal, o qual pode e deve ser compartilhado com as pessoas que circundam o seu protagonista.

3. Inserção ativa na convivialidade
Ter um projeto de vida assentado no autovalor é uma providência elementar no processo de educar-se de maneira a exercer o autocuidado. Entretanto, autovalor em si e por si não faz o menor sentido. Ele só ganha razão de ser se estiver inserido num projeto de desenvolvimento humano que implique outros seres humanos.
Nesse sentido, valem a consideração do autovalor alheio, de modo a entender que relações e vínculos nada mais são que um encontro de autovalores.
Nesse passo, o exercício consiste em propor às pessoas que estabeleçam em número por quantas mãos o alimento de que se servem passou. Elas simplesmente não conseguem. São tantas as pessoas que trabalharam para produzir o pão, por exemplo, que não dá para discernir qual é a contribuição de cada qual no longo percurso que a semente faz para chegar ao modo de alimento à nossa mesa.
Nesse ponto, peço às pessoas que pensem em algumas idéias. Por exemplo: para nascer, já precisamos, no mínimo, de mais duas pessoas. Mesmo durante a gestação e logo após o nosso nascimento, muitas pessoas se mobilizam para ensinar a cada um de nós aquilo de que precisamos para saber e saber fazer, com valor, as coisas que dizem respeito à manutenção da vida.
Essa é a dimensão coletiva da vida humana, sem a qual a existência de cada um estaria inviabilizada. É por isso que conceitos de reciprocidade, cooperação, solidariedade, respeito e uma gama de outros, correlatos a esses, são lembrados nesse momento, evidenciando a relevância da inserção de cada pessoa em processos nutritivos de sociabilidade e convivialidade humana.
Ser social e participativo no mundo humano onde nos encontramos é uma outra ação que concorre para a efetivação de uma estratégia inteligente voltada para a educação como cuidado de si. Se a solidão ontológica nos basta, a solidão no sentido de isolamento humano torna-se plenamente dispensável.

4. Estabelecimento de autolimites
Quando somos jovens, nem sempre pensamos nessas coisas discutidas aqui: projeto de vida, autovalor, cooperatividade humana e social. As instâncias formadoras também não nos dizem que isso tem significado. Vamos pela vida pressionados pelas exigências sociais ou do entorno humano mais concreto. Às vezes, tomamos decisões apenas para satisfazer a expectativa alheia e isso passa a ser fonte de frustração porque não nos reconhecemos nas nossas próprias escolhas.
Quando você pede para as pessoas estabelecerem seus pontos fortes e fracos, então elas demonstram uma grave dificuldade: não têm consciência de suas limitações e potencialidades, de suas habilidades e competências.. O lado bom disso é que passamos a ter motivos para debater o assunto.
Um detalhe para o qual sempre chamo a atenção é esse do autolimite, sempre expresso paralelamente aos pontos fortes de cada um. Se sei aquilo em que posso ser o melhor que sou capaz, então sei que meus limites já estão demarcados.
Aí entra o lado específico do autoconhecimetno: saber-se alguém que adora conciliar vários interesses, é amante do prazer e da liberdade, bondoso, controlador, convincente, corajoso e ativo, determinado, é briguento, criativo, inovador, mão aberta, interativo, medroso, narcisista, observador, otimista, perfeccionista, performático, preguiçoso, prudente, que gosta do poder, racional, reflexivo, romântico, que sabe esperar, que é metódico, sensível, trágico ou vaidoso... saber ver-se pendendo para algumas dessas características é uma ferramenta e tanto na hora de educar-se segundo os modos do cuidado de si.
Nesse contexto fica mais fácil determinar até onde posso ir, como vou, com que velocidade, bem como o que quero e posso, devo ou não devo fazer em meu benefício e o dos outros ao meu redor. Essa é uma maneira positiva de lidar com os próprios limites porque ela não nasce dos pontos fracos, mas das potencialidades de cada um.

