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Camisolas e relíquias


A pena magistral de Eça de Queiroz, em “A relíquia” nos relata que a beata dona Patrocínio das Neves, conhecida como Titi, sem ter mais o que fazer, manda seu sobrinho Teodorico à Terra Santa, em busca de uma relíquia religiosa, para que a velha pudesse exibi-la às suas amigas, numa seção religiosa de canto, oração e louvor, como faziam algumas famílias lusitanas do século passado.

O rapaz, que não tinha nada de piedoso e estava unicamente de olho na herança da velha, empreende a viagem mas, ao invés dos lugares sagrados, cai de forma solerte na gandaia, descumprindo a exortação da tia, de fugir da “relaxações”. Na hora de voltar, o mancebo lembra da relíquia solicitada pela dona Patrocínio e sai em busca de alguma quinquilharia para satisfazer aquele capricho da beata.

Quando chega a Lisboa, e o pacote é aberto, na frente de outras beatas, reunidas em sessão solene, o que se vê? Por uma confusão dos diabos, ao invés da relíquia expectada, vem uma camisola  de uma das tantas mulheres com quem Teodorico andou transando no Oriente Médio. Ele perdeu a herança por causa da troca das relíquias.

Curiosamente, na língua de Camões, ao invés de camisola, dizem “camisa”, igual ao antigo “camisão” que cobria a pudicícia de nossas vovós, e que elas virtuosamente apenas levantavam para que o vovô se aproximasse de alguma coisa.

Era assim que nossos pais foram feitos: no escuro e no mais absoluto silêncio, pois naquele tempo mulher não pedia, não arranhava e muito menos gritava, "ai amor!". Elas apenas “cumpriam o dever”.

Hoje, com o liberalismo, camisola caiu de moda, dando lugar ao tecido invisível... As mulheres uivam no ato do amor.

No terreno das relíquias e das coleções tem doido prá tudo. Conheci um cara que colecionava as unhas cortadas da namorada. O ato de colecionar chaveiros, facas, calcinhas, fotos, latas de cerveja, canecos de chope, flâmulas é por demais óbvio. Tem gente por aí colecionando e transformando em relíquias coisas incríveis...

Há quem colecione carros, outros casas, outros ainda, jóias e coisas de valor. Num tempo de dificuldade, e gente colecionando jóias, que são mais usadas pelos armários e pelos sofres que o proprietário. Mudando do saco prá mala, e falando em camisola, se alguém quiser pedir uma camisola em uma loja portuguesa, receberá uma camiseta.

Achei curioso quando escutei um português dizer: “estou levando uma camisola para o putinho que tenha lá em casa”. A princípio achei engraçado... o rapaz é “boneca” e o velho leva roupa de brilho... Depois fui convenientemente esclarecido. Para a boa compreensão, traduza-se camisola por camiseta e putinho por adolescente.

Ah! eu comecei falando em relíquia e mudei de assunto...
A história da relíquia que desencadeou todo esse charivari literário é outra. Carmen e eu rimos bastante, num dias desses, recordando o fato. Numa de nossas tantas mudanças, quebrou-se um prato de sobremesa de uma coberta de mesa, autêntica relíquia familiar, presente de casamento. O prato quebrou-se em dois, pela metade. Forçada a indenizar, a transportadora mandou fazer um prato igual em um artífice de louças antigas. Depois de dois meses, me ligaram, passei na empresa e o solícito gerente me fez entrega do prato novo, artisticamente reconstruído.

Olhando não se dizia que ele havia quebrado. Constatava-se um trabalho de mestre, por certo bem caro. Coloquei-o em um envelope pardo da Caiza e vim para casa. Quando cheguei em meu prédio, tinha as mãos cheias de pacotes, pasta, chaveiros, celular, etc.

Nessa confusão, ao apanhar o envelope com a ponta dos dedos, dei azar: a boca do pacote ficou para baixo e o prato foi sonoramente ao chão, quebrando-se, desta vez em mil pedaços, desafiando o talento de qualquer restaurador. Foi o fim de uma relíquia.




Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70282
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão