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Quarenta Centavos...

Banal. Uma palavra, uma expressão, um desabafo. É isto que a vida se tornou para muitos. Infelizmente já não ficamos perplexos diante dos números apresentados pela violência, seja nas estradas brasileiras ou na conjuntura da segurança pública. Os modos, as maneiras diferenciadas como as pessoas partem para a eternidade já não sensibilizam como antes.
Nossas crianças já sabem matar, já vibram com as mortes sanguinárias nos games mais variados. Armas de brinquedo tornam-se tão reais quanto as verdadeiras, tão reais que servem aos assaltantes menos corajosos como meio de coação. Nossos programas prediletos exaltam a violência. Nos desenhos os heróis matam, os bandidos matam, as crianças matam e morrem também.
O mórbido nosso de cada dia se revela nas preferências das locadoras, nos últimos lançamentos, onde,  para cada romance, dez filmes de pura “adrenalina”, ou seja, violência, nos servem de opção de entretenimento.
Lembro-me das séries do Silvester Stalone, de como na minha juventude adolescente imaginava-me uma autoridade policial, uma pessoa que logo após o assistir um dos filmes do “Cobra”, o policial justiceiro, saia do cinema disposto a fazer justiça com as próprias mãos, vitaminado pelo ódio contra o mal, contra o banditismo. Soube tempo depois que bandido também vai ao cinema, e que na versão deles o mocinho sempre se dá mal no final e na vida real também.
Estamos nos acostumando com um Brasil que volta ao pior estilo do velho oeste americano. Estamos habituados com a corrupção, estamos deitados eternamente em que berço, não sei. Penso que já é hora de nos levantarmos como sociedade, sem os políticos de carreira, sem os interesses dos aventureiros de oportunidade, com a intensidade de quem exigiu as eleições diretas.
Precisamos realizar uma manifestação convincente pela ética, pela honestidade das relações, pela restauração dos valores que tornam uma sociedade, no mínimo suportável. Um país que vê em seu líder máximo um omisso nestas questões não pode esperar que as coisas mudem sem a devida pressão popular. Creio sinceramente que somos, como brasileiros, melhores do que isto que temos visto todos os dias na mídia.
Os políticos que gritaram aos quatro cantos “Acorda Brasil”, estão agora dormindo e escondidos atrás dos seus próprios interesses. O sacudir ético que pode mudar o Brasil não virá destes contextos enquanto nos vendermos socialmente em troca de pequenos benefícios, como cestas básicas, por exemplo, ou promessas de cargos de interesse político. Quando a sociedade se corrompe neste nível, perde o poder de questionar e mudar os fatos porque perde o respaldo e a autoridade.
Os pedidos de socorro não são apenas dos abastados, são também dos favelados, os quais mesmo diante dos fatos bizarros e da proximidade com os gestores do crime, preferem trabalhar e estudar, a se corromper no tráfico. Ética não é propriedade dos estudados e educados, conheço cidadãos éticos e analfabetos. E por falar em educação, porque não voltar a estabelecer os valores, ao invés de enfatizar o relativismo como princípio de vida? Tudo é relativo? Pergunte se o bandido acha ruim levar o celular e trocar por droga enquanto mata um pai de família. Para ele foi algo que lhe fez bem. O mal que ele fez é relativo porque só foi mal para o indivíduo afetado.
Quanto vale a vida hoje? Sei lá...Acho que no último leilão saiu por quarenta centavos.

Fernando Alberto
Enviado por Fernando Alberto em 16/10/2007
Código do texto: T696231

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Sobre o autor
Fernando Alberto
Francisco Beltrão - Paraná - Brasil, 52 anos
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