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As duas portas


As formulações escriturísticas das correntes religiosas, sejam elas cristãs, budistas, judaicas, muçulmanas ou das demais, costumam centrar suas pregações, de certa forma revestidas de um maniqueísmo bi-cameral, em duas portas, uma representando o bem e outra, na contrapartida, caracterizando o mal, o mau caminho: o desvio da ética e da moral...

Inseridas na história humana, essas duas alternativas, por muitos séculos vêm assombrando as pessoas, pois, se do ponto de vista material e transitório, as coisas boas estão no mau caminho,  as recompensas mais alentadoras situam-se do lado do bem.

Nessa ambigüidade de juízos, o homem esgrima entre o bem e o mal, olhando temeroso para as duas portas que, à sua frente, se abrem. Curioso por natureza, insatisfeito e amante do viver perigosamente, o ser humano namora tanto a porta do bem como se sente tremendamente seduzido pela do mal.

Esse dualismo faz parte da indefinição psicológica da pessoa.  Pois eu conheço duas portas, mais ou menos assim. Em minhas andanças por dezenas de cidades em que trabalhei, conheci fatos e tomei conhecimento de situações que, se tivesse mais tempo, dariam vários livros de crônicas.  Em Canoas há uma  escola. Os mentores dizem que é "universidade", os alunos não concordam com a conceituação.

Na verdade, é dessas "faculdades alternativas", do tipo “dá-se um carro a quem não passar no vestibular”, entidade que, se fechasse, ninguém lamentaria. Algumas pessoas dessa faculdade, e graças a Deus não lecionei lá, para não me tornar cúmplice, contaram-me a teoria das duas portas.

O enorme prédio, situado no centro da cidade, vai de uma rua à outra.  Há duas entradas; uma em cada testada.  Uma é considerada a principal, e a outra, histórica. Ambas funcionam como entrada e saída de alunos.

E aí é que vem a história das duas portas. Lá pelas sete da noite, começava um grande fluxo de veículos: são os maridos, de um lado, gentilmente, trazendo as mulheres para a aula.  Dali há cinco minutos, pela outra porta, algumas das que entraram, trazidas pelo marido, saem, furtivamente, levadas pelo “Ricardão”, sei lá para onde. O movimento é deveras significativo.

Por volta de nove e meia da noite, inverte-se o fluxo.  Os namorados, sem qualquer escrúpulo, entregam  as louças na porta de cima e os maridos, solícitos e ingênuos, sem a mínima dor de cabeça, apanham-nas na porta de baixo.

Mas às vezes há problemas. O carro do “Ricardão” pifou,  ou o programa estava bom demais, e a moça apareceu à meia-noite, quando a escola já estava fechada...  Numa noite de chuva torrencial a mulher chegou sequinha... Numa noite de tempo bom, uma delas apareceu com o cabelo todo molhado...

Outra chegou em casa com o furo da meia na outra perna... Tem gente dando explicações até hoje.  Mas é para ver, como em muitas circunstâncias da vida humana, existem portas e portas.

Canoas, 30/06/92


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70287
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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