5. Elaboração de propósitos profissionais
Projeto de vida, autovalor, sociabilidade, limites pelas potencialidades se enriquecem com bons propósitos profissionais. Se for certo que em nossa cultura há uma visão corrente que vê o trabalho como algo negativo, também há entre nós uma concepção de que o trabalho pode ser positivo.
A visão negativa sobre o trabalho vem da etimologia da palavra tripallium, os três paus que, na Antigüidade, eram usados como instrumento de tortura ou contenção de humanos e animais. Além disso, lá na bíblia o trabalho figura como castigo para Adão e Eva: para o primeiro por ter ganhado a tarefa de prover a própria vida; a segunda por ter de passar pelas dores do trabalho de parto. Isso como punição por terem errado no paraíso. Também os gregos abominavam o trabalho e valorizavam o ócio, contribuindo para que essa noção de trabalho como algo negativo se incrustasse em nossa cultura.
Entretanto, na Modernidade o trabalho passa a ser concebido como meio pelo qual o homem e a mulher interagem com a natureza e, nessa interação, entregam-se à lide da autoprodução. Por isso, penso o trabalho como co-responsabilidade, como participação na obra de construção da vida e como comprometimento com a dimensão coletiva da manutenção da existência.
Nesse ponto, vale fazer o que se gosta porque isso é básico para a realização pessoal e a felicidade. Onde a satisfação de necessidades e a realização de sonhos e desejos encontram-se com a alegria e com o prazer, esse é o ponto-fonte da realização pessoal.
Nesse sentido, a escolha da ocupação profissional deve ser feita, não ao deus-dará, por pressão de terceiros, muito menos por motivos externos à vida individual, mas, sobretudo, deve resultar do autoconhecimento e visando à materialização de uma forma concreta de cuidado de si.

6. Busca de integração entre razão e emoção
Todos os princípios precedentes não conseguirão surtir efeitos benéficos a quem os elabora se razão e emoção não estiverem afinadas. Nós, ocidentais, fomos instigados ao desenvolvimento destacado de nossa racionalidade. A emoção e os sentimentos sempre ocuparam lugar de somenos em nossas preocupações.
Contudo, é chegada a hora que todos notam a necessidade de acordar para essa realidade, notando que ela produz um reducionismo de monta em nossa personalidade e em nossa autoconcepção, auto-imagem, auto-estima e autovalor.
Saber fazer com que a racionalidade ilumine-se pela nossa emoção e sentimentos é uma decisão cada vez mais urgente e precisamos cuidar desse aspecto na educação para o cuidado de si.
Como fazer isso? Há disponíveis por aí inúmeras metodologias, diversos caminhos e variados instrumentos e ferramentas que podem nos ajudar a ir ao encontro do equilíbrio, um dos pontos centrais do autocuidado.

7. Desenvolvimento do sentido existencial
Sabemos que o coroamento dos seis princípios anteriores pode ocorrer por meio da busca do sentido existencial. Por isso esse sétimo princípio é aqui colocado: quer chamar a atenção para o fato de que nós, seres humanos, vivemos a incompletude ontológica que nos pede a projeção para o infinito. Sem essa consciência os demais princípios permanecem abertos, como um edifício que não recebeu o telhado.
Também aqui os caminhos são os mais variados, todos no âmbito da cultura simbólica humanamente produzida e desfrutada, incluindo, claro, as vias das religiões.
Nesse ponto, cabe a cada um descobrir as próprias necessidades e adequar em seu projeto de vida o tempo, a modalidade e a natureza do trabalho que fará na direção de encontrar respostas, mesmo que provisórias, para as questões que dizem respeito à sua ontologia (quem sou?) à sua gênese (de onde vim?) e ao seu percurso existencial (para onde vou?).

Conclusão
Cremos que um programa de educação para o cuidado de si que inclua esses sete princípios pode concretizar para o homem e para a mulher os meios que lhes possibilitem a auto-realização.
Porém, como ser auto-realizado para si mesmo não basta, esse programa também pode contribuir para formar cidadãos conscientes de seu papel junto aos semelhantes, no exercício da vida cidadã.
Esse é um programa germinal. O desenvolvimento dele está se fazendo a passos conscientes e tranqüilos.
O desejo é que este programa nos ajude a ser mais e a viver com mais alegria e mais contentamento esta vida que é o nosso presente e a única pela qual cada um tem de responder.

__________
* Artigo publicado no Psicopedagogia On-Line: <http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=647>.

** Wilson Correia desenvolve pesquisa de doutoramento na UNICAMP. É mestre em Educação pela UFU. Cursou especialização em Psicopedagogia pela UFG. Graduou-se em Filosofia pela UCG. É professor universitário. É autor de Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006. Endereço eletrônico: wilfc2002@yahoo.com.br.

*** Juíza Árbitra da 8ª Corte de Conciliação e Arbitragem de Goiânia, GO. Membro da Comissão da Mulher Advogada. Pós-graduada em Direito Tributário pela UCB e em Direito Público pela FESURV, com MBA em Direito da Economia e da Empresa pela FGV. Endereço eletrônico: camila.capuzzo@terra.com.br.
Wilson Correia
Enviado por Wilson Correia em 11/10/2007
Reeditado em 14/03/2009
Código do texto: T689315

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Wilson Correia
Amargosa - Bahia - Brasil
1192 textos (542294 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 16:18)
Wilson Correia