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Polidez X Educação

“A boa educação não está tanto no fato de não derramar molho sobre a toalha de mesa, mas em não perceber se outra pessoa o faz”.
Anton Tchekhov



Existiu um tempo em minha vida em que me dediquei à área moveleira.

Trabalhei primeiro como vendedora em feiras de móveis, depois montei uma bela loja de decoração, aqui mesmo, na pequena cidade de Vinhedo. Foi quando passei a produzir projetos de interiores mais elaborados.

Antes de decidir pela montagem desta loja, viajava constantemente, seguindo o chamado da empresa organizadora de feiras.

Eles decidiam o nosso destino: faziam pesquisa de mercado, fechavam um bom espaço, a propaganda local e lá seguíamos nós, parecendo um comboio itinerante, cheios de esperança de bons negócios.

De todas as cidades que tive a oportunidade de conhecer, Uberlândia foi a que mais me encantou. Não por sua beleza natural - também incrível - mas pela hospitalidade daquele povo.

Nunca me esqueci de Dona Edelmira – uma cliente que após comprar um sofá de três lugares em nosso stand convidou-me para que eu a visitasse, na intenção de que eu desse mais alguns palpites em outros ambientes de seu lar.

Chegando lá já fui logo sentindo o cheiro convidativo de café fresquinho.

Foi quando, ainda na entrada da casa, a simpática senhora me fez uma curiosa pergunta:

- “Você quer café corajoso ou covarde?”.
Nem imaginava do que ela estava falando.
Tive vontade de pedir o corajoso, afinal esta palavra me inspira muito mais confiança que a outra.
Ainda bem que, antes de decidir, pedi maiores explicações para Edelmira.

- “Minha querida, café covarde vem sempre acompanhado de algumas coisinhas gostosas, tais como rosquinhas, bolos, broinhas... já o corajoso vêm solitário"... E sorriu, gostosamente.
Pedi um muito covarde, afinal o clima já estava pra lá de descontraído.

Proseamos por longas horas. Senti-me como se estivesse na casa de uma amiga de muitos anos, onde o respeito e a cordialidade eram constantes.

A doce senhora comprou mais uma pequena mesa de centro. Suas economias não eram muitas, portanto precisou abrir mão da estante que tanto desejava.

Despedi-me, agradecida, trocando números telefônicos e promessas de visitas futuras.

Saindo dali voltei rapidamente à feira, pois já era hora de desmontar todas as ambientações e seguir para outra cidade, desta vez do interior de São Paulo.

Campinas nos recebeu com grande público consumidor. A feira fez enorme sucesso e vendemos muito. Uma das últimas clientes daquela temporada fez-me recordar saudosamente de Dona Edelmira.

Não foi difícil notar a sua presença no espaço decorado – seu andar era altivo, a maquiagem harmoniosa, as unhas compridas estavam perfeitamente avermelhadas e brilhantes, o vestido preto e branco rigorosamente assentado em seu corpo esguio, os cabelos endurecidos pelo laquê e sua polidez nos gestos completavam o estilo clássico.

Quando me aproximei busquei seus olhos, mas foi em vão.

Não me dirigiu o olhar, em nenhum momento. Perguntou os preços, como se eu fosse uma máquina de leitura de códigos de barra. Apontava um móvel e eu falava o valor, apenas isso.

De repente parou o andar e ficou admirando um recamier (uma poltrona estilo divã) recoberto por um tecido nobre, importado.

Aguardei alguns momentos até que decidi falar mais sobre a peça. A mulher virou-se em minha direção e colocou o dedo indicador abaixo do nariz, cortando a boca, ou seja: ordenando que me calasse.

Achei aquilo muito esquisito, mas silenciei, imediatamente.

Não se passaram mais de dois minutos e ela questiona o preço do móvel. Passei o valor sem conseguir comentar os possíveis planos de pagamento. Cortou-me, dizendo que pagaria em dinheiro e à vista.

Preenchi aquele pedido, relembrando o cafezinho de dona Edelmira, de sua casa caprichosamente limpa, de seu sorriso encantador e franco, de sua boa educação.

Assim que terminei meus escritos, passei os papéis para a cliente. A distinta mulher abriu sua bolsa Louis Vuitton, retirou dela muitas notas e me passou, displicente. Tudo isso sem saber o meu nome, tampouco a cor dos meus olhos.

Como se não bastasse a frieza daquele negócio, ao sair do stand atendeu seu celular moderníssimo (naquele tempo eu só conhecia alguns poucos modelos de celulares e todos eles eram enormes e pesados) dizendo à pessoa do outro lado da linha que acabara de comprar uma peça decorativa para a casa de campo, em uma loja de grife famosa, na Rua Gabriel Monteiro da Silva.
Passei a suspeitar da marca da sua bolsa.

Mas que importa?

Para ela eu era apenas uma vendedora de feira, nada mais.

Já para dona Edelmira fui bem mais que isso.

Uma tinha polidez, a outra educação.
Uma tinha dinheiro, postura de princesa, andar treinado e perfume francês.
A outra, cheiro de gente boa, olhar verdadeiro e carinho nas palavras.

Naqueles tempos eu aprendi que para sermos pessoas polidas não necessitamos mais que treino. Em contrapartida, para sermos pessoas educadas é preciso muito mais – é imprescindível que tenhamos uma boa essência, uma boa disposição para sermos agradáveis e úteis ao outro. É sabermos ser discretos e amáveis, em todas as ocasiões.

Assim era dona Edelmira - a cliente que registrou seu nome e exemplos em meu coração.
Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 11/10/2007
Código do texto: T689768
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 48 anos
37 textos (18817 leituras)
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Claudia Gelernter