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Moradores de rua – invisíveis, porém concretos.

por Claudia Gelernter - claudiagelernter@uol.com.br

"As feridas da alma são curadas com carinho, atenção e paz."
Machado de Assis





Uma das mais significativas experiências que tive nesta vida foi a de poder participar de um grupo, em São Paulo, que semanalmente visita moradores de rua daquela cidade, levando-lhes alimentos, roupas e calçados, além de algumas palavras e carinho.

Nas primeiras oportunidades estive junto dos voluntários auxiliando-os apenas com minha mão-de-obra, carregando os alimentos ou separando as vestimentas ideais, pois queria aprender como realizavam aquela abençoada tarefa. Porém, devido ao meu espírito curioso, logo passei a levantar algumas hipóteses sobre as particularidades da vida do morador de rua: Acreditava que o que mais os incomodava, naquele tipo de vida, devia ser o fato de não terem como tomar um bom banho ou por não conseguirem bons locais para dormir, estando expostos ao tempo, insetos, assim como a doenças variadas.

Como não desejava ficar apenas nas hipóteses, decidi entrevistar alguns deles e saber sobre suas histórias de vida, vontades, alegrias e dores.
Fiquei espantada ao perceber que, se por um lado uma de minhas hipóteses estava correta (a de que boa parte deles chega até a situação de morar nas ruas devido ao alcoolismo), as outras todas estavam totalmente furadas: - o que mais lhes entristecia era, na verdade, o fato de serem invisíveis para alguns ou tratados pior do que animais por outros.
Tanto que um dos pontos levantados como sendo motivo de alegria foi o convívio com estes mesmos voluntários, pois são as poucas pessoas que lhes tratam como seres humanos.

Dentre as várias entrevistas realizadas, quero destacar uma que foi feita com certo pai de família (vivia com a esposa e um filho de três anos de idade), residente nos jardins da Praça da Sé, pois ela traz pontos que foram assinalados por muitos outros que vivem na mesma situação. Durante a pesquisa contou-me que tiveram grandes problemas em família antes de optarem pelas ruas, sendo que a situação piorou muito quando se deram conta de que a cada dia ficava mais difícil conseguir trabalho. Até que desistiram, pois o linguajar, odor e aparência não lhes abriam nenhuma porta, muito ao contrário – retirava-lhes o mínimo de chance possível de algum sucesso.

Paulino (esse era o seu nome) relatou, entristecido, sobre a dificuldade que encontravam para serem reconhecidos como pessoas normais. Disse que o fato de serem tratados como se fossem invisíveis e em outros momentos como animais ou até mesmo como bandidos, os deixava muito contrariados, mesmo porque não roubavam nada de ninguém. Dizia ele: "Se fôssemos ladrões não precisaríamos morar nas ruas, pois teríamos ao menos uma pequena casa para viver".

Assim como a família de Paulino, muitos outros passam pelas mesmas humilhações. Por que será que pensamos que aquelas pessoas não têm sentimentos, necessidades ou anseios?

Ellison, um homem negro, nascido nos EUA, escreveu, em 1965: “Eu sou um homem invisível. Não, eu não sou um fantasma como os que espantaram Edgar Allan Poe; nem sou eu de vossos ectoplasmas dos cinemas de Hollywwod. Eu sou um homem concreto, de carne e osso, fibra e líquidos – e de mim pode-se até dizer que tenho inteligência. Eu sou invisível, entenda-se, simplesmente porque as pessoas recusam-se me ver”.

Este triste fato, que não ocorre apenas com negros estadunidenses, parece ter como causa as representações sociais, onde somos educados a compreender como sendo válido e bom apenas o que faz parte da cultura dominante. Tudo o que vem do “branco rico” é melhor, portanto todo o restante deve ser apagado, negado, ou explorado. Negros, garis, moradores de rua, serventes escolares, empregadas domésticas, favelados, pessoas do campo, etc., - são alguns dos que participam dos números relatados no censo, avolumando aqueles dados estatísticos, porém, sem serem percebidos como seres vivos – pensantes - dentro da sociedade.

Eu mesma posso confidenciar a você, caro leitor, que foi só a partir da primeira vez que estive com aqueles irmãos nossos que passei a me dar conta de como também não os enxergava. Era como se não existissem – a não ser que sua presença estivesse em algum lugar no caminho, atrapalhando o tráfego. Caso contrário eu não os percebia, não saberia comentar seus traços, muito menos suas vestes – mesmo que rasgadas ou mau cheirosas.

Com as experiências vividas naqueles momentos, pude compreender alguns fatos importantes: O que menos preocupa um morador de rua é o alimento, mesmo porque são auxiliados por muitos destes abnegados tarefeiros da noite. Não sentem fome do pão, contudo tem fome de afeto, de consideração, de alguém que os escute. Não sofrem apenas pela ausência de casa ou de família, mas principalmente pela ausência de humanidade. Não lamentam o fato de estarem concretamente na miséria, mas a miserável forma de tratamento que recebem.

Recordemos que, mesmo compreendendo a realidade de outra forma, estes seres que vivem da mendicância são humanos como nós e isso implica em características humanas, ou seja, eles são dotados de capacidade de pensar e sentir.

Deixemos de lado nossos medos inapropriados, nossa cegueira social! Precisamos erguer os nossos olhos na direção destas pessoas, considerando que não apenas elas existem, mas acima disso, sonham e se frustram, assim como cada um de nós.

Penso que se vez ou outra alguém lhes dirigisse a atenção, desejando saber deles o que levam em seus corações, suas vidas seriam menos doloridas e, quem sabe, um pouco mais alegres, apesar das tremendas dificuldades materiais em que se encontram.
Claudia Gelernter
Enviado por Claudia Gelernter em 15/10/2007
Código do texto: T695851
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Sobre a autora
Claudia Gelernter
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 49 anos
37 textos (19157 leituras)
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Claudia Gelernter