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As baratas



Voltei das férias com saudades de minhas atividades literárias. Subi a meu escritório e, ávido pela escrita, tirei a capa do computador, saudoso do ruído raspado da impressora.

Sobre a capa plástica do teclado diviso uma barata. Era uma dessas baratas viçosas, criadas a Toddy ou, "clinudas", no linguajar nativista. Ela tinha o corpo numa cor de marrom escuro como eu nunca havia visto. Lustroso, como que envernizado. Mexia nervosamente as patas, como se quisesse ir a algum lugar.

Enquanto eu me movia sorrateiramente em busca do veneno, olhava fixamente para o bicho, a fim de não perdê-lo de vista. Olhei para ela e ela me olhou. Fiz-lhe uma careta e ela mexeu as antenas. Movi a cabeça e ela andou para o lado e retornou ao ponto inicial.

Parado ali, contemplando a barata, iniciei uma série de divagações, conforme as circunstâncias me proporcionavam.  Lembrei o medo, mais que isso, o pânico que minha mulher tem de baratas. Se ela estivesse ali, naquele momento, teria armado um escândalo. Tanto assim que tive que renunciar a veranear num apartamento frente-mar em Garopaba, só porque as chusmas de baratas que apareciam, deixavam Carmen descontrolada, Mas não.

A situação agora era outra. Estávamos só nós dois, eu e a barata, a barata e eu, frente a frente, num namoro imóvel e ilógico. Recordei uma senhora amiga, que tem fantasias de pavor sexual, onde as baratas a cercam, sobem por suas pernas e penetram sei lá onde...

Os supersticiosos dizem que sonhar com barata dá azar. Quando se quer depreciar alguém, chamando-o de covarde ou sem ação, diz-se que "tem sangue de barata".  Há quem chame às velhas senhoras beatas de “baratas de igreja”. Recordo que o sonho de meu pai era comprar uma barata, ou seja, aquele tipo de carro, chamado club-cupê, conversível.

A expressão barata serve para outros depreciativos, às vezes na linha da crítica moral ou axiológica: “Também pudera! Casar-se com uma mulherzinha barata, daquelas!” Ou “fui em casa de Zé e me serviram uma daquelas cachaças baratas...”.

Na nova geração a expressão também adquiriu trânsito. Durante um embalo, o magro grita: “Pô, bicho, não bebe água que corta o barato!”.

A barata hoje é tão resistente, que a NASA afirma que, quem sobreviver ao day after, terá a indefectível companhia desses bichinhos envernizados.

Afinal, pergunto-me por que toda essa conversa fiada sobre baratas?  Será que não tinha um assunto melhor?  O pior é que nem eu sei o por quê.  Só sei que abri a máquina para escrever uma crônica, quando vi a barata.

Fiquei elocubrando toda essa baratologia e esqueci do que ia escrever a vocês.  No fim da história, fugiu-me a barata e dissipou-se a inspiração. Como tinha que escrever algo, escrevi sobre baratas.


                       Crônica premiada

publicada em 1999, do Diário Popular, Pelotas/RS

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70290
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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