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Estamos todos doentes?

“Saúde é um estado bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, conceitua a Organização Mundial da Saúde. Mas, se formos considerar minimamente essa concepção, chegamos à conclusão de que estamos todos doentes. Por quê? Porque a ética hegemônica na atualidade nos leva a isso. E como não existe ética desprendida do humano, essa constatação só reafirma nossas doenças e enfermidades generalizadas.
Mas poderão objetar: “Você está generalizando. Não são todas as pessoas que estão doentes”. E eu reafirmarei: “Se a saúde de poucos é conseguida à custa da doença de incontável multidão, essa saúde não é saudável”. Os considerados saudáveis estão cercados de doenças e enfermidades por todos os lados.
Que doenças e enfermidades são essas? Físicas. Sim, elas não têm recebido o verdadeiro enfrentamento em nossas sociedades contemporâneas porque o cuidado, um valor ético, encontra-se fragilizado. E ética, de ethos, em grego, diz respeito ao que herdamos da espécie e ao que adquirimos por meio da educação. Nossa herança biológica e física deteriora-se em função da má educação que recebemos para cuidar de nosso corpo, de nosso planeta, de nosso mundo. E os cuidadores, profissionais da saúde, mal têm conseguido cuidar de si próprios, que dirá dos seus semelhantes. Os hospitais superlotam-se. As pessoas estão morrendo em filas. Remédios e medicamentos não estão surtindo os efeitos esperados. Nossa alimentação está precária. Os maltratos roubam-nos o bem-estar corporal.
Além de estarmos fisicamente alquebrados, nossa dimensão mental regride a cada dia. Mais uma vez os valores éticos plantados em nosso entendimento levam-nos a visões distorcidas sobre o que seja a vida, as relações humanas, o trabalho e o lazer. Aqui, imprimimos em nossa mente os princípios de que: o individualismo vale mais do que a solidariedade, a competitividade é mais importante do que a cooperação, o dinheiro tem de sobrepor-se às gratuidades da vida e o consumir deve determinar a satisfação. Nesse sentido, o fulcro da realização humana entre nós assenta-se no ter, ao passo que os valores do ser permanecem em condição de menoridade para não nos dizerem nada. Por essa razão, a mentira aprisiona a verdade, o jeitinho assujeita a ética e o direito, a indiferença anula a sensibilidade, o “eu” trucida o “nós”, o mercado destroça a cidadania e o que é humano já não nos toca mais.
Estamos doentes. Nossa sociedade não vai bem das pernas. O mundo que criamos, de igual modo, não vai nada bem. Humana e socialmente combalidos, vemos os governos tomando medidas políticas de saúde que não primam pela competência teórica, metodológica e ética para que o valor do cuidado qualifique as ações de promoção da saúde. Cresce muito o número de pessoas que optam pelas profissões do cuidado, mas a qualidade da formação que lhes é destinada não cresce em qualidade como seria de se esperar. Desde os anos 1970, a saúde e a educação, práticas sociais imprescindíveis para a reconquista de nossa saúde, estão sendo tratadas, não como direitos sociais e parte de nosso patrimônio comum, mas como verdadeiras mercadorias, segundo a lei que afirma que o acesso a esses bens depende do poder de pagar. Nessa onda, o profissional da saúde se vê desprovido de competências, habilidades e aptidões para o magno serviço de prestar cuidados e para se cuidar.
Essa é a perspectiva que identifica cidadania com o ato de consumir. E consome-se até o enfado. E a qualidade desse consumo? A qualidade à parte cria cidadãos que se acostumam com mercadorias tóxicas, com educações aligeiradas e com serviços de saúde que não cuidam como deveriam.
O círculo vicioso se instalou entre nós. Poucas iniciativas púbicas e da sociedade civil são empreendidas para convertê-lo no círculo virtuoso que nos recobre o bem-estar físico-mental-social. Porque vivemos na sociedade de mercado, a coisa pública e o bem comum tornam-se questão de oferta e procura. Se são mercadorias, o Estado não precisa investir para garanti-las à sociedade, porque cada um as adquire conforme as próprias possibilidades econômicas. Se o mercado cresce o as riquezas compartilhadas passam à égide da iniciativa privada, o indivíduo torna-se presa indefesa das regras de mercado e de seus operadores, nem sempre escrupulosos ante a sanha de lucro que os mobiliza. Instala-se entre nós o cada um por si. O vale-tudo. A luta de todos contra si mesmos e contra os semelhantes. Os valores humanos se exilam de nossas cabeças, casas, ruas, cidades, países, planeta. A solidariedade se acanha. A cooperação passa a ser pieguice. E nós, cada um em sua pseudo-ilha, isolados e fragilizados, adoecemos e definhamos.
É como garante a professora Madel Therezinha Luz*, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: “A solidariedade, a visão do outro, a possibilidade de se colocar, ainda que por um minuto, na posição do próximo. Entender suas aflições. Isso poderia ter um bocado de resultados, se situado no plano da ética. Não é no plano técnico, nem intelectual. Esses valores que estão em processo de degerescência na sociedade têm a ver com a organicidade do tecido social. É como se, com a perda deles, o tecido que sustenta a sociedade estivesse se esgarçando. Com isso, as pessoas adoecem. Daí a busca por uma solução, incluindo os profissionais da área. Todos precisam do cuidado."
Oxalá, a voz dessa ilustre professora nos toque o entendimento. Mais: faça-nos compreender a urgência de ações humanas em favor do humano, da ética e do cuidar. Isso é premente se quisermos levar a efeito o conceito de saúde para além da ausência de enfermidades e de doenças, rumo àquele estado de bem-estar integral que inclui o corpo, a mente e a vida social.
Pode parecer utopia, mas o dia que eu deixar de acreditar que esse outro estado de bem-estar é possível, pouquíssimas coisas, ou quase nenhuma, farão sentido para mim.


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* Fonte: BoletIn Lappis: Integralidade em Saúde, UERJ: <www.lappis.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=806&sid=1>. Acesso: 16.10.2007.
Wilson Correia
Enviado por Wilson Correia em 16/10/2007
Reeditado em 09/01/2009
Código do texto: T696844

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Sobre o autor
Wilson Correia
Amargosa - Bahia - Brasil
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