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Desvios da língua


Os gregos, referindo-se à virulência do mau uso da língua, afirmavam que “a língua não tem ossos, mas quebra ossos”. O Talmude judaico tem coisa parecida, igualmente nos provérbios, atribuídos a Salomão: “Quem vigia a própria boca, conserva a vida; quem solta a língua caminha para a ruína”(13, 3).

Os sofistas gregos afirmavam que “a comunicação é fonte de todos os mal entendidos”. E a gente, às vezes, tem que concordar com os seguidores de Protágoras.  Se não bastasse esse axioma, há ainda os desvios da língua, o uso equivocado dela.

Trata-se da comunicação, levada, muitas vezes, ao absurdo. Nossa língua portuguesa do Brasil é pródiga em expressões contraditórias. Dizemos “pois não” para exprimir uma afirmação, e “pois sim” para a negação.  Em Portugal nossos avoengos usam o “pois pois” quando não querem dizer nada... Observando o que se escuta por aí, a gente fica estarrecido com o estupro diário que sofre a nossa língua pátria.

Há dias, ouvia o comentarista Tostão, numa transmissão da TV-BAND. Incrível! Ele consegue dizer jugar (por jogar), cabciar (por cabecear) e, como bom mineiro, ele emprega choveno(por chovendo), jogano(jogando), percurano e encontrano (procurando e encontrando) e ino (indo).

À vista de tantos desvios, conheci um pedante que recomendava: “Não maculemos o vernáculo com conspurcações solertes e deletérias”.

Os comunicadores erram tanto, que muita gente já não se sabe se é cidadãos ou cidadões,  anciãos ou anciões, pãos ou pães, tamanha a gama de intelectuais que resvala por aí.

O “ir ao encontro” também machuca muita gente. A grande maioria usa “ir de encontro...” Ora, quem vai "de encontro" é trem.  Assim também estada e estadia.

Outra palavrinha prostituída é subsídio. No latim é “sub sidium”; a pronúncia inflete para o “s” sibilado, jamais para o “z”.

O verbo vir também às vezes é cruelmente maltratado:
“Quando ele vim para cá, vou falar com ele...”. Também a flexão de palavras invariáveis:  “O ideal, neste caso é mais homens e menas mulheres...”.

Há muitos anos fui a uma festa. Lá pelas tantas, em alta octanagem etílica, um contínuo, associando-se às homenagens, resolveu discursar para elogiar o chefe.  É curioso, nessas oportunidades,  como as pessoas mais simples, esquecendo suas limitações, querem usar palavras rebuscadas. Volta e meia sai besteira. Esse, chamou o chefe, de “...amigo, bondoso, companheiro, compressivo (será que comprimia?) e lascou: “... e agiota!” Pode ?

Num encontro que fui, o palestrante quis “ir além”, e para criticar o luxo que viu no guarda-roupa de alguns, usou a  expressão  “luxúria”. Ora, todos sabemos que luxúria refere-se  aos pecados da sexualidade. Não sei se ele quis dizer algo no sentido de “luxo” ou se quis narrar uma transa dentro do armário.

Isso tudo é para mostrar como existem desvios da língua, e como ela se converte em armadilha para quem não tomou, em criança, “sopa de letrinhas”.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70324
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão